Durante 600 anos uma cidade encravada no deserto da Jordânia foi considerada lenda, como Atlântida ou Tróia. Apesar de antigos relatos descreverem com precisão os monumentos grandiosos esculpidos em rocha, ninguém foi capaz de localizá-la até o início do século XIX.
Até que em 1812, segundo Jacek Rewerski, pesquisador e professor do Centro Nacional da França para a Pesquisa Científica, “um explorador suíço, Ludwig Burckhardt (1784-1817) - primeiro europeu a entrar em Meca -, circulava pelo Oriente Próximo fazendo-se passar por um muçulmano. Tendo ouvido falar sobre uma cidade talhada na rocha, desviou-se de seu caminho, pois pressentia que podia tratar-se da legendária Petra. Ele apenas entreviu a cidade e escreveu: ‘Arrependo-me de não poder fazer um relatório completo, mas conheço bem o caráter das populações que me ladeiam. Estava sem proteção no meio do deserto, onde nenhum viajante ainda passou’. E previu: ‘Os habitantes se habituarão às pesquisas dos estrangeiros e então as antiguidades de Ouadi Moussa serão reconhecidas como dignas de figurar entre os mais curiosos restos da arte antiga’. Depois de Burckhardt ter aberto o caminho, muitos outros rapidamente o seguiram. Em 1839, um outro viajante, David Roberts, passaria por Petra, executando um conjunto de excelentes gravuras do local. A cidade experimentaria, a partir daí, seu renascimento”.
Situada à beira do deserto da Arábia, e escondida em meio às montanhas ao sul do mar Morto, Petra foi a resplandecente capital dos nabateus, descritos pelos historiadores gregos, Estrabão (64 a.C.-19 d.C.) e Diodoro da Sicília (século 1 a.C.), como uma tribo com “cerca de 10 mil beduínos que viviam do transporte de especiarias, incenso, mirra e plantas aromáticas. Eles levavam a carga da Arábia Feliz, atuais Iêmen e Omã, até o Mediterrâneo”. Esses nômades, “desejosos de preservar sua liberdade chamando de ‘sua pátria’ ao deserto, não plantavam trigo e não construíam casas”, como nos conta Jeremias, no Velho Testamento, iriam surpreender a todos criando um império e esculpindo Petra, a sua capital. Isso aconteceu por volta de 312 a.C.
Os nabateus instalaram-se a sudeste do mar Morto, nas terras dos edomitas, que foram expulsos por eles, onde dispunham de um entreposto “sobre uma rocha extremamente forte, que tinha uma só encosta”, segundo Diodoro. Tratava-se certamente do monte Umm el Biyara, em pleno centro do maciço, cujas vertentes verticais a tornam uma fortaleza praticamente inexpugnável. Mestres da arte hidráulica e da irrigação, os nabateus construíram, na cidade, grandes túneis e reservatórios que proviam o assentamento de água potável.
Ali, um teatro acolhia públicos de até 4.000 pessoas, e ainda hoje, as Tumbas Palacianas de Petra, incluída a fachada de 42 m de altura do Monastério de El-Deir, projetada à maneira dos templos helenísticos, são exemplos impressionantes da riqueza cultural do Oriente Médio. Petra – que, em grego, significa 'pedra' – sobreviveu através dos tempos porque a maior parte de seus 'edifícios' foi escavada em sólidos paredões de rocha.
Sobre Petra, os historiadores já disseram que “talvez seja a mais espetacular cidade da Antigüidade ainda remanescente no mundo moderno. Ao norte do sítio, ruínas de construções antigas, com 9.000 anos de idade, fazem dela - assim como de Jericó –, um dos mais antigos assentamentos humanos do Oriente Médio. A princípio uma cidade fortificada, Petra se tornou, com o tempo, um próspero empório comercial. O controle de algumas rotas comerciais importantes lhe trouxe a fortuna que propiciou a edificação de templos monumentais, mausoléus e edifícios administrativos”.
Entre os anos 64 e 63 a.C., época em que o general Pompeu empenhava-se em campanha para reconquistar as cidades então em poder dos hebreus, os territórios nabateus foram anexados ao Império Romano, que apesar de conceder relativa autonomia à cidade, impôs-lhe duas obrigações: o pagamento de impostos e a defesa das fronteiras das tribos do deserto. Anos depois (106 d.C.), essa autonomia foi retirada por Trajano, imperador de 98 a 117, que converteu Petra em província controlada diretamente por Roma (Arábia Petrae). Em seguida, seu sucessor Adriano (de 117 a 138) rebatizou-a de Hadriana Petrae, em honra de si próprio.
Depois disso, a posição comercial privilegiada de Petra pouco a pouco foi se enfraquecendo, e a cidade - que pode ter abrigado entre 20 e 30 mil habitantes, em seu apogeu sob o domínio romano - entrou em decadência. Em 363, um terremoto destruiu quase metade das suas construções, o que voltou a acontecer em 551, quando um segundo tremor de terra, ainda mais grave que o anterior, praticamente a destruiu. Daí em diante Petra não mais conseguiu se recuperar, pois além do desastre natural, a mudança nas rotas comerciais diminuiu o interesse quanto à sua reconstrução.
Por volta de 700 d.C, seu sistema hidráulico e seus edifícios antes graciosos, já se encontravam praticamente em ruínas. Nos séculos seguintes, Petra desapareceu da maioria dos mapas antigos e se tornou uma lenda. Em 1812, o viajante suíço Johann Burckhardt se infiltrou na cidade, disfarçado de muçulmano e, mais tarde, revelou ao mundo essa grande aventura.
Em 6 de Dezembro de 1985, Petra foi reconhecida pela UNESCO como Património da Humanidade. Em 2004, o governo jordaniano contratou com uma empresa inglesa as obras de construção de uma estrada de rodagem, visando com isso levar a Petra tanto estudiosos como turistas. Finalmente, em 7 de Julho de 2007, no estádio da Luz, em Lisboa, Portugal, ela foi eleita uma das novas sete maravilhas do mundo.