ALHAMBRA (Espanha)

Os folhetos de turismo dizem que Granada, na Andaluzia, sul da Espanha, é uma cidade que “espalha beleza e história entre duas colinas (Albayzín e Alhambra) e dois rios (Darro e Genil), nos quais, já dizia o dramaturgo Federíco Garcia Lorca, só navegam os suspiros”.

 

É nesse lugar que se situa a Alhambra, um antigo complexo de palácio e fortificações dos monarcas islâmicos que por oito séculos (711 a 1492) dominaram parte da península ibérica.  Foi construída durante os reinados de Ibn-al-Ahmar e seus sucessores (entre 1248 e 1354), da dinastia Nasrida, no alto de uma elevação arborizada batizada com o nome de colina de La Sabika, situada aos pés da serra Nevada, em planalto com 740 metros de comprimento por 205 de largura máxima, estendendo-se por uma área de 142 000m², aproximadamente.  

 

O nome Alhambra, que em árabe (Al Hamra) significa a vermelha, deriva provavelmente da cor dos tijolos de que são feitas suas muralhas, embora alguns autores acreditem que ele relembra o clarão das tochas usadas para iluminar os trabalhos de construção que durante anos se prolongavam noite à dentro, sem parar. Outros o associam ao reinado de Ibn-al-Ahmar, época em que as obras foram iniciadas.  Um manuscrito árabe revela que “em 1238 Ibn al-Ahmar chegou ao lugar hoje chamado Alhambra, examinou-o e decidiu construir ali um castelo”. Mas uma outra versão diz que muitos anos antes disso, durante o reinado de Abdallah ibn Muhammad (888-912), existia neste mesmo local um primitivo e pequeno castelo vermelho cujas muralhas, segundo documentos da época, eram incapazes de deter um exército que desejasse conquistá-lo. Ele permaneceu ignorado até ao século 11, quando foi reconstruído, mas a Alhambra que chegou à atualidade foi erguida durante a dinastia Nasrida.

 

Esse novo projeto de construção incluía detalhes para o levantamento de seis palácios, cinco dos quais agrupados e formando um quarteirão real, além de duas torres circulares e numerosos banhos. Durante o domínio da dinastia de seu fundador a Alhambra aos poucos foi se transformando numa cidade palaciana cercada por muralha com 13 torres, completada com um sistema de irrigação composto por canais para os jardins da Generalife, vila localizada no exterior da fortaleza. Esse rico complexo exibe ainda os mais sugestivos elementos da arquitetura islâmica na Espanha, juntamente com estruturas cristãs do século XVI ao lado dos acréscimos e modificações posteriores praticadas em edifícios e jardins, que definiram a sua imagem tal como pode ser vista na atualidade.

 

A partir de 1492, quando Granada foi retomada pelos espanhóis, o complexo arquitetônico original da Alhambra sofreu inúmeras alterações, principalmente por iniciativa de Carlos V, rei de Aragão e Castela (1516 a 1555), que mesmo reconstruindo áreas do complexo (em estilo diferente do original), destruiu grande parte do palácio de Inverno para dar espaço a uma estrutura que nunca chegou a ser concluída; ou de Filipe V, conhecido como Filipe de Anjou, rei da Espanha (1700 a 1746), que modificou os aposentos dando-lhes aparência mais ocidental, completou seu palacete no centro do que fora um edifício mourisco, além de mandar erguer determinadas partes que esconderam por completo algumas estruturas originais.

 

Como conseqüência desse continuado processo de desfiguração da arte islâmica, desenvolvido ao longo de centenas de anos, trabalhos inacabados foram cobertos de cal, apagaram-se as pinturas e dourados, destruiu-se o mobiliário ou levaram-no para outros locais, demoliu-se, reconstruiu-se e modificou-se total ou parcialmente, parte do que fora feito originalmente. Em 1812, durante a invasão francesa comandada por Napoleão Bonaparte, algumas das torres foram derrubadas, o que por pouco também não aconteceu aos demais edifícios. Em 1821 um terremoto causou muitos estragos ao conjunto, que só ficou completamente restaurado após o decurso de mais de uma década.

 

Mesmo negligenciada por longo tempo, e prejudicada por vandalismos intencionais e restaurações equivocadas, o complexo de Alhambra permanece como exemplo da arte muçulmana na Europa. A maioria dos edifícios, de dimensões variadas, obedece ao mesmo estilo de planta quadrangular e abertura para um pátio central, ligados uns aos outros por pequenas salas e passagens. Mas seu tamanho atual só foi atingido graças a incorporação de novas unidades por ordem dos soberanos muçulmanos que  residiram no complexo em várias épocas, com cada uma das novas seções obedecendo à mesma linha estética e funcional presente no projeto que orientou o início da construção. Ou seja, arcadas, colunas, fontes com água corrente e tanques, além de austeridade na aparência exterior.

 

Mesclando elementos naturais com outros feitos pelo homem, a Alhambra testemunha a habilidade dos artesãos muçulmanos da época de sua construção. Poetas mouros descrevem-na como “uma perola encravada em esmeraldas”, uma alusão à cor dos seus edifícios e à dos bosques que os rodeiam. No parque existem várias fontes e cascatas abastecidas pelo rio Darro através dum canal com 8 km de comprimento. Como decoração, inscrições árabes, padrões geométricos trabalhados em arabescos, e azulejos pintados como painéis nas paredes.

 

No dia 2 de Novembro de 1984 o Comitê do Patrimônio Mundial da UNESCO declarou a Alhambra e o Generalife de Granada como Patrimônio Cultural da Humanidade. Cinco anos depois, o bairro de El Albaicín (Al Albayzín), antiga cidade medieval muçulmana, obteve a mesma denominação como extensão da declaração anterior. A Alhambra foi um dos 21 candidatos finalistas para a eleição das Novas Sete Maravilhas do Mundo, embora, no final, não tenha sido escolhida como uma delas.

 

Costuma-se dizer, e sem exagero, que os turistas do mundo inteiro que procuram conhecer a Alhambra (cerca de dois milhões por ano) rendem-se admirados diante do cenário de mil e uma noites que lá encontram ao alcance dos seus olhos, das suas mãos e, sobretudo, dos seus sonhos.