Alcmena, filha de Electrião, rei de Micenas, era esposa de Anfitrião, neto de Perseu. Para seduzi-la, Zeus (Júpiter) a enganou colocando no próprio rosto as feições do seu marido ausente, e desse relacionamento nasceu um filho, Hércules, que se tornaria um dos grandes heróis da mitologia grega.
Segundo a lenda, meses antes disso acontecer Anfitrião tinha ido ajudar o seu tio Electrião a lutar contra os ladrões que haviam roubado o seu gado, porém, para sua desventura acabou matando-o acidentalmente. Por causa desse infortúnio se viu obrigado a exilar-se em Tebas, onde pretendia casar-se com Alcmena, mas para que o matrimônio se realizasse ela impôs uma condição: seus oito irmãos mortos na guerra empreendida pelo falecido pai deveriam ser vingados antes da cerimônia. Anfitrião partiu, então, para satisfazer essa exigência da noiva, e foi justamente durante sua ausência que Zeus arquitetou e executou seu plano para seduzir a jovem.
Assim foi que ele, devidamente metamorfoseado, se apresentou a Alcmena, justificando seu regresso do campo de batalha com a alegação de que teria completado com êxito a missão de que fora encarregado. E para reforçar o embuste contou-lhe detalhes dos combates travados, dos golpes certeiros que havia desfechado e de outros dos quais havia escapado, mostrando, inclusive, uma taça de ouro que garantiu ter pertencido ao derrotado, dando-a de presente a Alcmena. Feliz com a informação que lhe aplacava o desejo de desforra, ela se entregou ao falso noivo, e este a amou ardentemente. Zeus havia pedido ao filho Apolo que não percorresse o céu com o carro do Sol, e por isso o idílio do casal durou três dias consecutivos, ou seja, uma longa noite que só chegou ao fim quando o deus, saciado, retirou-se para o Olimpo.
No início da manhã Anfitrião retornou da viagem de guerra, mas estranhou a recepção pouco calorosa por parte da noiva, o que era natural, uma vez que, para ela, os dois não haviam se separado durante a noite que mal terminara. Intrigado, ele procurou o adivinho Tirésias, e este lhe revelou que um homem havia dormido com Alcmena. Essa informação deixou o noivo furioso e fora de si, o que o levou a colocar sua prometida sobre uma grande pilha de lenha e atear-lhe fogo. Mas Zeus arrependeu-se de ter sido o causador da situação difícil em que a jovem se encontrava, e por isso fez despejar sobre o lugar uma chuva torrencial que apagou a fogueira. Entendendo que o temporal passageiro fora um sinal divino, Anfitrião reconsiderou sua decisão, perdoou a noiva, voltou com ela para casa, e na mesma noite gerou-lhe um filho.
Alcmena deu à luz dois filhos homens: Hércules, fruto do seu encontro com deus, e Íflicles, filho do mortal Anfitrião. Sua gravidez durou dez meses, e se demorou mais que o tempo normal foi porque quando a deusa Hera (Juno) tomou conhecimento de que Zeus havia predito que o primeiro descendente de Perseu a nascer seria coroado rei, decidiu atrasar a gestação de Alcmena e acelerar a de Nicipe, mulher de Estênelo, antecipando assim o parto de Euristeu, que nasceu de sete meses. Posteriormente, Euristeu reinou sobre Micenas, Mideia e Tirinto, e mais adiante, quando Hércules matou sua esposa e filhos em um acesso de loucura provocado por Hera, foi obrigado por um oráculo a se submeter a ele, que o odiava, e realizar doze tarefas que o mesmo determinasse. Essas tarefas se tornariam conhecidas como os Doze Trabalhos de Hércules.
Os textos antigos relatam que a rainha do Olimpo, induzida pelo ódio, mandara sua filha Ilitia, deusa responsável pelos partos, retardar o mais possível o nascimento do herói. Para fazer isso esta se juntou às Moiras (ou Parcas, entre os romanos), as três irmãs deusas (Cloto, Láquesis e Átropos) que presidiam a vida humana (e por isso chamadas de deusas do destino), e juntas todas se sentaram na soleira da porta do quarto em que a jovem se encontrava, cruzaram as mãos e os pés, e assim permaneceram durante nove dias e nove noites, imóveis, apenas aguardando o desfecho do plano que executavam a mando de Hera (na ilustração, Alcmena, o filho Hércules e Zeus, em tela sobre óleo de Pedro Pablo Rubens-1636).
A esse respeito os textos escritos também dizem que “nessa posição mágica, que fecha o quarto e tem o sentido de um nó, as quatro divindades amarram a mulher e impedem que ela se liberte da criança. Hércules força o ventre da mãe. Está ansioso para ver a luz do dia. Alcmena contorce-se de dor e aflição. Teme por sua própria vida e pela saúde da criança. As Moiras e Ilitia continuam na posição mágica, à soleira da porta”.
Foi nesse exato momento que Galíntia, amiga de Alcmena, chegou para visitá-la, e ao encontrar as emissárias de Hera sentadas diante da porta com seus braços e pernas cruzadas, divertindo-se diante do sofrimento da mortal em trabalho de parto, percebeu o que estava acontecendo e decidiu enganá-las. Para isso ela entrou no aposento, confortou a amiga, permaneceu por lá durante o tempo que julgou suficiente, e depois saiu correndo porta à fora, fingindo alegria e exclamando em voz alta diante das divindades atônitas: “A criança nasceu! A criança nasceu!” E reforçou seu regozijo aparente afirmando que apesar dos artifícios das divindades ali presentes, a criança havia nascido graças à vontade de Zeus. Ao ouvirem tais palavras, Ilitia e as Moiras acreditaram que seus poderes haviam fracassado, e então descruzaram mãos e pernas, levantaram-se e foram embora, enquanto, no quarto, finalmente Hércules pode nascer.
Mas a deusa Hera não deixou por menos: Galintia foi transformada em doninha e obrigada a dar à luz pela boca. Como reconhecimento, Hércules ergueu-lhe um templo.
Anos depois, quando Alcmena morreu, seu corpo desapareceu do leito onde estava, ficando uma pedra em seu lugar. Essa pedra foi posteriormente colocada em um bosque sagrado, passando o lugar a ser conhecido como capela de Alcmena. Diz a tradição que o deus supremo do Olimpo mandara Hermes (Mercúrio) transportá-la aos Campos Elíseos, lugar onde se recolhiam as almas dos justos, para que pudesse casar-se com Radamanto, um dos juízes do Hades, juntamente com seu irmão Minos e Éaco. Segundo Platão, supunha-se que Radamanto julgava as almas vindas da Ásia, enquanto Éaco fazia o mesmo com as ocidentais, tendo Minos o voto decisivo.