Filho de Alceu, rei de Tirinto, antiga cidade da Argólida, situada na península do Peloponeso, no sul da Grécia; neto de Perseu, herói grego matador da Medusa, Anfitrião era esposo de sua prima Alcmena, filha de Electron, rei de Micenas. Certa feita, quando ele se ausentara para participar de uma expedição militar, Zeus (Júpiter) visitou Alcmena disfarçado com as feições de seu marido, enquanto Hermes (Mercúrio) tomou a forma do escravo chamado Sósia, para montar guarda no portão. Resultou desse encontro o nascimento de duas crianças gêmeas: Hércules, filho do deus maior, e Íflico, filho legítimo de Anfitrião.
Este, a princípio, duvidou da fidelidade da esposa, mas segundo nos relata a lenda, o dia-a-dia do casal voltou à normalidade logo após Zeus ter explicado ao marido desconfiado o que de fato acontecera, deixando-o tão contente e feliz pelo fato de sua mulher ter sido escolhida por um deus, que Hércules passou a ser reconhecido como seu descendente. A partir desse fato o termo anfitrião adquiriu o sentido de "aquele que recebe em casa", enquanto sósia ganhou o significado de "cópia humana".
Anfitrião morreu numa guerra empreendida contra os orcomenianos, povo que já existia no período pré-histórico da Grécia, e cuja cidade foi destruída e construída várias vezes.
Esse episódio mitológico inspirou diversas representações teatrais, e nelas cada autor construiu a sua própria versão da história, acentuando ora o caráter trágico, ora o caráter cômico da narrativa. A primeira dessas encenações foi realizada pelo comediógrafo Plauto (250-184 a.C.), cujos trabalhos foram lidos e muitas vezes adaptados por escritores como Moliére, Jonson e Shakespeare. De suas comédias chegaram até nós cerca de 21, quase todas completas, e uma dessas adaptações é a de António José da Silva, também conhecido como “O Judeu”, comentada pelos críticos como sendo uma “versão tendendo decisivamente para o lado cômico, explorando de forma perspicaz a confusão provocada pela temática do duplo. Mas a sua interpretação do tema clássico vai mais longe ao focar-se exclusivamente na primeira parte da intriga e ao incluir novas personagens (Juno, Íris e Tirésias) ao argumento original”.
A primeira representação dessa peça deu-se no Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, no ano de 1736. Com o título de Anfitrião ou Júpiter e Alcmena, era anunciada como “Comédia de enganos, em que Júpiter, marido da deusa Juno, se transforma em Anfitrião para gozar da formosura de Alcmena, mulher do próprio Anfitrião, que está ausente de Tebas”. O resumo da obra, tal como aparece no texto original do dramaturgo português, diz o seguinte:
“Júpiter, marido da deusa Juno, para gozar da formosura de Alcmena, mulher de Anfitrião, General dos Tebanos, se transforma em Anfitrião, por conselho de Mercúrio, Embaixador dos Deuses, tomando este também a forma de Saramago, criado de Anfitrião, para ajudar que Júpiter consiga o seu intento, por meio dos seus enganos; o que Júpiter consegue, introduzindo-se em casa de Alcmena com o nome de Anfitrião, acompanhando-o Mercúrio, que toma o nome de Saramago, estando Anfitrião ausente de Tebas contra El-rei dos Telebanos, donde vindo vitorioso, por ter morto ao mesmo Rei, Júpiter lhe usurpa o triunfo com que em Tebas o esperavam, ficando juntamente laureado Júpiter dentro do mesmo Senado com a ilusão da figura e nome de Anfitrião, o qual, voltando para a cidade de Tebas, já na sua própria casa é preso por Tirésias, Ministro de Tebas, juntamente com Alcmena, e condenados à morte, por indústria e vingança da Deusa Juno, que se disfarça com o nome de Flérida, em casa de Anfitrião. Mas enfim, como inocentes do imposto delito, são livres de serem sacrificados, por declaração de Júpiter, que sustenta o engano até ao fim, e deixa em Alcmena, por sua descendência, o esclarecido, fortíssimo e nunca vencido Hércules. O mais se verá no contexto da Obra”.