ARACNÓIDES

A classe extremamente rica dos artrópodes (possui 30.000 espécies) tem como seus representantes mais conhecidos as aranhas, os escorpiões e os carrapatos, popularmente classificados – e de forma errônea - entre os insetos. Mas é fácil distinguir um grupo de outro: os insetos têm três pares de patas, e os Arachnida quatro. Além disso, estes não possuem cabeça diferenciada do tronco, nem antenas, como acontece com aqueles.

 

Ao longo das praias do Atlântico norte, do Maine (extremo nordeste dos Estados Unidos) à península do Iucatan, no México, vive uma curiosa criatura que cava na areia e na lama procurando vermes invertebrados. É o caranguejo-rei, assim chamado apesar de não ser um crustáceo. Esse animal, com um só gênero e cinco espécies, é tudo o que resta de uma antiga classe de artrópodes essencialmente marinhos. Seu grupo mais antigo surgiu cerca de 460 milhões de anos atrás, e possuía uma estrutura que lembrava a de outros artrópodes da mesma época, aparentados com os crustáceos. Antes de desaparecem eles produziram (há 430 milhões de anos), ao que parece, duas ordens da classe, uma delas cuja conformação lembrava o corpo do escorpião. Esses seres, os Eurypteridas, extintos no fim do Paleozóico (há 250 milhões de anos), representam juntamente com os cefalópodes (classe de moluscos marinhos a que pertencem os polvos, as lulas, etc.), a primeira experiência em gigantismo animal. Enquanto todas as outras espécies à sua volta podiam ser medidas em centímetros, eles atingiram três metros de comprimento.

 

Ao enfatizarem a semelhança entre os Eurypterida e os escorpiões, autores antigos sugeriram que um descendia do outro, mas zoólogos modernos negam essa filiação. É verdade que a ordem Scorpionida (a dos escorpiões) - a mais antiga classe dos Arachnida – foi sua contemporânea, mas é improvável que uma tenha dado origem à outra. O mais certo é que elas tenham tido uma origem comum, e a partir desse antecessor imediato evoluído em três classes de artrópodes que hoje se distinguem das demais da mesma família pelas seguintes características:

 

- Seu corpo não possui cabeça diferenciada. Divide-se apenas em cefalotórax (parte do corpo que agrupa a cabeça e o tórax, muitas vezes coberto por uma carapaça, no qual se encontram os olhos, a boca, as antenas, quando presentes, os apêndices bucais e as patas) e abdome. Nele nunca aparecem apêndices comuns em outros artrópodes, como as antenas. Nos insetos e crustáceos o corpo se divide em três segmentos, um dos quais é a cabeça (se bem que nos últimos, muitas vezes a cabeça e o tórax também se fundam).

 

- Possuem sempre seis pares de membros, todos inseridos no cefalotórax. Os dois primeiros pares, chamados respectivamente quelíceras (primeiro par de apêndices localizadas dos lados da boca, são articuladas e servem para apanhar as presas), funcionam como pinças, tendo em sua base, interiormente, uma parte destinada a esmagar a comida; e pedipalpos (segundo par de apêndices, também articulados e localizados dos lados da boca, servem, na maior parte das espécies para ajudar as quelíceras na alimentação, ou para defesa). Os quatro seguintes são as pernas.


Numerosos nas regiões mais quentes e secas do mundo, os aracnóides, em sua maioria, são pequenos animais terrestres dotados de couraça quitinosa (córnea e insolúvel). Enquanto nas aranhas as quelíceras são robustas e dotadas de pequenas pinças (nelas as espécies peçonhentas têm uma agulha terminal ligada a uma glândula de veneno) e os pedipalpos, pequenos e fracos, servindo como órgãos táteis, nos escorpiões, pelo contrário, as quelíceras são fracas e os pedipalpos enormes, fortes e terminados em pinça. Os aracnóides respiram por traquéias, como acontece com os insetos, e têm a vista muito ruim. Possuem, no cefalotórax, vários olhos, compostos ou não; possivelmente um bom sentido térmico, e percebem as vibrações do ar através de pêlos sensíveis. Ao que parece, seu olfato é razoável.


Há pelo menos cinco ordens fósseis de aracnídeos, sendo as vivas divididas pelos zoólogos entre seis e onze, de acordo com critérios diferentes:

 

- os scorpíones (escorpiões) são os mais antigos, possivelmente os primeiros animais terrestres, formando um grupo homogêneo que manteve suas características primitivas, o que dificulta bastante sua subdivisão. No Brasil há umas cinqüenta espécies agrupadas em dez gêneros. Escondem-se durante o dia sob pedras, paus podres, covas ou cupinzeiros, de onde saem à noite para caçar insetos com as pinças, fulminando os maiores com seu veneno.

 

- os pseuscorpiones, pequeno grupo de minúsculos animais cujo nome deriva de uma vaga semelhança com os escorpiões, embora não possuam o longo abdome destes e nem veneno.  De semelhante, mesmo, só as longas tenazes que erguem ameaçadoramente, mesmo sendo inofensivos.

 

- os solifugae, um pequeno grupo cuja origem aparenta ser mais recente (período carbonífero, entre 359 e 299 milhões de anos atrás), e que, de forma desconhecida, readquiriu a cabeça (se, pelo contrário, for um grupo mais antigo, é o único da família que a manteve).

 

- os palpigrade, ou pedilpapos, nome que deriva do tamanho desses apêndices. Sua ferroada é dolorosa.

 

- os opiliones, que lembram aranhas de longuíssimas pernas, das quais perdem partes com facilidade mas logo as regeneram. Movem-se muito lentamente, e ao contrário das aranhas, possuem o abdome segmentado. São inofensivos e comuns no Brasil.

 

- as aranae, ou as aranhas, possuem uma glândula venenosa no cefalotórax, que desemboca no último segmento das quelíceras. Em seu abdome se encontram de quatro a seis verrugas, as fiandeiras, das quais brota um líquido que se solidifica em contato com o ar e se transforma nos fios com que constroem sua armadilha especial, a teia, ou os longos fios com que descem e sobem das árvores e tetos. Algumas espécies são cegas, outras dispõem de vários olhos, mas em geral enxergam mal, como toda a classe.

 

- as acari, ou acarina, das quais existem pelo menos 6.000 espécies, na maioria terrestres. Algumas são predadoras livres, até mesmo canibais. Muitas são ectoparasitas de vertebrados e até de insetos, e as mais famosas são conhecidas como carrapatos, cujo desenvolvimento é especial: a fêmea põe os ovos sobre as folhas e morre. Dos ovos nascem as larvas, com seis patas, que esperam passar um hospedeiro. Quando este aparece, fazem uma sucção de sangue e ficam imóveis até mudar de pele, quando surgem com oito patas. Entretanto, falta-lhes ainda o orifício genital, que só aparece depois de nova refeição e muda.

 

Fonte: Enciclopédia Abril