ARISTEU, O APICULTOR

Segundo a mitologia grega, Aristeu, filho de Apolo com a ninfa Cirene, foi um pastor. Muitas vezes chamado de Apicultor, era reverenciado como um protetor dos caçadores, dos pastores e seus rebanhos; e também considerado pioneiro da apicultura e da plantação de oliveiras. Possuía, ainda, os dons da cura e da profecia, razão porque era tido como um deus benévolo.

 

Quando ele tentou seduzir Eurídice, esposa de Orfeu, e esta tentou escapar, sua mãe Cirene, que a tudo assistia sem ser notada, transformou-se numa serpente venenosa e picou a jovem, matando-a por ter rejeitado o seu filho. Mas após o triste canto de Orfeu chorando a perda da mulher amada, as outras ninfas decidiram punir Aristeu, julgado responsável por aquele infortúnio, e para tanto acabaram com as suas abelhas. Inconformado, o pastor optou então por recorrer à ajuda da mãe, e chegando ao rio onde ela vivia assim lhe disse:

 

- Oh, mãe, o orgulho de minha vida me foi roubado. Perdi minhas preciosas abelhas. Meu cuidado e diligência de nada valeram, e tu, minha mãe, não me poupaste esse golpe do destino.

 

Cirene ouviu essas queixas quando se encontrava sentada em seu palácio no fundo do rio, tendo em torno de si as ninfas suas servas, empenhadas em ocupações feminis, fiando e tecendo enquanto uma delas contava histórias para divertir as demais. A triste voz de Aristeu interrompeu sua ocupação. Uma das ninfas levantou a cabeça acima da água e, vendo Aristeu, foi comunicar o fato a Cirene, que ordenou que o filho fosse levado à sua presença. Cumprindo sua ordem, o rio se abriu e deixou passar o pastor, conservando-se ereto nos seus dois lados como se fosse uma montanha. Aristeu desceu à região onde ficam as fontes do grande rio. Viu os enormes receptáculos e quase ensurdeceu com o barulho das águas que corriam em várias direções, para banhar a face da terra. Chegando aos aposentos de sua mãe, foi hospitaleiramente recebido por Cirene e suas ninfas, que serviram uma mesa com as iguarias mais finas. Em primeiro lugar, fizeram libações a Netuno, em seguida deleitaram-se com os manjares e, finalmente, Cirene assim se dirigiu ao filho:

 

- Há um velho profeta chamado Proteu, que mora no mar e é favorito de Netuno, cujo rebanho de focas apascenta. Nós, ninfas, dedicamos a ele grande respeito, pois é um sábio que conhece todas as coisas passadas, presentes e futuras. Ele pode dizer-te a causa da mortalidade de todas as abelhas e o meio de remediá-la, porém não o fará voluntariamente, mas somente pela força. Se te apoderares dele e o acorrentares, responderá às tuas perguntas a fim de ser posto em liberdade, pois apesar de todas as suas artes não conseguirá escapar se o prenderes em cadeias apertadas. Levar-te-ei à sua gruta, aonde ele chegará ao meio-dia, para repousar. A ti será fácil, então, apoderar-se dele. Quando, porém, se vir aprisionado, recorrerá ao poder que possui de mudar de forma. Transformar-se-á em um javali, em um tigre feroz, em um dragão coberto de escamas ou em um leão de juba amarela, ou produzirá um ruído semelhante ao crepitar do fogo ou à água corrente, para tentar fazer com que soltes a cadeia, quando então, fugirá. Bastar-te-á, contudo, mantê-lo preso e ele, quando perceber que todos os seus artifícios são inúteis, voltará à sua forma primitiva e obedecerá ás suas ordens.

 

Assim dizendo aspergiu no filho o perfumado néctar, a bebida dos deuses, e imediatamente Aristeu sentiu no corpo um vigor desconhecido e no coração grande coragem, enquanto um aroma suave recendia em torno.

 

A ninfa levou o filho à gruta do profeta e escondeu-o entre os recessos dos rochedos, enquanto ela própria se colocava atrás das nuvens. Ao meio-dia, à hora em que os homens e os rebanhos fogem do sol ardente para dormitar durante algum tempo, Proteu saiu da água seguido pelas focas que se espalharam pela praia. O velho profeta sentou-se no rochedo, contou o rebanho, depois acomodou o corpo no chão da gruta e adormeceu.

 

Sem perder tempo Aristeu o acorrentou e deu um grito. Acordando e vendo-se acorrentado, Proteu imediatamente recorreu às suas artes, transformando-se primeiro numa fogueira, depois em água, depois numa fera horrível, em rápida sucessão. Verificando, porém, que isso de nada valia, recuperou sua própria forma e dirigiu-se ao jovem, com voz irritada:

 

- Quem és tu, ousado jovem, que assim invades minha morada, e que queres de mim?

 

- Já sabes, Proteu, pois é inútil tentar iludir-te – respondeu Aristeu. – E deves, tu também, cessar os esforços para iludir-me. Aqui vim com a ajuda divina para saber a causa do meu infortúnio e o meio de remediá-lo.

 

A essas palavras o profeta, fixou em Aristeu os olhos penetrantes, e depois falou:

 

 - Recebes a merecida recompensa pelos teus atos, que fizeram Eurídice encontrar a morte. Para vingá-la, as ninfas destruíram as tuas abelhas. Tens de apaziguar a ira das ninfas, e para isso assim deves fazer: escolhe quatro touros de perfeito formato e tamanho, e quatro vacas de igual beleza, constrói quatro altares  para as ninfas e sacrifica os animais, deixando suas carcaças no chão do bosque coberto de folhas. A Orfeu e Eurídice deverás render honras fúnebres suficientes para aplacá-los. Voltando depois de nove dias, examinarás as carcaças dos animais e verás o que aconteceu.

 

Aristeu seguiu fielmente essas instruções. Sacrificou os animais, deixou suas carcaças no bosque, prestou honras fúnebres às sombras de Orfeu e Eurídice. Então, voltando no nono dia, examinou as carcaças dos animais e – maravilha! – um enxame de abelhas tomara posse das carcaças e trabalhava como numa colméia.

 

Fonte: Histórias de Deus e Heróis, de Thomas Bulfinch