Entre os mamíferos carnívoros, os canídeos constituem uma família homogênea. Espalhados por quase todo o globo, eles são muito ágeis na movimentação, possuem corpo musculoso, focinho proeminente, grandes orelhas às vezes ereta, pernas longas e esguias, cauda bem desenvolvida, recoberta de pêlo espesso, e, em sua maioria, poderosa dentadura de tipo cortante, composta por 42 dentes (na ilustração, um lobo guará). Seu tamanho varia de 20cm a 1,5m, chegam a pesar de 1 até 80 quilos, e se apóiam sobre os dedos (cinco nas patas anteriores e quatro nas posteriores). De costumes terrestres, são excelentes caçadores, dotados de extraordinário fôlego nas corridas longas, além de faro excepcional. Prolíficos, a fêmea pode ter, depois de uma gestação de 50 a 70 dias, de 2 a 13 filhotes, cujo período de amamentação dura de 6 a 10 semanas. Aos dois anos, em geral, os canídeos atingem a maturidade sexual que, às vezes, pode durar até 18 anos. A família é dividida em quatorze gêneros e quarenta espécies, algumas de valor econômico para o homem (como as raposas, cuja pele é bastante procurada).
O lobo é representante típico do gênero Canis, ao qual também pertencem o cão doméstico, o dingo, o coiote, o chacal, etc. São eles, entre os canídeos, que mostram maior tendência gregária, manifestada principalmente na formação de grupos que desenvolvem ações coordenadas, especialmente na caça. Maior representante do gênero, o lobo pode viver em florestas, estepes e regiões cultivadas, seja nas planícies ou nas zonas montanhosas. Como sua alimentação varia conforme a região e a estação do ano, cada um pode se nutrir de grandes caças, pequenos mamíferos, e até mesmo insetos, bulbos e tubérculos. Costumam reunir-se em alcatéias que marcham mais de 40 quilômetros por dia, mas na época da fecundação os grupos tendem a dissolver-se, restando apenas casais ou indivíduos isolados. O lobo é certamente o ancestral do cão doméstico (Canis familiaris), cuja convivência com o homem remonta a tempos longínquos. Segundo pinturas pré-históricas encontradas em cavernas da Espanha, milênios antes de Cristo eles já eram empregados como animais de caça.
O cão doméstico é inteligente, sociável, e tem tamanho que varia entre 18cm até 1 metro. Excelente nadador e corredor, ele possui maneira característica de andar: o corpo permanece sempre oblíquo em relação à direção da marcha. Como não tem, na pele, glândulas sudoríparas em quantidade suficiente, a maior parte da sua transpiração é feita por uma glândula sublingual, o que o obriga a permanecer com a boca aberta quando sente muito calor. Donos de instinto sexual desenvolvido, notadamente durante o cio, os da espécie estão sujeitos, no entanto, a inúmeras doenças, sendo a raiva a mais perigosa delas. Causada por um vírus, manifesta-se após uma incubação de quarenta dias, aproximadamente, e é transmitida pela saliva do animal infectado.
Os cães podem ser divididos em cães de caça, de guarda, de guia e de companhia. Entre os primeiros, há os que apontam (pointer, setter), os que cercam e levam a caça até o caçador (cooker spaniel), os que a seguem (onceiro, galgo). Entre os de guarda, há os de defesa (boxer, dobermann) e de pastoreio (pastor alemão, fila brasileiro). Os cães de guia, por sua vez, são treinados para serviços especiais, em particular para auxiliar cegos. Já os cães de companhia raramente exercem outra função (chihuaha, pequinês).
De grande ferocidade, o dingo (na ilustração), canídeo típico da Austrália, se assemelha a um grande cão vira-latas de pêlo avermelhado, vivendo em grupos que caçam cangurus e carneiros, razão por que é perseguido pelo homem. Sua ferocidade é apontada como responsável pelo extermínio do lobo marsupial que existia na Austrália. Outros canídeos do gênero Canis são o chacal e o coiote. O primeiro, menor que o lobo, possui quatro espécies. Nutre-se de pequenos mamíferos e aves, mas em períodos de grande necessidade pode comer frutas, vegetais e insetos. Caça isolado ou em duplas, mas quase nunca percorre grandes distâncias.
Na Europa e parte da Ásia, o representante mais importante do grupo é o chacal dourado (Canis aureus), de costumes noturnos, muito ágil e bom corredor. Costuma atacar habitações humanas, matando animais domésticos e invadindo despensas. Já o coiote pertence à fauna americana, espalhando-se desde o Alasca até a Costa Rica. Tem aspecto intermediário entre o lobo e a raposa, chegando a medir 50 centímetros de altura. É excelente corredor e chega a fazer 64km por hora. Antigamente, a espécie era bastante numerosa e caçava durante o dia, mas hoje os grupos são reduzidos e caçam apenas à noite.
Economicamente valiosa, devido à imensa procura de sua pele, a raposa é também um dos canídeos mais odiados pelo homem. Seus ataques noturnos às fazendas causam preocupações e grandes prejuízos. A raposa polar (Alopex lagopus) é um dos poucos representantes de mamíferos que vivem nas latitudes extremas, Animal pequeno, mede cerca de 60cm e não chega a pesar mais de 9 quilos. Seu pêlo, muito espesso, possui duas fases de coloração: uma branca, durante o inverno, permitindo-lhe confundir-se com o ambiente, e outra cinzento-azulada. As raposas comuns, encontradas na Europa, Ásia e América do Norte, pertencem ao gênero Valpex. De dimensões médias, possuem corpo alongado, pernas curtas e esguias, focinho longo e afilado e orelhas altas e triangulares. Elas podem viver tanto nas montanhas quanto nas planícies, mas preferem locais selvagens, onde não se faça sentir a presença humana, e ali se alimentam de pequenos mamíferos, frutas e ovos que obtêm durante a noite.
Outro canídeo que costuma caçar à noite é o feneco, que vive nas regiões áridas e desertas entre o Sinai e a Arábia. Ágil e gracioso, possui pêlo avermelhado variando para o branco, e se alimenta de insetos, répteis, pássaros e ovos. Para procurar as presas, conta com o auxílio das enormes orelhas capazes de captar qualquer ruído. Mede apenas 20cm de altura e 40cm de comprimento, dos quais metade é representada pela cauda.
No Brasil, o canídeo mais curioso é o guará, ou lobo-guará, de pêlo semelhante ao da raposa e de hábitos noturnos. É também chamado de lobo-de-crina e vive nos campos abertos, em locais onde abunda a chamada fruta-de-lobo, ou lobeira, seu alimento preferido, embora aves, répteis e pequenos roedores sejam incluídos habitualmente em suas refeições. O seu uivo amedronta a quem não o conhece, mas é inofensivo ao homem, exceto pelos prejuízos que causa com suas freqüentes incursões aos galinheiros. O cachorro-do-mato, também encontrado no Brasil, é de cor pardo-cinzenta, mais escura ou mesmo negra no dorso, cauda, focinho e garganta. O janaú, conhecido também como cachorro-vinagre, é bastante raro. De cauda curta e grossa, vive em tocas no solo e alimenta-se de frutas e pequenos animais, sobretudo roedores. Sabe-se que vive desde o Panamá até o Paraguai, mas é um dos canídeos menos conhecidos.