O berimbau, instrumento utilizado para acompanhar o gingado da capoeira, é um arco de madeira com as extremidades ligadas por um fio de arame que se faz vibrar, para produzir som, com a ajuda de uma vareta. De origem desconhecida, supõe-se que tenha sido criado há 15.000 anos aproveitando o arco de caça usado pelos homens primitivos para abater animais. Mas tal opinião não é unânime porque outros entendidos defendem a teoria de que tenha acontecido o contrário, ou seja, do arco musical foi que surgiu a idéia de seu aproveitamento como arma para disparar flechas.
A suposição de que o berimbau seja tão antigo nasceu em julho de 1914, quando desenhos datados do último período da Era Paleolítica, ou Idade da Pedra (de 2 milhões até 10.000 a.C.) foram descobertos em caverna no sudeste da França. Entre eles o de um homem coberto com peles de bisão e portando o que o abade francês Henry Breuil (1877-1961) considerado o papa da Pré-História mundial, identificou como sendo um arco musical.
Tal instrumento permaneceu ignorado até início do século 19, quando diversos exploradores registraram sua existência no continente africano e também no Brasil. Entre essas informações estava a de Hermenegildo Carlos de Brito Capelo (1841-1917) e Roberto Ivens (1850-1898), que em julho de 1877 exploraram o interior africano. Retornando a Lisboa em 1880, eles relataram no livro De Benguela às Terras de Iaca, o que tinham visto durante a expedição, incluindo um desenho do instrumento, mas sem fornecer maiores informações a seu respeito.
E também a de Ladislau Batalha (1856-1939) que em seu livro Angola, editado em Lisboa (1889), assinalou que “o humbo, um instrumento de corda, consta geralmente de metade de uma cabaça, oca e bem seca. Furam-na no centro, em dois pontos próximos. À parte, fazem um arco como o de flecha, com a competente corda. Amarram a extremidade do arco, com uma cordinha do mato, à cabaça, por via dos dois orifícios; então, encostando o instrumento à pele do peito que serve neste caso de caixa sonora, fazem vibrar a corda do arco, por meio de uma palhinha”.
Ou a de Henrique Augusto Dias de Carvalho (1843-1909), que publicou em Lisboa (1890) o livro Etnografia e História Tradicional dos Povos de Luanda, mostrando nele o desenho do mesmo instrumento. Mas lhe deu o nome de rucumbo, esclarecendo que era “constituído de uma corda distendida em arco de madeira flexível, que tem numa das extremidades uma pequena cabaça a servir de caixa de ressonância; o arco fica entalado entre o corpo e o braço esquerdo, indo a mão correspondente segurar nele a certa altura; os sons são obtidos com a mão direita, por intermédio de uma pequena varinha que tange a corda em diferentes alturas”.
O mesmo aconteceu no Brasil. Em 1816, o português Henry Koster (1793-1820), também conhecido como Henrique da Costa, que chegara a Pernambuco em 1809, referiu-se ao instrumento em seu livro Travels in Brazil (1816), descrevendo-o como “um grande arco com uma corda tendo uma meia quenga de coco no meio, ou uma pequena cabaça amarrada. Colocam-na contra o abdômen e tocam a corda com o dedo ou com um pedacinho de pau”.
Anos depois a inglesa Maria Dundas Graham Callcott (1785-1842), referindo-se aos instrumentos que examinara em uma fazenda fluminense (Diário de uma viagem ao Brasil, 1824), revelava: "Um é simplesmente composto de um pau torto, uma pequena cabaça vazia e uma só corda de fio de cobre. A boca da cabaça deve ser colocada na pele nua do peito, de modo que as costelas do tocador formam a caixa de ressonância, e a corda é percutida com um pauzinho”.
Mais adiante, o francês Jean Baptiste Debret (1768-1848), que chegara ao Brasil em 1816 e retornara em 1831, publicou em Paris, de 1834 a 1839, uma série de gravuras sobre aspectos, paisagens e costumes do Brasil (Viagem pitoresca e histórica ao Brasil). Numa delas, que mostrava o berimbau, o artista explicava que "Este instrumento se compõe da metade de uma cabaça aderente a um arco formado por uma varinha curva com um fio de latão sobre o qual se bate ligeiramente. Pode-se ao mesmo tempo estudar o instinto musical do tocador que apoia a mão sobre a frente descoberta da cabaça, a fim de obter pela vibração um som mais grave e harmonioso. Este efeito, quando feliz, só pode ser comparado ao som de uma corda de tímpano, pois é obtido batendo-se ligeiramente sobre a corda com uma pequena vareta que se segura entre o indicador e o dedo médio da mão direita.
À primeira vista o berimbau aparenta ser algo improvisado, sem destinação aparente, quando, na verdade, é um instrumento de percussão capaz de emitir diversas sonoridades. Antigamente, ele era encontrado na Bahia, Maranhão, Pernambuco e Rio de Janeiro, os quatro grandes centros de distribuição de escravos, não sendo possível estabelecer os motivos pelos quais essa área acabou ficando restrita apenas à Bahia, onde passou a ser identificado como elemento típico da capoeira. Chamando-o berimbau-de-barriga, os capoeiristas o diferençavam e distinguiam do outro, o berimbau-de-boca, que é definido pelo Dicionário da Real Academia de Espanha como “um pequeno instrumento musical que consiste em uma barrinha de ferro em forma de ferradura, que leva no meio uma lingüeta de aço, a qual se faz vibrar com o indicador da mão direita, mantendo-se com a esquerda o instrumento entre os dentes”. Inspirada nele surgiu a pergunta que em outros tempos se fazia quando alguém cometia certo tipo de erro: você pensa que berimbau é gaita?