Os espelhos vêm sendo usados desde a antiguidade, mas embora não se saiba exatamente quando se iniciou o seu emprego, referências feitas a eles podem ser encontradas na Bíblia e em diversos escritores da Grécia antiga, que nos deixaram narrativas lendárias sobre certo espelho ardente, ou ustório (que queima, que facilita a combustão), um sistema de espelhos curvos com os quais Arquimedes (287 - 212a.C.) e os defensores de Siracusa, na Sicília, Itália, teriam queimado à distância - pela concentração dos raios solares - os navios romanos que sitiavam aquela região; enquanto Proclo, engenheiro do imperador Anastácio I (430-518), se valeu do mesmo estratagema para promover o incêndio de Constantinopla, atual Istambul, Turquia. O mesmo espelho figuraria ainda em quadros dos séculos 15 e 16, supondo-se que tenha sido usado, na época, como objeto de superstição, ao qual se atribuíam certas virtudes mágicas.
Os arqueólogos descobriram espelhos pertencentes aos antigos gregos, aos egípcios e aos hebreus, consistindo eles, geralmente, de um disco metálico, de face polida. Na Grécia, a partir de certo período, essas lâminas começaram a ser decoradas na face oposta à polida, com relevos de caráter quase sempre festivo ou erótico. Sêneca condenou o exagerado luxo das romanas, dizendo que usavam espelhos do tamanho do corpo humano. No entanto, eles se tornaram em Roma jóias de alto preço devido principalmente aos adornos que levavam, sendo freqüente a representação de Vênus empunhando um espelho.
Na Idade Média usavam-se diversos metais na fabricação de espelhos, sendo muito apreciado o de aço polido, mais difícil de ser trabalhado porém apresentando a vantagem de ter imagem mais nítida. A fabricação de espelhos de vidro parece ter tido início no século 13, e como jóia muito preciosa empregaram-se espelhos formados de lâminas de cristal de rocha, com uma das faces cobertas de metal. Eram objetos portáteis que as damas traziam em bolsas ou em saquinhos à cintura. No século 17, Veneza tornou-se importante centro de fabricação de espelhos para adorno de móveis e paredes, e com isso passou a exportá-los para toda a Europa. Pouco tempo depois, a partir do século 18, tais espelhos chegaram a atingir grandes dimensões e se tornaram imprescindíveis na ornamentação de casas da classe rica, variando o formato e o tamanho das molduras de acordo com os diferentes estilos de decoração.
Há milhares de anos, acreditava-se que a imagem de uma pessoa, seja numa pintura ou mostrada em um reflexo, era parte dela própria, e qualquer coisa que acontecesse com a imagem, sucederia também a ela. Mais adiante, os gregos tinham o costume de ler o futuro a partir da imagem de uma pessoa refletida sobre uma tigela com água. Se o pote quebrasse, era azar na certa. Os romanos herdaram esse hábito, acrescentando que a má sorte se estenderia por cerca de sete anos. Quando os espelhos de vidro surgiram, no século 16 em Veneza, atual Itália, por um preço suportado apenas pelas pessoas de posses, a superstição ganhou novas dimensões, pois os nobres avisavam a seus serviçais que, se porventura eles quebrassem um, estariam fadados a viver sete anos de mau agouro. Daí em diante, uma série de superstições foram incorporadas ao histórico do espelho, das quais as mais conhecidas são:
- Quando uma pessoa morre todos os espelhos da casa devem ser cobertos com pano preto durante a semana seguinte após sua morte.
- Não é boa idéia a pessoa falar diante de um espelho, porque durante aquela noite provavelmente ela terá sonhos horríveis.
- Recém-nascidos não devem ser colocados diante de espelhos, pois se isso acontecer, eles vão demorar a falar.
- Quebrar um espelho dá sete anos de azar.
- Ficar se admirando num espelho quebrado é ainda pior. Significa quebrar a própria alma.
- Ninguém também deve se olhar num espelho à luz de velas.
- Não permita ainda que outra pessoa se olhe no espelho ao mesmo tempo que você.
Sobre a superstição relacionada com a quebra de espelhos, uma versão relata que na Mongólia, então parte da China Imperial, o irlandês Sean Gollachley se estabeleceu em Ulan Bator e ali enriqueceu. Homem de poucos amigos, ele foi acusado de um crime em 1835, aproximadamente, e para não ser preso e interrogado por sete policiais das forças de segurança que o foram buscar, suicidou-se engolindo o espelho italiano que sempre trazia consigo. Quando este se estilhaçou e seus cacos perfuraram o estômago de Gollachey, a hemorragia foi imediata e a morte sobreveio em quatro horas. Os registros policiais dizem que a última frase do irlandês teria sido "Gengis Khan voltará para devorar a Ásia". Os sete policiais encarregados da detenção de Gollachley, morreram no ano seguinte vitimados por infecções desconhecidas, e a partir daí a população mongol passou a associar o espelho do traficante irlandês à morte misteriosa dos sete policiais. Conseqüência: essa crença propagou-se e hoje é conhecida no mundo inteiro.
Como superstição não se explica, já que está inserida em um terreno mágico-religioso, o seu limite entre o verdadeiro e o falso torna-se totalmente impreciso. Daí, acredite quem quiser.