Originária da Europa, mais precisamente da região mediterrânea, a arruda é um gênero de planta com várias espécies, algumas encontradas nos jardins e hortas brasileiras. Uma delas (a R. Graveolens), além de ser famosa na medicina caseira, tem seu nome associado a inúmeras crendices e superstições, fama essa que vem de longa data. Apesar disso, não se consegue determinar com exatidão quando surgiu tal reputação, mas sabe-se que na Grécia antiga ela era considerada como verdadeira panacéia, útil até mesmo para livrar as pessoas de possíveis maus negócios. As damas romanas também costumavam carregar um ramo de arruda na mão, porque acreditavam que dessa forma não só estariam se protegendo contra doenças contagiosas, mas também afastando os maus-olhados, os quebrantos e as feitiçarias porventura praticadas contra elas.
Associada a superstições e feitiços dos africanos, a fama de suas virtudes chegou ao Brasil e incorporou-se ao folclore nacional. O pintor francês Jean Debret (1768-1848), que veio para o Brasil em 1816 e pintou quadros históricos e inúmeros esboços sobre hábitos e costumes do Brasil imperial, retrata em uma de suas telas o comércio da arruda realizado pelas escravas africanas. Naqueles tempos os galhos de arruda eram vendidos como amuleto para trazer sorte e proteção, mas não eram apenas as escravas que os traziam ocultos nas pregas de seus turbantes, porque as mulheres brancas também colocavam o galhinho estrategicamente escondido entre os seios. Outro fator teria reforçado o valor da arruda naquela época: a infusão feita com suas folhas era usada como uma espécie de anticoncepcional e abortivo.
A arruda contém diversas substâncias com propriedades terapêuticas, mas apesar dessas qualidades medicinais serem conhecidas há séculos, sua utilização como remédio de uso interno não é aconselhada, isso porque sendo tóxica, pode provocar conseqüências graves no sistema respiratório de quem recorre a ela, além de vômitos, abortos, sonolência e convulsões, confusão mental e dores violentas nos intestinos. Seu uso, portanto, deve ficar restrito à aplicação como cataplasma em varizes nas pernas ou nos casos de dores ciáticas, e também para aliviar as dores de cabeça, colocando-se, nesse caso, folhas frescas sobre a testa. Existem, contudo, registros de que um botânico alemão chamado Hieronymus Bock (1498-1554), também conhecido como Tragus, autor do livro Novo Manual de Botânica, de 1539, e por isso considerado um dos pais dessa Ciência, recomendava aos monges e religiosos de sua terra que ingerissem arruda misturada aos alimentos e à bebida, como forma de garantir sua pureza e castidade.
Na Idade Média, época da Inquisição, os ramos de arruda não só eram usados como uma espécie de escudo contra as feiticeiras, mas também aproveitados para aspergir água benta sobre os fiéis que assistiam missas. Outras informações garantem que nessa mesma época ela passou a ser conhecida com a erva sagrada dos domingos porque nos rituais de exorcismo, realizados nos finais de semana, os possessos ingeriam um preparado feito com vinho e arruda, antes dos padres iniciarem o ritual exorcista. Outro registro, não comprovado, é mencionado por alguns autores. Ele revela que a Europa, no século XII, foi atingida por um surto de peste que causou a morte de milhares de pessoas, mas como ninguém sabia o que provocava a doença, as casas onde moravam os contagiados por ela passaram a ter suas paredes pintadas com cruzes vermelhas, como forma de alertar a todos para que se afastassem do local a fim de não correrem risco de contaminação.
Entretanto, alguns saqueadores pareciam imunes à enfermidade porque entravam nas casas marcadas, roubavam o que podiam carregar, mas não adoeciam. O segredo foi descoberto mais tarde: os ladrões se protegiam com uma beberagem feita à base de arruda, sálvia, losna, menta, alecrim, lavanda, cânfora, alho, noz-moscada, cravo e canela; tudo misturado em um galão de vinagre de vinho. Por essa razão o preparado ficou conhecido como o vinagre dos quatro ladrões.
Mas apesar de vários povos, em várias épocas, terem se valido da arruda na medicina natural, o que lhe trouxe a fama de que desfruta foram, realmente, os seus pretendidos poderes contra o mau-olhado e outras vibrações negativas, que a transformaram em um poderosíssimo amuleto desejado por muitos, fazendo nascer daí a convicção de que um galhinho da planta colocado atrás da orelha, ou um pé de arruda plantado em um vaso à entrada da casa, garantem que apenas energias positivas entrem em sua vida. No Pará e no Amazonas, banhos-de-cheiro são preparados com essa planta, trazendo grande felicidade a quem os toma, enquanto os adeptos da chamada aromaterapia garantem que galhos de arruda floridos, colocados num vaso sem água para secar, limpam e purificam qualquer ambiente e estados de espírito confusos e desatinados.