Verme da classe dos Hirudíneos, que possui cerca de 500 espécies. Mas nem todas se alimentam de sangue, existindo algumas que são predadoras ou necrófagas. As sanguessugas primeiramente grudam nas pernas das pessoas que andam descalças por um pântano ou na lama do rio, e em seguida, após as aguçadas mandíbulas que possuem terem cortado a pele do hospedeiro, passam a sugar-lhe o sangue graças à sua faringe, que funciona tal qual uma bomba de ar. Elas podem ingerir uma quantidade de sangue equivalente a 10 vezes o seu próprio volume, e certamente por isso a variedade Hirudo medicinalis foi usada durante muito tempo pelos médicos para a prática de sangria local.
Geralmente as sanguessugas preferem viver na água doce dos rios, lagos e lagoas que tenham água calma e quente, embora existam algumas espécies marinhas e outras que façam do barro o seu habitat. Nas zonas tropicais também são encontradas as que sobem nas árvores e de lá caem sobre suas vítimas. Elas têm o corpo anelado, mais ou menos achatado e recoberto por uma viscosidade abundante. Mole e alongado, ele se estende e contrai de forma alternada, permitindo ao verme movimentar-se na direção desejada. Seu comprimento varia de 0,08mm a 0,20mm, termina por uma ventosa tanto na frente como atrás, e é constituído de anéis justapostos, em número de cem, aproximadamente. Qualquer que seja a sua cor (negra, esverdeada, etc.) a face dorsal é sempre mais escura que a ventral.
Apesar de hermafroditas elas não fecundam a si próprias, sendo necessário que uma sanguessuga fecunde outra. Seus ovos, deixados na lama, são protegidos por uma cápsula dura, e os filhotes, quando nascem, já são parecidos com os adultos. Quando a sanguessuga começa a se movimentar, aplica a ventosa anal num ponto e depois, alongando o corpo, fixa a ventosa oral; em seguida, contraindo-se, solta a ventosa anal para fixá-la junto da oral, e assim sucessivamente. No fundo da ventosa oral ficam três maxilas, graças às quais as sanguessugas do gênero Hirudo e de outros próximos podem perfuram a pele e sugar o sangue dos animais superiores. As sanguessugas alimentam-se de outros animais, podendo não somente sugar-lhes o sangue, mas também ingerir pequenas porções de tecido. Vivem em quase todas as regiões da Terra, sendo comuns na Europa, sobretudo no Sul.
O emprego de sanguessugas na medicina humana constituiu um dos meios tradicionais para se retirar sangue do paciente, ficando geralmente a cargo dos barbeiros-sangradores a tarefa de aplicá-las. O escritor Moacyr Andrade, em Coisas da Medicina no início de Belo Horizonte, 1982, publicado na Revista do Arquivo Público Mineiro, nº 33, revela que “As nojentas sanguessugas ficavam expostas em vidros, na vitrine da barbearia do sr. Moura. Os médicos pediam-nas e o sr. Moura enviava. Eram colocadas nos doentes, na parte onde deveria ser tirado o sangue. Agarravam-se à pele, geralmente do braço, pernas, nádegas, ou costas. Chupavam o sangue e se intumesciam. Quando fartas do repasto hemofágico, soltavam-se. Se fosse necessário, punham-se outras no mesmo local, para tirar mais sangue. As sanguessugas já cheias eram depositadas em água e soltavam o sangue. E estavam prontinhas para novas aplicações. Uns médicos preferiam sanguessugas, outros, ventosas sarjadas”.
Em Barbeiros e cirurgiões: atuação dos práticos ao longo do século XIX - História, Ciências, Saúde - Manguinhos, 277-91, julho-outubro 1999, a pesquisadora Betânia Gonçalves Figueiredo, do Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), comenta a informação acima dizendo que “No que se refere às sanguessugas, o sr. Moura responsabilizava-se apenas por atender às solicitações dos médicos e clientes, criando e alugando as 'bichas' para fins de sangria. Representava uma figura intermediária entre o barbeiro de lanceta, que fazia as vezes de cirurgião e médico, e o barbeiro como conhecemos hoje em dia”.
E prossegue:
“Se considerarmos a atualização do ‘Formulário e Guia Prático de Saúde’, uma das publicações populares sobre medicina no Brasil do século 19, 17ª edição, verificamos que há descrição detalhada de como proceder a uma boa sangria utilizando-se de sanguessugas. O guia indicava quais os melhores lugares do corpo para deitar as bichas sobre o peito na pleuris, atrás dos ouvidos nas congestões cerebrais, ao redor dos olhos em algumas oftalmias, e todos as vezes que for indicado o tratamento antiflogístico pouco enérgico”.
“O guia segue relatando que, por volta de 1832, abusou-se muito desse método terapêutico (ou seja, aproximadamente no período em que Debret retrata os barbeiros do Rio de Janeiro), mas que ‘atualmente’ (podemos supor, pela data da edição, que se referia aos primeiros anos do século 20) ‘usa-se das bichas menos freqüentemente e em menor quantidade do que se costumava fazer antes’. Contudo, não havia dúvidas de que a prática ainda era utilizada”.
Os barbeiros-sangradores eram geralmente os encarregados de aplicar as sanguessugas. Segundo uma tradição, provavelmente sem fundamento, acredita-se que Temison, de Laodicéia, médico grego que atuou em Roma no século I depois de Cristo, aceitava a idéia de que o surgimento as doenças devia-se a um estado de tensão ou de relaxamento dos poros, e de que tenha sido ele o introdutor do mais antigo emprego terapêutico desses vermes chupadores de sangue. Todavia, datam do século 15 as primeiras informações seguras sobre sua utilização na medicina, o que ainda era comum, e em grande escala, no século 19. Sabe-se, por exemplo, que foram importados em 1833, na França, mais de 40 milhões de sanguessugas.
Os progressos da Medicina Científica fizeram com que esse meio terapêutico fosse abolido inteiramente, a não ser na medicina popular praticada em determinadas regiões do mundo. Eliminou-se esse tipo de tratamento não só por se reconhecer que os pacientes ficavam sujeitos a grandes perigos, devido à possibilidade de transmissão de vários germes patogênicos por meio das sanguessugas, como ainda porque a medicina moderna dispõe de numerosos recursos para combater com êxito seguro as diversas enfermidades em cujo tratamento elas eram aplicadas.