Narciso, um belo rapaz que gostava de caçar pelos campos e bosques da região onde morava, havia desprezado todas as ninfas que por ele haviam se apaixonado. A pobre e infeliz Eco fora uma delas, mas as demais, sem exceção, haviam suportado como podiam a dor da paixão não correspondida, e por isso a vida prosseguia naturalmente, sem surpresas ou maiores sobressaltos. Até que um dia o drama se repetiu com mais uma donzela, mas esta, sentindo-se humilhada diante do pouco caso com que o rapaz a tratara, implorou aos deuses que dessem a ele, quando lhes aprouvesse, o conhecimento de quanto pode machucar a dor causada pelo amor sem resposta. Nêmesis, a deusa do inevitável, ouviu a sua prece e se dispôs a atendê-la.
Ali por perto havia uma fonte tão pura que mais parecia um espelho cristalino. Em suas águas abrigadas do sol ardente pelos altos rochedos assemelhados a sentinelas vigilantes, não caíam nem folhas, nem galhos das árvores vizinhas, e às suas margens a relva crescia exuberante, compondo uma paisagem verdadeiramente deslumbrante. Àquele lugar os pastores jamais levavam os seus rebanhos, e tampouco as cabras das montanhas ou quaisquer outros animais da floresta a freqüentavam, todos eles, ao que parece, desejando manter intocado aquele verdadeiro pedaço de paraíso. Foi nesse local que um dia chegou Narciso, cansado da caçada infrutífera que fazia até então e sentindo, sobretudo, muito calor e muita sede.
Ao debruçar-se sobre a superfície límpida da fonte e ver a sua própria imagem ali refletida, o primeiro pensamento que lhe veio à cabeça foi o de que ela pertencia ao espírito que fazia do lugar a sua morada. Absorto naquela contemplação o rapaz fixou primeiramente os olhos brilhantes que o examinavam com igual interesse; observou depois os cabelos anelados que a brisa fazia balançar levemente, o rosto oval e sem barba, os lábios entreabertos em sorriso tímido, o aspecto saudável da parte do corpo que lhe era mostrado, e gostou tanto do que viu que se apaixonou por si mesmo. Então ele tentou beijar a imagem que o fitava da água, mergulhou nela os seus braços, tentando um abraço afetuoso, mas a figura desapareceu na superfície líquida encrespada, como que negando o contato, mas voltou pouco depois, renovando a fascinação do jovem.
A partir desse momento ele não mais se conteve, e esquecido de que precisava alimentar-se e repousar para continuar vivendo, debruçou o corpo sobre a fonte permanecendo assim por longos períodos, praticamente sem se mexer, em permanente observação da imagem que também não despregava os olhos de si. E lhe perguntava inquieto: “Por que tu me desprezas, belo ser? Meu rosto não pode te causar repugnância, pois as ninfas me amam e tu mesmo não pareces me olhar com indiferença. Quando estendo os braços, tu fazes o mesmo, sorris quando te sorrio, e respondes com acenos quando te aceno”. Mas como ficava sem resposta, suas lágrimas caíam na água turbando-lhe a superfície, e ao ver que nesses momentos ninguém mais o encarava, exclamava aflito: “Fica, eu te peço! Fica! Deixa-me ao menos te olhar, já que não posso colocar as mãos em teu rosto”.
E foi assim que aos poucos suas cores desapareceram, da mesma forma como nele também foram sumindo a beleza e o vigor que tanto encanto haviam provocado na ninfa Eco. Esta, contudo, ainda tentava lhe acudir, e quanto Narciso clamava “ai, ai”, ela respondia com as mesmas palavras. Enfraquecido, depauperado, ele não resistiu por muito tempo e acabou morrendo. Segundo conta a lenda, quando sua sombra atravessou o rio Estige, na viagem sem volta, ela se debruçou sobre a beirada do barco na tentativa de ver o reflexo de si mesma na água turva que demarca o reino dos mortos. Porém, ninguém sabe se ela conseguiu satisfazer esse seu desejo...
As ninfas derramaram muitas lágrimas por ele. E chegaram a preparar uma pira funerária para cremar o seu corpo, se o tivessem encontrado. Porque no lugar em que ele jazia, somente foi encontrada uma flor roxa rodeada de folhas brancas, que tem o nome de Narciso, para conservar sua memória. O poeta Milton imitou a história de Narciso na descrição feita por Eva, quando pela primeira vez a mulher de Adão se viu refletida nas águas de uma fonte:
“Muitas vezes relembro aquele dia em que fui despertada a vez primeira do meu sono profundo. Sob as folhas e as flores, muitas vezes meditei: Quem eu era? Aonde ia? De onde vinha? Não distante de mim, doce ruído de água corrente vinha. De uma gruta saía a linfa e logo se espalhava em líquida planície, tão tranqüila que outro céu tranqüilo parecia. Com o espírito incerto caminhei e fui na verde margem do lago repousar, e contemplar de perto as claras águas que eram, aos meus olhos, novo firmamento. Ao debruçar-me sobre o lago, um vulto bem em frente de mim apareceu curvado para olhar-me. Recuei, e a imagem recuou, por sua vez. Deleitada, porém, com o que avistara, novamente eu olhei. Também a imagem dentro das águas para mim olhou, tão deleitada quanto eu, ao ver-me. Fascinada, prendi na imagem os olhos e, dominada por um vão desejo, mais tempo ficaria, se uma voz não se fizesse ouvir, advertindo-me: É tu mesma que vês, linda criatura”.
Nenhuma das lendas da antiguidade tem sido mais comentada que a de Narciso. Num dos muitos e muitos epigramas que o tem como inspiração, diz-se o seguinte:
Evita, amigo, evita debruçar-te sobre o cristal de um cristalino veio, senão, como Narciso, irás matar-te, não por te veres belo, mas tão feio.