Os gregos dedicavam especial predileção ao deus Hermes, a quem veneravam por considerá-lo benfeitor e defensor da humanidade diante dos demais deuses olímpicos. Segundo a mitologia grega, ele era filho de Zeus com a ninfa Maia, sendo reverenciado pelos homens como deus da fertilidade, como protetor dos rebanhos - e por isso mesmo associado com freqüência a divindades ligadas aos vegetais -, além de várias outras atribuições, entre elas as de mensageiro dos deuses; protetor das estradas e viajantes; condutor das almas ao Hades (inferno); deus da fortuna, da eloqüência e do comércio; patrono dos ladrões e inventor da lira (quando ainda criança).
Sobre isso, diz Thomaz Bulfinch, em seu O Livro de Ouro da Mitologia, que “certo dia, encontrando um casco de tartaruga, (ele) fez alguns orifícios nas extremidades opostas do mesmo, introduziu fios de linho através desses orifícios, e o instrumento estava completo. As cordas eram nove, em honra das musas. Mercúrio ofereceu a lira a Apolo, recebendo dele, em troca, o caduceu”.
As esculturas e desenhos mais antigos mostram-no como um homem adulto, barbudo e vestido com túnica longa, mas outras representações, porém, o apresentam na figura de um pastor trazendo sobre os ombros um carneiro. Posteriormente ele foi mostrado como sendo um jovem imberbe e de porte atlético, cabeça coberta por capacete alado, asas nos pés, e segurando em uma das mãos o caduceu, bastão mágico com que distribuía fortuna. O Hermes grego corresponde ao Mercúrio romano, deus do comércio, mas considerado primeiramente como deus dos cereais, razão pela qual seu primeiro templo foi erguido em 495 a.C., na região do Circo Máximo, em Roma, depois de uma epidemia de fome.
A partir daí tornou-se patrono dos negociantes e de todas as corporações desse segmento de atividade e, mais tarde, a divindade que tutelava os ladrões e trapaceiros. As palavras comércio, mercado e mercenário derivam do latim “merx” (mercadoria), da mesma forma que o próprio nome da entidade divina. Tornou-se, ainda, o deus das Ciências, da Eloqüência, das Artes e padroeiro dos atletas. Galante e conquistador por natureza, tornou-se pai de muitos filhos, entre os quais Hermafrodito, Autólico (padroeiro dos ladrões) e Pã (o deus agreste). Suas qualidades, no entanto, acabaram sendo obscurecidas pelos defeitos que demonstrou, razão pela qual foi acusado de inúmeras ladroeiras e por isso expulso do céu, reduzido à função de guardador de rebanhos na Terra.
Sobre o caduceu de Hermes, Joffre M. de Rezende, Professor Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás, esclarece em seu trabalho escrito “O Símbolo da Medicina: Tradição e Heresia”, que ele “é, de longa data, o símbolo do comércio e dos viajantes, sendo por isso utilizado em emblemas de associações comerciais, escolas de comércio, escritórios de contabilidade e estações de estradas de ferro. Surge, então, a questão principal do tema que estamos abordando. Por que o símbolo do deus do comércio passou a ser usado também como símbolo da medicina? Mais de um fato histórico concorreu para que tal ocorresse”.
E apresenta uma série deles, entre os quais os seguintes:
3 - Um terceiro fato a que se atribui a confusão entre o bastão de Asclépio e o caduceu de Hermes, se deve à iniciativa de Johan Froebe, um editor suíço de grande prestígio, ter adotado para a sua editora, no século 16, um logotipo semelhante ao caduceu de Hermes, e o ter utilizado no frontispício de obras clássicas de medicina como as de Hipócrates e Aetius de Amida. Outros editores na Inglaterra e posteriormente nos Estados Unidos, utilizaram emblemas similares, contribuindo para a difusão do caduceu. Admite-se que a intenção dos editores tenha sido a de usar um símbolo identificado com a transmissão de mensagens, já que Hermes era o mensageiro do Olimpo. Com a invenção da imprensa por Gutenberg, a informação passou a ser transmitida por meio da palavra impressa, e eles, os editores, seriam os mensageiros dos autores. Outra hipótese é de que o caduceu tenha sido usado equivocadamente como símbolo de Hermes Trimegistos, o Hermes egípcio ou Thot, deus da palavra e do conhecimento, a quem também se atribuía a invenção da escrita. Em antigas prensas utilizadas para impressão tipográfica encontra-se o caduceu de Hermes como figura decorativa.
4 - Outro fato que certamente colaborou para estabelecer a confusão entre os dois símbolos é o de se conferir o mesmo nome de caduceu ao bastão de Asclépio, criando-se uma nomenclatura binária de caduceu comercial e caduceu médico. Este erro vem desde o século XIX e persiste até os dias de hoje. Em 1901, o exército francês fundou um jornal de cirurgia e de medicina chamado Le caducée, no qual estão estampadas duas figuras estilizadas do símbolo de Asclépio, com uma única serpente. Desde então, a palavra caduceu tem sido usada para nomear tanto o símbolo de Heres, como o bastão de Asclépio.
5 - O fato que mais contribuiu para a difusão do caduceu de Hermes como símbolo da medicina foi a sua adoção pelo Exército norte-americano como insígnia do seu departamento médico (segue-se, no texto original, o relato dos fatos que antecederam e propiciaram a adoção dessa medida).