Ibicus, poeta grego que viveu por volta do século 6 a.C., escreveu, segundo se acredita, sete livros de poesias líricas e inspiração erótica, dos quais restam apenas fragmentos. Levou vida errante, e segundo a tradição, quando em viagem para Corinto foi ferido gravemente na estrada, por salteadores. Ao expirar, apelou para um bando de grous que cruzava o espaço, exortando-os a vingar sua morte. Pouco tempo depois, os assassinos estavam no teatro de Corinto quando viram algumas daquelas aves pairando sobre os espectadores, e um deles exclamou: “Eis os vingadores de Ibicus”. Assim nasceu a suspeita e os criminosos foram identificados. Dessa passagem surgiu a seguinte lenda grega:
O poeta estava a caminho da corrida de carros e competições musicais realizadas no istmo de Corinto, que atraíam todos os gregos. Já as torres da cidade apareciam nas alturas e ele penetrara reverentemente no bosque sagrado de Netuno. Nenhum ser vivo se via a não ser um bando de grous em migração para o sul, que voava na mesma direção que a dele.
- Felicidade para vós, esquadrões amistosos, meus companheiros de além-mar – exclamou Ibicus. – Vejo vossa companhia como um bom augúrio. Viemos de longe à procura de hospitalidade. Possamos, tanto eu quanto vós, encontrar essa recepção amável que protege contra o mal o hóspede estrangeiro.
Apressou os passos e em pouco tempo chegou ao meio do bosque. De súbito, em uma passagem estreita, surgiram dois ladrões que lhe barraram o caminho. Ibicus tinha de render-se ou lutar, mas seus braços acostumados à lira, e não ao manejo das armas, caíram impotentes. Gritou pedindo socorro aos homens e aos deuses, mas seus gritos não foram ouvidos por quem o defendesse. - Devo então morrer aqui – disse ele – em uma terra estrangeira, sem que ninguém me chore, roubado à vida pela mão de bandidos e sem ver alguém que possa vingar-me.
Ferido, caiu ao chão, enquanto os gritos roufenhos dos grous se faziam ouvir no alto. Mas ainda encontrou forças para exclamar suplicante: – Tomai a minha causa, grous, já que nenhuma voz, além da vossa, respondeu ao meu grito.
Assim dizendo, fechou os olhos e morreu. O corpo despojado e mutilado foi descoberto, e embora desfigurado pelos ferimentos, reconhecido pelo amigo de Corinto que o esperava para tê-lo como hóspede. - É assim que te encontro a mim restituído? – exclamou este, pesaroso. – Eu que esperava colocar em tua fronte a coroa de triunfo na competição de canto!
Os convivas reunidos no festival ouviram com profunda dor a notícia. Toda a Grécia sentiu o golpe, todos os corações compartilharam daquela perda, e o povo reunido em torno do tribunal dos magistrados, exigia vingança contra os assassinos. Mas que traço ou marco apontaria o criminoso no meio da vasta multidão atraída pelo esplendor da festividade. Teria Ibicus sido vítima de bandidos, ou algum inimigo particular o teria matado? Era provável, contudo, que o assassino estivesse andando no meio da multidão, gozando o fruto de seu crime, enquanto a vingança o procurava em vão. Talvez desafiando os deuses no próprio recinto do templo, misturando-se à multidão que então se comprimia no anfiteatro, ocupando todos os lugares, até parecer que a própria construção cederia sob seu peso. E agora, a grande assembléia ouve a pavorosa voz do coro personificando as Fúrias, as três divindades que administram a vingança divina.
Os componentes do coro, vestidos de preto, carregam nas mãos descarnadas tochas em que flameja uma chama fumacenta. Têm as faces sem cor, e em lugar dos cabelos enroscam-se asquerosas serpentes em torno de suas frontes. Formando um círculo, esses seres cantam seus hinos lendo no coração dos culpados e dominando todas as suas faculdades. Suas vozes elevam-se e ampliam-se, abafando o som dos instrumentos, roubando o raciocínio, dominando o coração, gelando o sangue. “Feliz o homem que conserva o coração puro de culpa e crime! Nele, nós, vingadoras, não tocamos; ele marcha pelo caminho da vida livre de nós, Mas ai daquele que cometeu um assassinato secreto! Nós, da pavorosa família da Noite, lançamo-nos sobre todo o seu ser. Pensa ele que pela fuga se livra de nós? Voamos ainda mais velozmente em sua perseguição, trançamos nossas serpentes em torno de seus pés e atiramo-lo ao chão. A piedade não detém o nosso curso. Continuamente, até o fim da vida, não lhe damos paz nem descanso”.
Assim cantavam as Eumênides, e moviam-se em solene cadência, enquanto uma imobilidade semelhante à imobilidade da morte dominava toda a assembléia, como se estivesse em presença de seres sobre-humanos; e depois, completando em solene marcha o circuito do teatro, o coro recolheu-se ao fundo do palco. Todos os corações flutuavam entre a ilusão e a realidade, e todos os peitos arquejavam com um terror indefinido diante do pavoroso poder que presencia os crimes secretos e domina, invisível, os meandros do destino. Nesse momento, um grito irrompeu de uma das arquibancadas superiores: - Olha, olha, camarada! Ali estão os grous de Ibicus!
E de súbito apareceu atravessando o céu um objeto que um pouco de atenção revelava ser um bando de grous voando bem por cima do teatro.
- De Ibicus! Foi isso que ele disse?
O nome querido reviveu o pesar em todos os corações. Como uma vaga segue outra vaga na face do mar, assim correram de boca em boca as palavras: “De Ibicus! Aquele que todos nós lamentamos, aquele que um assassino abateu. Que tem os grous a ver com ele?” E cada vez mais forte crescia o ruído das vozes enquanto, como um relâmpago, este pensamento atravessava todos os corações: “Vêde o poder das Eumênides! O piedoso poeta será vingado! O assassino depôs contra si mesmo. Prendei o homem que deu aquele grito e o outro a quem se dirigiu!”. De boa vontade o culpado teria engolido suas palavras, mas era demasiadamente tarde. Pálidos de terror, os assassinos estampavam no rosto a sua culpa. O povo levou-os ao juiz, eles confessaram o crime e sofreram o castigo merecido.
Fonte: História de Deuses e Heróis, de Thomas Bulfinch