ORÁCULOS

Oráculo era uma expressão usada para designar o lugar onde se supunha que as divindades consultadas davam resposta a respeito do futuro, sendo o mais antigo deles o de Zeus (Júpiter), em Dodona, na Grécia. Segundo uma versão, ele surgiu da seguinte maneira: “Duas pombas pretas partiram de Tebas, no Egito. Uma delas voou para Dodona, no Épiro, e pousando num bosque de carvalhos anunciou em linguagem humana, aos habitantes do lugar, que eles deveriam estabelecer ali um oráculo de Júpiter. A outra voou para o templo de Júpiter Amon, no Oásis Líbio, e lá transmitiu a mesma ordem”.

 

Outra versão é a de que não foram pombas, mas sacerdotisas, que levadas pelos fenícios de Tebas, no Egito, estabeleceram os oráculos do Oásis e de Dodona. As respostas dos oráculos eram dadas nas árvores, pelo ruído que faziam as folhas movidas pelo vento, sendo esses sons interpretados pelos sacerdotes.

 

O mais célebre dos oráculos gregos era o de Apolo, em Delfos (na ilustração), nas encostas do Parnaso, na Fócida. Tinha-se observado desde longo tempo que as cabras que pastavam no Parnaso eram atacadas de convulsões quando se aproximavam de uma certa gruta bem profunda, situada de um lado da montanha. Isso se devia a um determinado vapor que saía da caverna, e um dos pastores foi levado a experimentar ele próprio, os seus efeitos. Aspirando aquele ar, ele foi afetado do mesmo modo que as cabras, e os habitantes da região vizinha, não podendo explicar o fato, atribuíram as convulsões a uma inspiração divina.

 

A notícia se espalhou rapidamente e foi construído um templo no local, atribuindo-se a influência profética ora à deusa Terra, ora a Netuno, ora a Têmis ou a outras divindades, mas finalmente a Apolo, e somente a ele. Uma sacerdotisa chamada Pítia teve o encargo de aspirar o ar corrompido: ela era preparada para executar suas funções submetendo-se a uma prévia ablução (purificação feita com água, ramos, areia ou sangue) na fonte existente nas proximidades, e depois de coroada de louro assentava-se numa trípede (cadeira de três pernas) igualmente adornada. Suas palavras, inspiradas desse modo, eram interpretadas pelos sacerdotes.

 

Além dos oráculos de Júpiter e Apolo, em Dodona e Delfos, também era grandemente estimado o de Trofônio, na Beócia. Trofônio e Agamedes era irmãos, notáveis arquitetos que construíram o templo de Apolo, em Delfos, e a sala de tesouro para o rei Irieu. Na parede dessa tesouraria colocaram uma pedra de modo que pudesse ser retirada, e graças a isso, de tempos em tempos, o tesouro era roubado. Irieu ficou intrigado, pois todas as fechaduras e trancas estacam intactas, mas, no entanto, suas riquezas diminuíam constantemente. Ele então armou uma cilada para o ladrão, e Agamedes foi apanhado. Trofônio, não podendo livrar o irmão e receando que ele fosse obrigado, pela tortura, a revelar o nome do seu cúmplice, cortou-lhe a cabeça. Segundo a lenda, pouco depois o próprio Trofônio foi engolido pela terra.

 

O oráculo de Trofônio ficava em Lebadéia, na Beócia. Contava-se que durante uma prolongada seca os beócios foram aconselhados pelo deus, em Delfos, a procurar a ajuda de Trofônio, em Lebadéia Para ali se dirigiram, mas não encontraram o oráculo. Tendo, contudo, um dos homens avistado um enxame de abelhas, seguiu-o até uma fenda aberta na terra, que verificou ser o lugar procurado.

 

Cerimônias peculiares deveriam ser executadas pela pessoa que ia consultar o oráculo. Depois dessas preliminares, ela penetrava na caverna somente à noite, por uma estreita passagem, e voltava pelo mesmo caminho, mas andando de costas. Mostrava-se, então, melancólica e abatida, e daí a expressão proverbial que se aplicava a alguém triste e desanimado: “Esteve consultando o oráculo de Trofônio”.

 

Havia, também, numerosos oráculos de Esculápio, mais o mais célebre era o de Epidauro. Ali os enfermos, dormindo no templo, procuravam respostas e cura para as suas enfermidades. Pelas descrições existentes, é de se deduzir que o tratamento aplicado àqueles doentes constituía o que hoje se chama de magnetismo animal, ou mesmerismo (hipnotismo), processo sugestivo estudado pelo médico alemão Frederich Mesmes, em 1775.. O culto de Esculápio foi introduzido em Roma por ocasião de uma grande epidemia, quando se enviou uma embaixada ao templo de Epidauro para implorar a ajuda do deus. Esculápio mostrou-se propício e, quando o navio voltou, acompanhou-o sob a forma de uma serpente. Chegando ao Tibre, a serpente desceu da embarcação e tomou posse de uma ilha no rio, onde foi erguido um templo do deus. As serpentes eram consagradas a Esculápio provavelmente devido à superstição de que aqueles animais têm a faculdade de readquirir a juventude mudando de pele.

 

Em Mênfis, o boi sagrado de Ápis respondia àqueles que o consultavam pela maneira com que recebia ou rejeitava o que lhe era apresentado. Se o boi recusava o alimento da mão do consultante, tal fato era considerado como um sinal desfavorável, e vice-versa. Tem sido motivo de controvérsia saber se as respostas dos oráculos devem ser atribuídas a mera simulação humana, ou à maquinação de espíritos malignos. Essa última opinião foi a mais aceita no passado, mas uma terceira hipótese foi aventada depois que o fenômeno do mesmerismo despertou a atenção: a de que as pitonisas eram tomadas de uma espécie de transe mesmérica, e que realmente entrava em ação a faculdade da clarividência.

 

Outro problema consiste em saber quando os oráculos pagãos cessaram de dar suas respostas, e autores cristãos antigos afirmam que eles se calaram com o nascimento de Cristo. Milton adota esse ponto de vista em seu Hino à Natividade e, em versos de sóbria e elevada beleza, pinta a consternação dos ídolos pagãos diante do advento do Salvador:

 

Calaram-se os oráculos. Não mais voz ou sussurro se faz ouvir no templo solitário. Apolo a divindade perdeu e, com saudade, de Delfos abandona o santuário.

 

Fonte: O Livro de Ouro da Mitologia, de Thomas Bulfinch