Diz a lenda que antes do nascimento desse herói troiano, sua mãe, Hécuba, sonhou que dava à luz um archote que depois queimou toda a cidade. Ao procurar um adivinho que pudesse lhe explicar o significado do que vira durante o sono, este predisse que seu filho causaria a ruína de Tróia, o que foi suficiente para convencer Priamo, o pai da criança, a abandoná-la nos altos do monte Ida. Mas uma ursa a amamentou, e depois um pastor a levou consigo e a criou como filho.
Já adulto, e depois de casado com a ninfa Eone, Páris guardava seu rebanho no monte Ida quando lhe apareceram as deusas Hera, Afrodite e Atena, que disputavam entre si um prêmio de beleza: uma maçã de ouro que Éris, ou Discórdia, jogara no meio do salão em que se celebravam as bodas de Tétis e Peleu, e na qual estava escrito: À mais bela. Instado a escolher uma das três (ilustração), Páris entregou a jóia a Afrodite (Vênus), e esta lhe prometeu a posse da mulher mais formosa do mundo.
Essa passagem mitológica é descrita por Márcio Pugliese, em “Arquétipo dos Deuses e Heróis”, da seguinte forma: “Páris era filho de Priamo, rei de Tróia, e Hécuba. Pouco antes do seu nascimento sua mãe sonhou que dava à luz uma tocha. Os adivinhos consultados vaticinaram que a criança esperada causaria, um dia, o incêndio de Tróia. Priamo, assim que a criança nasceu, entregou-a a Agesilau, um de seus servidores, para que se desfizesse dela no monte Ida. O pastor cumpriu sua tarefa, mas depois de vários dias, encontrando o menino ainda vivo e com boa saúde, e ademais, sendo amamentado por uma ursa, tomou-o sob seus cuidados. Em pouco tempo o jovem pastor distinguiu-se pela sua beleza física, pela sua inteligência e sua destreza, e obteve o amor da ninfa Enone - filha do deus-rio Cebren -, com quem teve um filho, Córito, de deslumbrante beleza”.
“Nas núpcias de Tetis e Peleu, tendo a Discórdia (Eris) apresentado o pomo conhecido desde então como o pomo da Discórdia, e que trazia uma singela inscrição - À mais bela, causou esse áureo fruto muita cobiça, não só pelo seu material, mas por sua dedicatória. Juno, Minerva e Vênus disputaram-no e pediram juízes imparciais para a contenda. A questão era delicada, e Júpiter, não querendo comprometer-se e para fazer cumprir o Destino, enviou as três deusas, em companhia de Mercúrio, ao monte Ida, para que se submetessem ao julgamento do mais belo mortal vivo, Páris. O pastor assustou-se diante do brilho e da beleza dos imortais, mas, acalmado por Mercúrio, prontificou-se a cumprir os desígnios de Júpiter. Juno prometeu-lhe o império da Ásia; Vênus, o amor da mais bela mulher; e Minerva, a sabedoria e a vitória em qualquer combate. Tendo a maça de ouro sido adjudicada a Vênus, Juno e Minerva, misturando o seu ressentimento, juraram vingar-se, e trabalharam de comum acordo para a perdição de Páris”.
Tempos depois, quando alcançou um prêmio em jogos funerários celebrados em Tróia, ele foi reconhecido como filho de Priamo, e acolhido por Menelau, rei de Esparta, de quem roubou os tesouros e raptou a mulher, Helena, cumprindo-se assim a promessa que a deusa lhe fizera, mas causando, por outro lado, a famosa guerra de Tróia. Durante esse conflito Páris foi vencido por Menelau num combate em que Helena seria levada como prêmio pelo ganhador, mas recusou-se a entregá-la. Mais tarde feriu mortalmente a Aquiles com uma seta no calcanhar, mas por sua vez foi atingido pelas setas envenenadas de Hércules, atiradas por Filocteto, e morreu em Tróia.
Segundo os mitólogos, ele expirou no monte Ida, perto de sua mulher Eone, que se vingou das traições do marido recusando-se a tratá-lo. Sobre esse episódio, Thomas Bulfinch, em “História dos Deuses e Heróis”, esclarece: “Tinha-se descoberto que Tróia só poderia ser tomada com a ajuda das setas de Hércules que estavam em poder de Filocretes, o amigo que estivera por último com Hércules e que acendera a pira funerária. Filocretes juntara-se à expedição grega contra Tróia, mas ferira acidentalmente o pé com uma das setas envenenadas e o cheiro desprendido pela ferida era tão desagradável que seus companheiros o levaram para a ilha de Lemnos e lá o deixaram. Diomedes foi mandado para convencê-lo a voltar ao exército e foi bem sucedido. Filocretes foi curado de sua ferida por Machaon, e Páris foi a primeira vítima das setas fatais. Em sua desgraça Páris lembrou-se de alguém de que se esquecera nas épocas venturosas. Era a ninfa Enone, com quem se casara quando jovem e a quem abandonara pela beleza de Helena. Enone, lembrando-se dos ultrajes que sofrera, negou-se a tratar do ferimento e Páris voltou à Tróia, e morreu. Enone arrependera-se logo e apressou-se em seguir Páris, com os remédios, mas chegou demasiadamente tarde, e enforcou-se de pesar”.