Diz uma lenda grega que Pigmaleão, rei de Chipre, uma ilha do mar Mediterrâneo, esculpiu certa feita uma estátua de marfim reproduzindo o que para ele seria a mulher ideal, mas acabou ficando apaixonado por ela. E seu amor era tanto que o monarca escultor passou a pedir à deusa Afrodite (Vênus) que transformasse sua criação artística em uma mulher verdadeira, de carne e osso, sendo tão insistente nesse apelo que a divindade finalmente decidiu atendê-lo, dando vida à estatueta. Esta recebeu o nome de Galatéia, casou-se com seu criador, dando-lhe, inclusive, um filho chamado Pafos. (Na ilustração, escultura de Etienne-Maurice Falconet (1716-1791), denominada Pygmalion und Galateia, 1763, mármore com 58 cm, pertencente ao acervo do The Walters Art Museum, em Baltimore, EUA).
Esta narrativa mitológica inspirou muitos autores ao longo dos séculos, tendo sido Ovídio (43 a.C.-17 d.C.), poeta latino, o primeiro a mencioná-la em Metamorfoses, obra onde traça a história lendária da humanidade, desde a criação do mundo até a deificação de Júlio César. Nos tempos modernos, a peça Pigmaleão, escrita pelo teatrólogo, romancista, crítico, panfletário e agitador social irlandês, George Bernard Shaw (1856-1950), foi adaptada para um musical denominado My Fair Lady, de grande sucesso.
Muito já se escreveu sobre essa passagem mitológica. Um desses trabalhos é o de Thomas Bulfinch (1796-1867), em o Livro de Ouro da Mitologia, no qual o autor revela que “Pigmaleão via tantos defeitos nas mulheres que acabou por abominá-las, e resolveu viver solteiro. Era escultor, e executou com maravilhosa arte uma estátua de marfim tão bela que nenhuma mulher de verdade com ela poderia comparar-se. Era, na verdade, de perfeita semelhança com uma jovem que estivesse viva e somente o recato impedisse de mover-se. A arte, por sua própria perfeição, ocultava-se, e a obra parecia produzida pela própria natureza”.
“Pigmaleão admirou a obra e acabou se apaixonando pela criação artificial. Muitas vezes apalpava-a, como para se assegurar se era viva ou não, e não podia mesmo acreditar que se tratasse apenas de marfim. Acariciava-a e dava-lhe presentes como as jovens gostam: conchas brilhantes e pedras polidas, pássaros e flores de diversas espécies, contas de âmbar. Colocou vestidos sobre seu corpo, anéis em seus dedos e um colar no pescoço, brincos nas orelhas e cordões de pérolas no peito. Vestiu-a, e ela não pareceu menos encantadora do que nua. Deitou-a num leito recoberto de panos coloridos com púrpura, chamou-a de esposa e colocou-lhe a cabeça num travesseiro de plumas macias, como se ela pudesse sentir a maciez”.
“Estava próximo o festival de Vênus, celebrado com grande pompa em Chipre. Vítimas eram oferecidas, os altares fumegavam e o cheiro de incenso enchia o ar. Depois de ter executado sua parte nas solenidades, Pigmaleão, de pé diante do altar, disse timidamente: - Deuses, vós que tudo podeis, dai-me por esposa... - não se atreveu a dizer ‘minha virgem de marfim’, mas acrescentou: - alguém semelhante à minha virgem de marfim”.
‘Presente ao festival, Vênus o ouviu, compreendeu o pensamento que ele não se atrevera a formular, e como augúrio de sua benevolência fez a chama do altar erguer-se três vezes no ar. Ao voltar para casa, Pigmaleão foi ver a estátua, e debruçando-se sobre o leito, beijou-a na boca. Os lábios pareceram-lhe quentes. Beijou-a de novo e abraçou-a; o marfim mostrava-se macio sob seus dedos, como cera do Himeto. Atônito e alegre, embora duvidando e receando que se tivesse enganado, de novo, muitas vezes, com o ardor de um amante, toca o objeto de suas esperanças. Estava realmente vivo! O corpo, quando apertado, cedia aos dedos, para recuperar, depois, a elasticidade. Afinal, o escultor de Vênus encontrou palavras para agradecer à deusa e apertou os lábios de encontra a lábios tão reais como os seus próprios. A virgem sentiu os beijos e corou, e abrindo seus tímidos olhos à luz, fixou-os, no mesmo momento, em seu amante. Vênus abençoou as núpcias que propiciara, e dessa união nasceu Pafos, de quem a cidade, consagrada a Vênus, recebeu o nome’.
A sinopse do livro Pigmaleão, de George Bernard Shaw, editora L & PM, tradução de Millor Fernandes, diz que “O Pigmaleão da mitologia antiga apaixona-se pela estátua que ele próprio esculpiu. A peça Pigmaleão, de Bernard Shaw (1856 - 1950), conta a história de Eliza Doolitle, uma vendedora de flores ambulante na Londres do início do século 20. Sua linguagem é uma afronta à língua inglesa, seu vocabulário, paupérrimo e de baixo calão, e sua pronúncia, uma desgraça. Um eminente fonético impõe a si mesmo um desafio: reeducá-la e fazê-la passar por uma dama da sociedade. Mas esse será apenas o início dessa comédia deliciosa em que Shaw denuncia as diferenças sociais e de classe. Neste livro, Millôr Fernandes faz muito mais do que uma tradução. Enfrentando a enorme complexidade da obra de Shaw, Millôr adapta e recria, conseguindo a proeza de transmitir na íntegra o sabor e a genialidade do texto original.