Apresentado algumas vezes como marido de Íris, a mensageira dos deuses e personificação do arco-íris, Zéfiro representava o vento ocidental, considerado pelos poetas como o mais ameno e suave dos ventos. Os romanos o identificavam com Favônio, a brisa suave do oeste, considerada auspiciosa por trazer a primavera e o renascimento da vegetação.
Os ventos eram divindades masculinas, e segundo alguns, descendiam de Astreu (o estrelado), filho do titã Créos e de Euríbia, uma deusa menor do mar; para outros, no entanto, seus pais foram Céu (Urano) e Terra (Gaia). Os atenienses dedicaram a eles um templo octogonal tendo em cada ângulo a figura de um dos ventos correspondendo aos pontos de onde respectivamente sopram: Setentrião (norte); Aquilão (nordeste); Coro (noroeste): Zéfiro (oeste); Austro (sul). Áfrico (sudoeste); Solano (sudeste); e Euro (leste). Os romanos reconheciam apenas quatro ventos principais: o Euro, o Boreal, o Noto, ou Austro, e os Zéfiros.
São muitas as passagens mitológicas em que Zéfiro é citado. Como na do nascimento de Afrodite (Vênus), deusa do amor e da beleza, em que uma versão a dá como saída da espuma do mar, tendo sido recolhida por Zéfiro que a levou sobre as ondas até a ilha de Chipre, onde foi cuidada pelas Estações e depois levada à assembléia dos deuses. Ou quando da morte de Jacinto, atingido por um disco atirado por Apolo, e da qual o mitólogo e escritor Thomas Bulfinch, falecido em 1867, dá a seguinte descrição: “Enquanto Apolo falava, o sangue que escorrera para o chão e manchara a erva, deixou de ser sangue; uma flor de colorido mais belo que a púrpura tíria nasceu, semelhante ao lírio, com a diferença de que é roxo, ao passo que o lírio é de uma brancura argêntea. E isso não foi o bastante para Febo (Apolo). Para conferir ainda maior honra, deixou seu pesar marcado nas pétalas, e nelas escreveu ‘Ai! Ai!’, como até hoje se vê. A flor tem o nome de jacinto, e sempre que a primavera volta, revive a memória do jovem e lembra o seu destino”. Diz a lenda que Zéfiro (o vento oeste), que também amava Jacinto e tinha ciúme da preferência de Apolo, desviou o disco do seu rumo para fazê-lo atingir o jovem.
Em Endimião, do poeta inglês John Keats (1795 - 1821), é feita uma alusão a essa passagem mitológica quando os espectadores do jogo de argolas são descritos da seguinte forma:
Contemplam os jogadores dos dois lados
Lembrando, ao mesmo tempo,
A sorte de Jacinto, quando o sopro
De Zéfiro o matou;
De Zéfiro que agora, penitente,
Quando Febo se eleva no céu,
As pétalas da florzinha beija.
Outro poeta inglês a incluir a ligação amorosa de Zéfiro e Flora nos seus versos, foi John Milton (1608 -1674), em Paraíso Perdido, quando descreveu Adão, desperto, contemplando Eva, ainda adormecida:
... Erguendo-se de lado,
Inclinando-se um pouco, contemplou-a:
Desperta ou adormecida, a companheira
Pela sua beleza o dominava.
E chamou-a, então, com voz suave,
Como a de Zéfiro, quando Flora chama,
Tocando-lhe de leve, diz? “Acorda,
Minha esposa gentil, do Paraíso
Dom precioso, cada vez mais belo”.
Zéfiro é o vento do Ocidente que com seu sopro ao mesmo tempo suave e poderoso não só refrescava os climas quentes da Grécia e Roma, mas também trazia vida à natureza. Os romanos diziam-no casado com Flora, a deusa romana que encarna toda a natureza e cujo nome se converteu na designação de todo o reino vegetal. Porém, alguns autores sugerem que a mulher de Zéfiro poderia ser outra, a prostituta Flora, do tempo de Anco Márcio, quarto rei de Roma (provavelmente 640-616 a.C.), surgindo daí a origem do termo deflorar. Acreditava-se também, nessa época, que os ventos podiam assumir forma de cavalo e gerar filhos, e por isso era dada a Zéfiro a paternidade de Xantos e Bálios, dois cavalos imortais, capazes de falar.
Na ilustração, a famosa tela de Tieopolo, um dos mais importantes pintores da escola veneziana, representa a união entre Flora, a deusa romana da floração, e Zéfiro, o vento oeste. Baseada possivelmente na lenda de Bóreas e Oritia, a cena inspirou-se na versão latina de Ovídio. A obra conserva, no entanto, a concepção grega dos ventos como entidades aladas, embora Zéfiro exiba asas de libélula.