A definição mais simples que se possa dar à besta-fera é a de que se trata de uma criatura selvagem, cruel, sanguinária e desapiedada. A crença nesse ser fantástico certamente tem a ver com o texto bíblico do Apocalipse, onde São João relata: “Vi, então, levantar-se do mar uma fera que tinha dez chifres e sete cabeças; sobre os chifres, dez diademas, e nas suas cabeças, nomes blasfematórios. A fera que eu vi era semelhante a um leopardo: os pés como os de urso, e as faces como as do leão. Deu-lhe o dragão a sua força, o seu trono e grande poder (13, 1 e 2)”.
E mais adiante: “Vi, então, outra fera subir da terra. Tinha dois chifres, como um cordeiro, mas falava como um dragão. Ela exercia todo o poder da primeira fera, sob a vigilância desta, e fez com que a Terra e seus habitantes adorassem a primeira fera (13, 11 e 12)”. E finalmente: “Eis aqui a sabedoria” Quem tiver inteligência, calcule o número da fera, porque é número de um homem, e esse número é seiscentos e sessenta e seis (13,18)”.
Quando o Livro do Apocalipse foi escrito, os cristãos eram perseguidos implacavelmente pelos romanos. Assim, os que terminavam presos e se recusavam a renegar sua fé em Jesus Cristo, ou eram torturados até a morte, ou condenados às feras, ou então simplesmente executados nos espetáculos públicos. Por essa razão o império romano foi comparado a uma besta, uma fera terrível que pretendia ser adorada por todo mundo, e por isso o apóstolo João escreveu o texto bíblico falando da besta do Apocalipse. A lenda sobreviveu aos séculos, sofrendo adaptações conforme o local e época em que era lembrada.
Aparentemente, essa crença é uma mistura do mito da Mula-Sem-Cabeça e Lobisomem. Como ninguém sabe ao certo de onde saiu essa criatura fantástica, a presunção é de que se trata do demônio em pessoa, que emerge das profundezas do inferno em noites de lua cheia e fica a correr pelas ruas dos povoados ou pequenas cidades, só parando ao chegar no cemitério da cidade, quando então desaparece. Os nordestinos brasileiros, por exemplo, representam a besta-fera como uma criatura metade cavalo, metade homem, cuja aparição acontece em noites sem lua, sempre em localidades remotas, onde fica a correr em desabalada carreira, emitindo uivos e gritos horríveis. Isso dura minutos, e nesse espaço de tempo ninguém se atreve a abrir portas ou janelas porque o barulho dos cascos da coisa fantástica é apavorante e costuma deixar o homem mais valente sempre de cabelo em pé.
E nesse vai e vem agalopado que acontece pelas ruas da cidadezinha cujos moradores se mantém quietos em suas casas, silenciosos e amedrontados, o que se ouve, além do bater dos cascos da fera sobrenatural, são os latidos frenéticos de dezenas de cachorros que a seguem a certa distância, prudentemente, pois o instinto lhes avisa que aquele que chegar mais perto acabará sendo açoitado sem dó e sem piedade.
Quando a besta-fera pára na porta de uma casa, dá para ouvir sua respiração demoníaca e nessa hora, a pessoa deve rezar o Credo para que ela siga seu caminho.
Uma outra versão sugere que a besta-fera seja a variante brasileira do centauro (ilustração ao lado), monstro fabuloso da mitologia grega, metade homem, metade cavalo. Por isso a suposição de que nas noites de lua cheia o demônio saia do inferno usando o corpo de cavalo, mas com torso humano, correndo através dos vilarejos até encontrar um cemitério, lugar onde desaparece sem deixar rastros. Segundo o mito, apesar da criatura ter aparência terrível, ela aparentemente é inofensiva aos homens, mas quando alguém tem a infelicidade de ver a sua face, enlouquece imediatamente, só voltando ao normal depois de alguns dias.