No estado de Goiás, onde a riqueza de mitos e lendas é bem expressiva, muita gente acredita na existência de uma criatura fantástica que dá a impressão de ser um macaco-homem, porque apesar da sua aparência ser igual à de um gorila avantajado, seu modo de agir lembra o de um ser humano, pelo menos na opinião de alguns indivíduos que afirmam já tê-lo visto a distância relativamente curta. Tais relatos, no entanto, são pobres e confusos, e por isso não permitem que se possa ter uma idéia mais precisa sobre essa estranha criatura que vaga pelos sertões do Araguaia.
Para essas poucas testemunhas, o ser fantástico que percorre as matas e campos do chão goiano anda praticamente ereto, usa as mãos com certa habilidade e é difícil de ser observado mais de perto, pois, ao que parece, ele tem os sentidos da audição e olfato bem apurados, e por isso se mantém sempre prevenido contra a presença de homens ou qualquer outra criatura que lhe possa trazer risco. Segundo a voz corrente, seu principal alimento é a língua de bovinos, eqüinos, caprinos, e até mesmo a de gente que porventura esteja andando desprevenida nas imediações de onde ele perambula à procura do que comer. Seu método de ação é simples e ao mesmo tempo violento: ao escolher a sua vitima, ele a ataca a murros, sempre à noite, e porque é extremamente forte, esta logo fica prostrada no chão em conseqüência dos golpes que recebeu. Aí, com as mãos, o bicho retira esse órgão do animal ou ser humano dominado e vai saborear sua refeição em algum lugar onde não corra qualquer risco.
Ninguém sabe se essa fera consome qualquer outro tipo de alimento, e nem mesmo se emite sons vocais, se tem companheiros ou se integra algum grupo de seres viventes possivelmente em extinção, mas as informações disponíveis sobre o mito provêm de gente que garante ter avistado sua figura ao longe. Nem mesmo os fazendeiros que tiveram seus animais mutilados conseguem dar uma explicação satisfatória para a ocorrência que lhes prejudicou. O fato, porém, é que de acordo com os comentários do povo, o Arranca-Língua existe, ninguém sabe onde está, e por isso o recurso do homem do campo é ficar torcendo para que ele não apareça na calada da noite e inutilize uma de suas criações. Porque sair no escuro para assustá-lo, ou mesmo enfrentá-lo, é tarefa que não entusiasma a qualquer um.
Alguns jornais da cidade do Rio de Janeiro publicaram matéria sobre esse estranho animal, como A Noite, edição de 18 de março de 1937; o Correio da Manhã, da mesma data; o Jornal do Brasil, de 26 de março de 1937; o Diário da Noite, de 31 de agosto de 1937; e A Rua, de 1º de setembro do mesmo ano, cujo texto reproduzia telegrama enviado pelo diretor do periódico Gazeta, de Formosa, Goiás, com os seguintes dizeres : “Formosa, 28 - Fatos idênticos aos que ocorreram no Araguaia que o amigo conhece, e aos que dei publicidade no meu jornal sob o título de ‘King Kong’, se estão registrando neste município. Nos lugares denominados Jibóia e Vargem, apareceram diversas reses mortas, pertencentes aos senhores Francisco Vicente da Silveira e João Augusto. Sem outro ferimento, essas reses tinham as línguas cortadas. Em outros lugares da mesma região, fatos idênticos se verificaram”.
Abordando o mesmo assunto em seu livro Geografia dos Mitos Brasileiros, o folclorista Luis da Câmara Cascudo divulga interessante informação dada por Zoroastro Artiaga, funcionário público goiano, em carta datada de 16 de setembro de 1938, na qual, entre outras coisas, o remetente diz inicialmente o seguinte: “Goiás, tem, como os outros Estados, o seu mito. Aqui tem ele o nome de Arranca-Língua, e foi batizado por King-Kong devido àquela fita sensacional de cinema em que aparecia um enorme macaco fazendo proezas. O Arranca-Língua, que tem uma zona de cem léguas como campo de ação, era de início o Bicho-Homem, um tipo humano coberto de grandes pêlos, que se alimentava de língua de vacas”.
Para finalizar da seguinte forma: “Sabe-se, no entanto, que é uma peste de caráter aftoso que, destruindo os tecidos da língua do gado, fá-la cair, tendo vestígios de extirpação. O que é interessante é que muita gente valente não viaja na zona do Arranca-Língua e nem dorme com os dois olhos, ficando um para vigiar o monstruoso macacão do vasto araxá do Brasil”.
Uma outra versão sobre a presença dessa criatura estranha é defendida em texto publicado no site www.ufo.com.br. Por ele, o Arranca-Línguas tem muito a ver com fatos ufológicos, tanto que em 1977, quando objetos voadores não identificados apareceram com freqüência no nordeste do Colorado, Estados Unidos, dezenas de animais foram encontrados mortos. De todos tinham sido retirados os órgãos genitais, a língua, as orelhas e olhos, sem que se pudesse identificar o responsável pelas mutilações, ou encontrar nos locais, marcas de pneus, pegadas, nem qualquer outro sinal Para complicar ainda mais a situação, “nenhum predador aproximava-se dos animais mortos e, em alguns casos, chegou-se a detectar radioatividade no local”.
A mesma matéria diz ainda que fatos semelhantes vêm acontecendo no Brasil e em outros países. “No município de Camapuã (MS), em pesquisa realizada pela equipe de investigação do Centro Brasileiro de Pesquisas de Discos Voadores (CBPDV), em matéria publicada na Revista UFO, foram encontrados corpos de vacas e bois, sem línguas e, em alguns casos, sem outros órgãos. Por todo o mundo conhecemos lendas que falam em bolas, répteis e aves de fogo. (...) É claro que o índio, o caboclo e até mesmo os próprios portugueses, há séculos passados, não poderiam compreender um UFO, um engenho voador profusamente iluminado. Daí teriam que comparar aquilo com algo que mais pudesse assemelhar-se ao que viam”.
E assim, “de geração em geração, as histórias foram passando e chegaram aos nossos dias em forma de lendas ou mitos".