Em 1884 foi editado em Recife, Pernambuco, o livro Superstições e Lendas do Norte do Brasil, de João Alfredo de Freitas. Nele, ao falar sobre o Cabeça de Cuia, o autor revela: “Esta é outra superstição conhecida no Piauí. Um majestoso rio, o Parnaíba, que tem curso de mais de 500 léguas e cuja largura é bem notável, separa as províncias do Piauí e Maranhão, banhando-as de sul a norte. O rio Parnaíba, com suas águas salutares, é o refrigério de todas as povoações que demoram em suas margens. Pela manhã e à noite há sempre muita gente que aí vai tomar magníficos banhos. Conta-se, e grande número de pessoas o atestam, que em certos dias da semana costuma aparecer no rio, à noite, um monstro a que chamam Cabeça de Cuia. Este ser desconhecido vai traiçoeiramente se aproximando, pouco a pouco, do indivíduo, e se este porém não se evadir em tempo será apanhado por ele e submergido incontinenti. É representado por uma figura animada que tem a cabeça à semelhança de uma cuia. Ninguém, porém, ainda conseguiu ver-lhe o corpo”.
A lenda sobre o Cabeça de Cuia é comum no rio Parnaíba, que separa o Piauí do Maranhão, e segundo muitas pessoas, esse ser fantástico é descrito como um homem alto, magro, com cabelos grandes sobre a cabeça em forma de cuia, vindo daí o seu nome. Outra versão o mostra como um homem calvo e com cabeça disforme. A tradição revela que ele se torna terrível nas noites de sextas-feiras, e que devora de sete em sete anos alguma mulher que se chame Maria, ou então meninos que nadam no rio Parnaíba, razão pela qual as mães proíbem que os seus filhos nele se banhem. A origem da crença é a de que onde hoje está situada a cidade de Teresina, havia uma vila de pescadores, e lá, certa família passou a ser sustentada pelo filho chamado Crispim, após a morte do pai. Um dia ele chegou em casa exausto e faminto, após mais um dia de pesca infrutífera, e encontrou para comer apenas um caldo ralo. Cansado de tanta pobreza o rapaz passou a espancar a mãe com um osso de boi, enquanto esta o amaldiçoava gritando: “Filho maldito, sua cabeça de cuia vai crescer ainda mais e ficará vagando nas águas do rio até que você consuma sete Marias virgens”. Pouco depois, arrependido por vê-la morta, o rapaz mergulhou nas águas do Parnaíba e desapareceu. Os pescadores garantem que o vêem vez ou outra, mas ele só retornará se ficar apaixonado e passar a viver com sete Marias virgens.
Existe uma composição musical com esse mesmo nome, autoria de Pedro Silva, cuja letra diz o seguinte:
Remeiro valente do rio Parnaíba / que rema a canoa pra baixo e pra riba. / Que brinca com a morte e tem pouca sorte, / desprezando a vida contente a lidar
Remeiro valente lá do meu sertão / que afronta a torrente e sorri do trovão. / Que rompe o balseiro no mês de janeiro / Nas grandes enchentes que descem pro mar.
Já viste o cabeça-de-cuia apontar / no meio do rio e depois afundar? / É o filho maldito por pragas aflito, / castigo tremendo que a lenda sagrou
Se vires um dia a cujuba surgir / no meio rio e depois imergir. / Não é ilusão, é assombração, / a alma maldita, Crispim pescador
No bairro Poti Velho, em Teresina, foi colocado no interior do Parque Ambiental Encontro dos Rios, um dos pontos turísticos mais visitados da capital piauiense, o monumento Cabeça de Cuia (ilustração), como marco recordativo de uma lenda que resiste incólume à passagem dos anos.