CORPO SECO

A lenda do Corpo-Seco diz respeito a um homem de índole ruim, tão perverso que durante sua vida adulta batia freqüentemente na própria mãe.  Por isso, quando morreu foi rejeitado primeiramente por Deus, depois pelo Diabo, e até mesmo a terra enjeitou o seu corpo, devolvendo-o à superfície toda vez em que nela ele era enterrado. Desde então, como não tem um lugar onde possa descansar em paz, o Corpo-Seco (assim chamado porque se transformou em pele e osso) fica vagando sem rumo pelos campos, florestas ou ruas de alguma cidade, grudando-se em árvores que não demoram a secar depois de transformadas em encosto por aquela coisa murcha e horrorosa. Talvez daí tenha nascido o dito popular que diz Quem bate na mãe fica com a mão seca.

 

Essa criatura fantástica é conhecida em Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Amazonas, Nordeste do Brasil e principalmente no estado de São Paulo, onde em determinadas áreas se costuma dizer que quando algum incauto tem a infelicidade de passar perto de um Corpo-Seco, este salta sobre ele e suga seu sangue como se fosse um vampiro. Os relatos e citações sobre ela são muitos. O folclorista Luis da Câmara Cascudo, por exemplo, diz que “O Corpo-Seco é a morada do espírito estridente que vaga depois da meia-noite, enchendo de medo os que ouvem a ressonância dos gritos apavorantes. Condenada a uma pena terrível, a alma dos grandes pecadores reside, durante o dia, no Corpo-Seco, múmia esquecida e sem história, no deserto dos cemitérios”.

 

O escritor Leôncio de Oliveira publicou Vida Roceira em 1918, onde, ao descrever o Corpo-Seco, diz que ele é o “Homem que passou pela vida semeando malefícios e que seviciou a própria mãe. Ao morrer, nem Deus nem o Diabo o quiseram; a terra o repeliu, enojada da sua carne; e, um dia, mirrado, defecado, com a pele engelhada sobre os ossos, da tumba se levantou em obediência ao seu fado, vagando e assombrando os viventes nas caladas da noite”.

 

Em 07/08/2005 o jornal Vale Paraibano, de Taubaté, São Paulo, publicou matéria a respeito de um Corpo-Seco que se esconde há mais de 40 anos em uma gruta na localidade de Pedra Branca, naquele município. O texto alude à informação dada por Geraldo Periquito, apontado como uma das lideranças da localidade, segundo a qual a infeliz alma tem até nome: “Ele se chama Zé Maximiano. Um sobrinho dele já trabalhou comigo. O Zé virou corpo seco porque batia no pai e na mãe. Conheci ele quando pequeno”.

 

Continuando, diz o jornal que Geraldo Periquito tomou conhecimento dessa história por intermédio de um amigo seu chamado Pedro Vicente, a quem a família do falecido incumbira de levar o corpo rejeitado pela terra à gruta mencionada. De acordo com o seu relato, “depois que o Zé morreu, acho que de morte matada, ele foi enterrado no cemitério da igreja em Monteiro Lobato, mas a terra não o aceitava”. Por isso o Pedro Vicente ficou encarregado de levar o corpo em um balaio, para escondê-lo na gruta, mas prevendo possíveis assombrações por parte do Zé, o padre de Monteiro Lobato deu ao rapaz do transporte uma vara de marmelo benzida, orientando-o no sentido de que se o corpo seco quisesse voltar com ele, ou lhe pedisse para ficar, era para bater com a vara. E o vigário estava certo em sua previsão, porque quando Pedro completou a tarefa e se virou para ir embora, “o corpo seco o agarrou e falou que não ia deixar ele ir embora, que era para os dois ficarem juntos para sempre. O Pedro Vicente não pensou duas vezes e tascou a vara de marmelo no bicho até conseguir fugir. Isso foi o que ele me disse”.

 

O projeto Revelando os Brasis, criado em 2004, faz parte, segundo sua própria definição, da política de democratização e nacionalização das ações e recursos do Ministério da Cultura, e resultou num amplo painel de registro do Brasil. Os vídeos por ela produzidos transformaram-se em uma série de televisão exibida no Canal Futura, circulando, ainda, em festivais nacionais e internacionais, impressionando as pessoas por conta do ineditismo de seu conteúdo. A partir de março de 2006, iniciou-se o Circuito Itinerante do Revelando os Brasis, quando as cidades envolvidas tiveram – e terão - oportunidade de conhecer todas as produções realizadas pelo projeto.

 

O Concurso de Histórias do Revelando os Brasis, ano III, a ser lançado no Rio de Janeiro em outubro de 2008, deverá apresentar um curta-metragem sobre o corpo-seco, um personagem da tricentenária Paraibuna, município situado no Alto do Paraíba, na escarpa da Serra do Mar, a 120km de São Paulo e 36km de São José dos Campos. Segundo a produtora, “ele foi um cidadão que morreu há mais de um século, nas como era muito mau, a terra o expeliu no cemitério, o céu e o inferno o rejeitaram, impossibilitando-lhe o descanso eterno, e por esses motivos o padre o retirou da cidade, levando-o, numa procissão, a uma região de mata distante, hoje conhecida como Morro do Corpo-Seco. Lá, murcho como que se tivesse secado toda a água do corpo, ele fica isolado, assombrando os incautos que resolvem incomodá-lo”.

 

O documentário apresentará entrevistas feitas com jovens e idosos que viram a assombração, ou acreditam na sua existência, com seus relatos sendo dispostos em seqüência, de forma a introduzir no trabalho o morro do Corpo-Seco e a criatura estranha com sua história, além de revelar os casos fantásticos a ela relacionados, “dando uma lógica à narrativa, como peças de um quebra-cabeças se encaixando”.