Durante o Congresso Latino-americano de Ciências da Comunicação, realizado de 20 a 26 de abril de 2000, na Universidade Diego Portales, em Santiago, Chile, o jornalista Roberto Benjamim apresentou o trabalho denominado A Mídia e os Mitos, no qual afirma que “a idéia de que a expansão dos meios de comunicação apoiados em tecnologias modernas, convertendo a nossa época em tempos de racionalidade, significaria o fim dos mitos, não se confirmou. Os mitos tradicionais sobrevivem e novos mitos estão sendo criados e difundidos por estes meios”.
E explicando o significado do mito, dizia que “Em nossa classificação, ele é uma parte do folclore narrativo, porque consiste na personificação de um ser inexistente. É a representação mental e irreal de um elemento com formas humanas, de astros, de peixes, de outros animais, ou de qualquer coisa. O mito pode ser descrito ou desenhado de acordo com estas descrições, na qual se fixam os seus traços físicos e, no possível, suas características sobrenaturais e costumeiras. É sobretudo através destas últimas que o mito mantém suas relações com o homem, enquanto que, sobrenaturalmente, se mostra possuidor de extraordinários poderes, sobretudo metamorfoses”.
Os que estudam esse tipo de crença acompanham a mesma linha de raciocínio desenvolvida pelo jornalista, sugerindo que os mitos, mais que simples explicação de um fenômeno imaginário, procuram construir esquemas de interpretação que tragam algum sentido aos acontecimentos, à vida, ao mundo e à morte, com os recursos disponíveis em cada cultura. Um deles fala da dama de branco, mulher sedutora que aparece a homens solitários e desejosos de aventuras sexuais, para logo em seguida desaparecer ou apresentar-se sob a forma de um esqueleto. Há séculos já se falava na Europa de uma criatura fantástica com essas mesmas características, associando sua aparição à morte de um príncipe soberano ou algum acontecimento notável. No Brasil de agora, sua presença é denunciada em diferentes lugares e ocasiões, escolhendo sempre como principais vítimas os caminhoneiros de longos percursos, os taxistas e outros trabalhadores que se deslocam à noite.
Como no caso da mulher atraente e promissora que aparece a homens solitários e desejosos de aventuras sexuais, para logo em seguida desaparecer ou apresentar-se sob a forma de um esqueleto, podendo ser tanto a Loura do Banheiro, do Paraná, a Loura do Bonfim, de Belo Horizonte, a Mulher da Meia-Noite, de Minas Gerais e São Paulo, ou a Dama de Branco, conhecida não só pelos garimpeiros do Rio das Garças, no Mato Grosso, mas também em outras regiões do país.
Dizem que em Belém do Pará, onde é conhecida como a moça do táxi, ela teria sido identificada como Josefina Conti, uma jovem falecida em 1931 e sepultada no jazigo da família no cemitério de Santa Isabel, cujas aparições noturnas motivaram a filmagem de um documentário que apresenta a foto da desaparecida, a casa onde morava, e o percurso normalmente feito nas viagens que faz utilizando táxis. Em Londrina, Paraná, o jornal Folha de Londrina, em sua edição de 7 de setembro de 1996, informou que uma mulher loura havia aparecido nos banheiros femininos da universidade local, e que depois fora vista pedindo carona aos motoristas que transitavam pelas proximidades daquela instituição de ensino. Já em Catende, situada na zona da mata pernambucana, ela seria uma mocinha que em vida fazia parte de rica família de produtores de cana-de-açúcar, surgindo agora diante dos operários do turno da noite da usina local, quando estes retornam para casa após terminarem a jornada de trabalho, mas desaparece repentinamente, sem que ninguém perceba para onde foi.
Muitos garimpeiros do rio das Garças, no Mato Grosso, acreditam que o surgimento da Dama de Branco representa um sinal de sorte, enquanto outros crêem que ela prenuncia a morte. Alguns dos que declaram tê-la visto informam que a assombração costuma passear a noite pelas estradas, sempre vestida de branco, mas desaparece em uma curva do caminho; outros, porém, afirmam que a visão corresponde a uma graça, um sinal de que bons ventos irão soprar para o lado de quem a avistou. Certos relatos ora dão conta de que a criatura fantástica costuma vagar pelos arredores de velhos casarões, como se tivesse tido outrora alguma relação com eles; ora lhe atribuem o poder de vigiar os tesouros enterrados por alguém, e depois esquecidos. Conta-se, a esse respeito, que na cidade mato-grossense de Diamantino, certa noite um homem viu a Dama de Branco junto à fachada de uma velha casa abandonada. Dominando o medo, ele fechou os olhos e foi até o lugar aonde a visão se encontrava, marcando-o com sua faca. No dia seguinte, voltou ao local e pôs-se a esburacar a parede de taipa no ponto que assinalara, acabando por descobrir uma garrafa cheia de ouro.
O que dizer disso tudo?
Sobre o rio diamantífero, o escritor Monteiro Lobato escreveu um livro denominado Rio das Garças, destinado ao público infantil e cujo texto pode ser resumido da seguinte forma: João Nariz ouviu falar do rio das Garças e da enorme quantidade de diamantes existentes em seu leito. Um belo dia ele vendeu sua casinha de palha, comprou uma coleira para seu cachorro Joli, e partiu para o sertão com esse seu amigo, â procura do rio famoso. Não encontrou garça nenhuma, e sim aventureiros de todos os tipos...