IARA

A lenda de Iara, ou Uiara, é de origem européia, provavelmente trazida pelos portugueses no início do período de colonização, quando estes penetraram na região amazônica levando consigo as crenças e tradições oriundas da leitura de clássicos antigos como a Ilíada e Odisséia, de Homero, Eneida, de Virgílio, Epítetos, de Heródoto, ou ainda os Luzíadas, de Camões, onde as aparições de sereias são mencionadas várias vezes. Seja como for, o fato é que a Iara brasileira não está sozinha no universo das crendices em figuras femininas configuradas como metade gente, metade peixe, pois isso também acontece com a Sirena espanhola, as Nereidas gregas, a Lorelei nórdica, a Kianda africana, ou a Sereia portuguesa.

 

Esse mito foi sendo incorporado à cultura indígena mas representado no início por um homem-peixe, o Ipupiara, que caçava homens e os levava para o fundo das águas a fim de devorá-los. No século 18 esse personagem masculino transformou-se na sedutora Iara, também habitante do fundo dos rios, de onde sai nos fins de tarde para aparecer à flor das águas com seus longos cabelos enfeitados com flores vermelhas, deixando submersa apenas a cauda de peixe. Outras vezes, porém, ela assume a forma humana e é assim que perambula pela região à procura de vítimas. Para seduzir os homens, a mãe d’água canta lindas melodias, e os atraídos pela beleza de sua voz são convencidos a ir com ela para a morada encantada existente no fundo do rio, sob a promessa de que lá os dois desfrutarão de felicidade eterna.

 

Quem olhar seu rosto jamais poderá esquecê-lo, mesmo que no primeiro instante o medo e a precaução recomendem resistência à sedutora criatura. Foi assim, por exemplo, que aconteceu com o índio tuxaua Jaguarari, que estava pescando em sua canoa e viu a deusa surgir das águas. No início ele negou-se a atender ao chamado da sereia, remou para a margem e escondeu-se na aldeia, mas como não conseguia esquecer a figura e a voz de Iara, voltou ao local onde estivera e deixou seu barco ser levado pela correnteza até o ponto em que ela o esperava, cantando a música de núpcias. Então o tapuia mergulhou e desapareceu nas águas escuras. Alguns dizem que após a festa acontecida naquela noite, no fundo do rio, o casal passou a viver uma felicidade absoluta, mas outros garantem que já na semana seguinte a mãe das águas estava novamente à procura de outra vítima.

 

Entre os muitos textos que tratam do mito da Iara, o do folclorista e escritor paraense Walcyr Monteiro, diz que além dele ser um dos mais conhecidos, é também “um dos mais confundidos da região amazônica, o que naturalmente inclui o Pará. Geralmente as pessoas acham que a Iara é uma mulher loura, de olhos azuis e a parte inferior do corpo em forma de peixe, mas esta descrição, na verdade, é da sereia européia e não da Iara amazônica. A Iara, além de ser confundida com a sereia européia, o é também com a Iemanjá africana, embora nada tenha a ver nem com uma nem com outra”. 

 

Prosseguindo, ele diz que “Em certos locais dizem-na boto-fêmea, também a encantar os homens e levá-los para o fundo, e em outros dizem ser a própria Boiúna (cobra preta), que traduzem erroneamente por cobra grande.  Na verdade, a Iara é uma linda mulher morena, de cabelos negros e olhos castanhos. De beleza ímpar, os que a vêem nua banhar-se nos rios não conseguem dominar seus desejos e atiram-se nas águas... Nem sempre voltam ao mundo dos vivos.... Alguns a descrevem como tendo uma cintilante estrela na testa, que funciona como chamariz para atrair o olhar e assim ser facilmente hipnotizado”. 

 

E conclui: “Quanto a possível forma de peixe da parte inferior da Iara, isto é apenas um vestido, ou melhor, uma espécie de saia, que ela veste por vaidade e para dar a ilusão de ser metade mulher, metade peixe. Confundida ou não com crenças de outras plagas, a Iara até hoje exerce um grande fascínio e maior encantamento nos homens da região”.