Manoel Ambrósio (1865-1947), natural de Januária, vale do São Francisco, em Minas Gerais, intelectual, folclorista e membro do Instituto Historio e Geográfico de Minas Gerais, escreveu Brasil Interior, livro em que aborda o folclore das margens do referido rio. Em certo trecho dessa obra ele discorre sobre um homem afamado em seu tempo, mas de particularidades de vida muito pouco conhecidas de quantos, na época dos acontecimentos, conviveram com ele nos mesmos rincões do norte mineiro, afirmando que:
“... era um vaqueiro ambulante, misteriosamente aparecendo por fazendas em ocasiões de difíceis vaquejadas, em que pintava proezas admiráveis. Nos sertões do norte mineiro dele se fala ainda com essa crença supersticiosa cheia de infância e desalinho, marcando datas, lugares, perigos inimagináveis, quase impossíveis, salvando gerações, vivendo de todos e por toda a parte, sempre o mesmo, inextinguível. Franzino, mulato de mediana estatura, pouco idoso, falando pouco e muito descansado, sempre vestido de perneira e gibão, cavalgando eternamente uma égua muito feia e magra ocultando a larga fronte, olhar expressivo e barba espessa e comprida sob um grande e desabado chapéu de couro - tal a figura simpática do Borges. Quase nunca era procurado porque, boêmio dos campos, sua residência certa era ignorada".
Luiz da Câmara Cascudo (1898-1986), nascido no Rio Grande do Norte, historiador, antropólogo e folclorista, dedica um capítulo a esse personagem em sua Geografia dos Mitos Brasileiros, no qual ensina que “Em todas as regiões brasileiras de pastorícia, antigo Nordeste, Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, Bahia, há a tradição de um vaqueiro misterioso, sabedor de segredos infalíveis, mais destro, mais hábil, mais afoito, melhor cavaleiro que todos os outros reunidos. Usa vários nomes. Ninguém sabe onde ele mora nem a terra em que nasceu. Aparece nas horas de vaquejada ou apanha de gado novo, ferra ou batida, para campear. Vence a todos os companheiros. Recebe o pagamento. Desaparece para surgir a vinte, cinqüenta léguas adiante, noutra fazenda, repetindo as façanhas julgadas sobrenaturais”.
E termina sua descrição afirmando: “Monta um cavalo velho ou uma égua cansada e aparentemente imprestável. Humilde e mal vestido, sofrendo remoque dos vaqueiros e campeadores, termina sendo o primeiro, o mestre supremo aclamado como um herói, desejado pelas mulheres, convidado para os melhores lugares pelo fazendeiro. Recusa todas as seduções e remergulha no mistério”.
A lenda é realmente essa: a de que um vaqueiro aparece nas fazendas de criação de gado sem que se saiba de onde veio, para participar da lida de gado, e ao final do corre-corre, do junta daqui e aparta dali, é apontado como o melhor dos peões que participaram da perigosa e extenuante jornada. Ao que parece, o mito é de origem lusitana e apresenta variações de um lugar para outro, como acontece na história que se conta nos sertões de Minas Gerais, onde o vaqueiro misterioso tinha o nome de Borges e morreu de morte matada, conforme se diz no linguajar dos locais. Manoel Ambrósio, saudoso pesquisador das tradições do norte mineiro nos dá conta que, certa feita, esse Borges e um aprendiz da profissão campeavam um gado sumido na imensidão daqueles campos. Os dois estavam cansados e famintos, e por isso o mestre disse ao aluno que para saciar a fome que lhes queimava as entranhas, ele mataria a primeira novilha gorda que avistasse, mas como precisaria se transformar em onça para fazer tal coisa, que o jovem não se assustasse, pois nenhum mal lhe aconteceria. Este, coitado, achou que o aviso não passava de brincadeira, sorriu e seguiu adiante.
Não passou muito tempo e uma rês surgiu à frente. Borges apeou da montaria, entrou no cerrado, de onde voltou logo depois com um maço de folhas na mão, entregou-as ao aprendiz e lhe disse: “Tome esse maço de folhas. Vou me transformar em onça e pegar a novilha. Quando voltar, virei com a boca aberta, mas não tenha medo, porque não lhe farei mal. Assim que eu me aproximar, coloque uma dessas folhas em minha língua, sem demora, e pronto..., voltarei a ser humano. Mas seja franco: se você não tem coragem, diga logo, pois não quero correr nenhum risco”.
O rapaz, assustado, assentiu com a cabeça sem pensar direito no que estava fazendo, mas apavorou-se quando viu que do mato aonde o Borges entrara, uma onça saiu em carreira célere, buscando a novilha que pastava a pouca distância. Abateu-a, bebeu-lhe o sangue com sofreguidão, e uma vez tendo a sede saciada, retornou de boca aberta, conforme o combinado, ao ponto em que deixara o aprendiz. Porém não mais o encontrou, porque ele fugira o mais depressa que as pernas de sua montaria lhe haviam permitido correr. Durante algumas semanas a onça seguiu o seu rastro sem conseguir alcançá-lo, e durante esse período uma grande mortandade de gado assolou a região, Até que um dia os caçadores a encantoaram e abateram. Na descrição do folclorista Manoel Ambrósio, “... naquele duro momento, conta-se, que ao dar com os olhos no ingrato discípulo que ali se achava entre os matadores, soltara um terno e prolongado gemido que nada tinha de selvagem, seguido do último suspiro”.