Essa superstição surgiu no sul do país, mais precisamente no Rio Grande do Sul, no final do século 19, e é fruto da imaginação dos que na época defendiam a abolição da escravatura. Ela trata de um ente fantástico conhecido como negrinho do pastorejo, ou crioulo do pastoreio, ou pastorejo, espécie de anjo bom dos pampas, ao qual os campeiros e as crianças oferecem velas acesas quando conseguem achar animais ou coisas perdidas.
Diz a lenda que na região de fronteira morava um estancieiro excessivamente cruel no trato dos peões e negros escravos de sua propriedade. Em certo dia de inverno, quando a temperatura estava muito baixa e um vento gelado e forte soprava vindo do sul do continente, esse senhor ordenou a um dos empregados, um menino negro com quatorze anos de idade, aproximadamente, que fosse a um pasto próximo vigiar os cavalos e potros que havia adquirido recentemente. No final da tarde o proprietário notou a falta de um dos animais, um lindo cavalo baio, e por isso ficou muito nervoso e castigou o rapazinho com seu chicote, dando-lhe uma surra tão grande que o pobre coitado ficou gemendo e sangrando em um canto do curral.
Não satisfeito com o que havia feito, o fazendeiro ainda exigiu que o negrinho retornasse ao campo para procurar o animal sumido, dizendo-lhe que se não trouxesse o baio de volta, a nova punição que lhe daria seria ainda pior que a anterior. O menino saiu aflito para cumprir a ordem recebida, e realmente encontrou o animal, mas quando o laçou a corda partiu, e o fujão foi-se embora novamente.
Ao tomar conhecimento do que havia ocorrido o dono da estância ficou ainda mais furioso, e por isso espancou o menino, deixando-o em seguida amarrado e nu em cima de um formigueiro. No dia seguinte, quando o malvado retornou ao local para ver o que tinha acontecido, descobriu surpreso que sua vítima ainda estava lá, mas de pé, sem qualquer marca das chicotadas em sua pele lisa, tendo a seu lado a Virgem Maria, o cavalo baio e os demais animais da tropa. Arrependido, o fazendeiro cruel jogou-se ao chão e implorou o perdão do negrinho, que não lhe deu nenhuma resposta. Apenas beijou a mão de Nossa Senhora, montou no cavalo baio e partiu conduzindo a tropilha pela vastidão dos pampas, onde até hoje continua ajudando os que lhe pedem ajuda para encontrar os animais ou objetos que porventura tenham perdido.
Segundo alguns folcloristas, a divulgação da lenda do Negrinho do Pastoreio, fundamentada em princípios católicos e europeus, teve como objetivo fortalecer o ensinamento de que a redenção divina é a compensação pelos sofrimentos terrenos. A partir daí a tradição popular se encarregou de conceder poderes sobrenaturais ao pretinho supliciado, razão pela qual ele possui muitos devotos. Segundo a lenda, ele é afilhado da Virgem Maria e encontra objetos perdidos, bastando que o dono prometa-lhe um toco de vela que será dado à madrinha. Em algumas versões, os que recorrem a ele também devem lhe oferecer um pedaço de fumo (na ilustração, escultura de Vasco Prado, em São Francisco de Paula-RS).
Baseado nesse mito popular, o jornalista Augusto Meyer (1902 - 1970), que também foi poeta, ensaísta, memorialista, folclorista e ocupante da cadeira 13 da Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito em 1960, criou a seguinte Oração ao Negrinho do Pastoreio:
Eu quero achar-me, Negrinho! / (Diz que você acha tudo). / Ando tão longe, perdido... / Eu quero achar-me, Negrinho: / à luz da vela me mostre / o caminho do meu amor.
Negrinho, você que achou / pela mão da sua madrinha, / os trinta tordilhos negros / e varou a noite toda / de vela acesa na mão / (Piava a coruja rouca / no arrepio da escuridão. / Manhãzinha, a estrela d’alva / na voz do galo cantava, / mas quando a vela pingava / cada pingo era um clarão).
Negrinho, você que achou, / me leve à estrada batida / que vai dar no coração. / (Ah! os caminhos da vida / ninguém sabe onde é que estão!).