ONÇA DA MÃO TORTA

Essa é uma lenda bastante comum na região centro-oeste do Brasil, e fala sobre certa onça muito grande que tem uma das patas dianteiras torta. Segundo a versão que é dada por pessoas que afirmam já tê-la visto em alguma oportunidade, ela nada mais é do que o espírito de um velho vaqueiro que durante sua vida foi mau ao extremo, e que depois de morto transformou-se na onça com uma das mãos torta, assim como se tivesse recebido uma espécie de castigo para as perversidades que praticou durante toda a sua existência. Dessa forma, como a fera é, na verdade, um espírito, ela não pode ser morta, daí o grande medo que inspira aos moradores da região por onde vagueia costumeiramente.

 

Uma outra versão dessa mesma crença relata que já lá se vão muitos anos, uma velha índia tapuia morava em uma pequena choça feita de cascas de pau, na beira do rio são Francisco. Contava-se, na época do acontecido, que ela era uma feiticeira muito malvada que se alimentava de sangue humano, e que quando este não a fartava, comia também o fígado de suas pobres vítimas. Um ou outro caçador já a havia surpreendido casualmente no meio da caatinga, ou à boca de uma das furnas da serra, e por isso sabia-se que quando ela sentia fome, despia-se, estendia os trapos no chão, mas às avessas, e a seguir deitava-se neles, espojando-se como um bicho. E então virava onça. Assim transformada, ela atirava-se contra pobres criaturas que encontrava pela frente, geralmente mulheres e crianças, e uma vez saciada a fome, retornava imediatamente ao local de onde saíra, onde, esfregando-se nos andrajos, voltava a ser gente novamente. Porém, certo dia um pé de vento mais forte atirou os seus trapos no rio, onde  eles sumiram no remoinho das águas, e por isso a índia não pôde desencantar-se como fazia, ficando como onça para sempre.

 

Os relatos sobre essa fera são praticamente unânimes na afirmativa de que os caçadores temem muito encontrá-la porque se trata de uma onça enorme e enfeitiçada, tanto que por mais que atirem nela, não conseguem feri-la. A explicação dada para esse fenômeno é a de que o animal encarna a alma de um vaqueiro velho que em vida cometeu toda sorte de crimes. Logo após a sua morte uma onça grande e esquisita, com a mão direita torta, passou a assustar os moradores daquela região, e por isso os caçadores decidiram partir em seu encalço, para matá-la. Mas não conseguiram fazer isso porque apesar de a terem encontrado e atirado muitas e muitas vezes nela, as balas simplesmente não a feriam, batiam em seu couro e caíam no chão. Então a onça dirigiu-se calmamente para o interior da mata, onde até hoje continua vagando à procura não se sabe de quê. 

 

Diversos poetas sertanejos mencionam a onça-da-mão-torta em suas composições. Como no caso de Luiz Rodrigues Lira, nascido em Moreno, Pernambuco, autor de dezessete histórias ainda não impressas e mais vinte folhetos publicados, entre os quais João Moleque e a princesa Lindalva, Aureliano e Doralice, A Vingança do Sertanejo no Engenho Pirapama, e As Coisas do Meu Sertão. Neste último, alguns dos seus versos dizem o seguinte: “Meu pajeú meu sertão / Terra santa idolatrada / A saudosa Vila-Bela / Hoje é Serra-Talhada /  Passou de vila a cidade /  E está mais elevada / Ainda há vaquejada / Rala-bucho e sanfoneiro / Pastoril, João-redondo / Pandeirista e zabumbeiro / Reisado, / São João da roça / E cantador violeiro / Tem cavalo pra vaqueiro / Tem gibão e sela inglesa / Festa de apartação / Cada um com mais destreza / Na pega do barbatão / Ali não se vê moleza / Quem visitar uma feira / Do meu belo pajeú / Encontra carne e queijo / Carneiro, bode, zebu / Para comer com feijão / Cuscuz, xerém e angu / Meu sertão tem canguçu / Onça pintada valente / E a mão-torta também / É bastante renitente / Porém a suçuarana  / Devora bode somente”.