ONÇA PÉ- DE- BOI

A onça é um mamífero forte e vigoroso que pertence à família dos felinos, sendo encontrada do Texas, Estados Unidos, à Patagônia, na Argentina. Ela se constitui em autêntico terror nas selvas sul-americanas, pois aliando à sua ferocidade natural uma agilidade surpreendente, consegue atravessar a nado até mesmo os rios bem largos; trepar com extrema facilidade em árvores elevadas; saltar a grande altura e comprimento; revelando ainda muita sagacidade nas caçadas que faz em busca de alimento. Sua atividade predatória é desenvolvida preferentemente durante o crepúsculo, sendo suas vítimas preferidas os porcos-do-mato, as capivaras, os veados e outros animais da floresta de porte assemelhado, mas quando a caça se torna mais difícil e a fome aperta, chega a atacar o gado bovino das fazendas existentes na região que habita. É raro ela enfrentar o homem, mas pode tornar-se perigosa se provocada por caçadores.

 

Na região norte do Brasil, coberta por florestas às vezes quase impenetráveis, ela é muito comum, mas nesse pedaço do nosso território também não são poucos os que já ouviram falar a respeito da onça pé-de-boi, descrita em lenda sobre certo animal fantástico que muitos dos pescadores e mateiros que percorrem as florestas do Amazonas e Acre, juram já ter visto alguma vez. Segundo o relato dessas testemunhas, elas são duas onças - o macho e a fêmea - que andam sempre juntas, o que praticamente acaba com as chances de quem pretenda escapar delas.

 

Além do mais, as feras podem prolongar por longo tempo a vigilância do local onde a presa potencial esteja escondida, porque enquanto uma delas vigia atentamente o lugar, a outra se alimenta ou dorme. A característica mais interessante desses animais é que suas patas são redondas como as de um boi, possuindo cascos fortes que deixam rastro inconfundível, embora ninguém consiga explicar como e por que isso acontece. Dizem os entendidos que a única maneira de eliminar esses animais é acabar primeiramente com o macho, porque assim a fêmea ficará desnorteada e poderá ser morta com mais facilidade.

 

Afirma-se na região Norte que a onça pé-de-boi é o animal mais temido pelos caçadores, tanto que nenhum deles ousa penetrar na floresta quando seus rastros são descobertos. Sobre a autenticidade de sua existência, diz Francisco Peres de Lima em seu Folclore Acreano, de 1938:  “Esse animal sai dos círculos fabulosos e imaginários, porque de fato existe”. Por sua vez, Epaminondas Barahuna, em Histórias Amazônicas,  Edições O Cruzeiro, 1974, conta o seguinte:

 

“Talvez pelo seu porte a onça é o terceiro felino do mundo em tamanho e força ocupando um destacado lugar nas preocupações do homem do campo, é de se notar, ela deu abundante matéria-prima à imaginação das populações do interior brasileiro, para enriquecer a mitologia das diversas áreas onde ela ocorre, praticamente todo o país. Assim sugiram, além da nossa muito amazônica pé-de-boi, a Onça-Borges, nos extremos oeste de Minas Gerais; a Onça-Cabocla, na região do rio São Francisco; a Onça-Mão-Torta, no Estado de Goiás, e, alhures, a Onça-Maneta, por isto mesmo ainda mais feroz, todas elas acrescentando a sua parcela de terror onde se atribuía a sua presença. A onça pé-de-boi incorporou-se à mitologia da Alta Amazônia, e, segundo se dizia, tinha a forma normal de um animal dessa espécie, com a particularidade de possuir as duas patas traseiras semelhantes às do boi. Outros admitiam que essa anomalia se estendia às quatro patas”.

 

O folclorista Luiz da Câmara Cascudo também fala dela em seu livro Geografia dos Mitos Brasileiros: “A ‘Onça-boi’ anda sempre acasalada e nisto reside o maior perigo. O caçador perseguido por ela estará perdido se não a puder matar imediatamente. Como os cascos não permitem a subida nas árvores, elas ficam, dias e noites, vigiando o caçador que, procurando salvar-se, empoleirou-se num galho. Quando uma das onças está com fome retira-se e a companheira permanece de sentinela. Essa vigia alternada esgota as forças do homem que termina caindo da árvore e sendo devorado. Todos os caçadores contam a mesma história”.