PISADEIRA, A

A definição clássica de sonho é a de que se trata de um conjunto de imagens e idéias que se apresentam ao espírito durante o sono. Na antiguidade eles eram considerados como sendo mensagens enviadas do além ao homem, a fim de preveni-lo sobre determinados acontecimentos. Da mesma forma como os povos primitivos consideravam o sonho como a visita feita ao corpo vivo pela alma de um outro corpo, ou pelas almas dos mortos, ainda hoje determinados segmentos sociais também mantém vivas certas crendices populares, como, por exemplo, a de que sonhar com os mortos constitui uma forma de adivinhar o futuro, uma vez que a alma dos falecidos dele teria conhecimento.

 

Já o pesadelo é a opressão ou agitação durante o sono, provocada por sonhos aflitivos, uma situação incômoda que deu origem a lendas como a da pisadeira, por exemplo, definida por alguns dicionários como sendo uma velha magra e feia que, segundo a imaginação infantil, está no telhado e vem sentar-se sobre o peito das crianças que choram ou que adormecem deitadas de costas. Ou a da existente na região mineira do vale do rio São Francisco, onde se fala de uma mulher com gorro vermelho na cabeça, que costuma sentar-se sobre o peito daqueles que dormem de papo pro ar. Por isso recomenda-se aos estranhos que visitam a região para que não durmam nesta posição, pois se o fizerem a pisadeira certamente virá sentar-se sobre o tórax do desprevenido. Mas essa crença tem pelo menos um lado promissor: se alguém conseguir tirar qualquer peça de roupa da criatura, ela se tornará sua escrava, dando-lhe tudo o que ele desejar. Conta-se, a respeito, que um boiadeiro deitou-se para a sesta, mas ao sentir o peso em cima de si o sabidão estendeu o braço e tirou a touca da pisadeira, que logo satisfez todos seus desejos tornando-o o homem mais rico da região.

 

As tentativas de se encontrar explicação para os pesadelos são antigas. Os índios brasileiros falavam de Jurupari, um ente estranho que visita os humanos durante o sono e os assusta com a visão de perigos horríveis, impedindo-os ao mesmo tempo de gritar por socorro. De Portugal se tem notícia do Fradinho da Mão Furada, que “tem na cabeça um barrete encarnado, escarrancha-se à vontade em cima das pessoas e a ele são atribuídos os grandes pesadelos, Só quando a pessoa acorda é que ele vai embora”, segundo revela J. Leite de Vasconcelos, em Tradições Populares de Portugal.  E nas lembranças de praticamente todos os povos da Terra existe a referência sobre um gigante ou anão, homem ou mulher de face horrenda, que aproveitava o sono das pessoas para sentar-se sobre seu estomago, comprimindo-lhes o peito e dificultado sua respiração. Daí que em português e espanhol a palavra pesadelo deriva de peso, pesado, lembrando, talvez, o visitante noturno que traz consigo agonias que não se consegue explicar.

 

A Pisadeira, mito de origem portuguesa que ocorre em São Paulo e parte de Minas Gerais, é descrita de diferentes formas por autores que procuram explicá-la. O escritor Cornélio Pires, em Conversas ao Pé do Fogo, 1927, diz que “essa é ua muié muito magra, que tem os dedos cumprido e seco cum cada unhão! Tem as perna curta, cabelo desgadeiado, quexo revirado pra riba e nari magro munto arcado; sombranceia cerrado e zóio aceso... Quando a gente caba de ciá e vai durmi logo, deitado de costa, ele desce do teiado e senta no peito da gente, arcano... arcano... a boca do estámo... Purisso nunca se deve dexá as criança durmi de costa".

 

Outra versão garante que ela é uma mulher muito magra que vive pelos telhados, sempre à espreita, enquanto outros a apresentam como sendo “uma negra gorda, muito pesada, com os dedos compridos e secos, unhas enormes, sujas e amareladas. As pernas são curtas e o cabelo desgrenhado. Um narigão, magro e muito arcado como um gavião. Os olhos são vermelho como fogo, malignos e arregalados. O queixo é revirado para cima e a boca sempre escancarada, com dentes esverdeados e à mostra. Nunca ri, gargalha. Uma gargalhada estridente e horripilante”.