ROMÃOZINHO

O rio Paranã nasce no vale que fica entre as serras dos Pirineus e Paranã, nas proximidades da cidade de Formosa, em Goiás, e depois de juntar-se ao rio Maranhão vai formar com ele o rio Tocantins, 630 quilômetros após o seu nascedouro. Conta a tradição que por aquelas bandas morava um lavrador cujo filho chamado Romãozinho, apesar de ainda relativamente pequeno, era vadio, malcriado e extremamente mau para a idade que tinha, tanto que ao invés de brincar como os outros meninos normalmente costumam fazer, preferia arrancar perninhas de formigas e roubar filhotes de passarinhos nos ninhos, para depois ficar rindo satisfeito com o sofrimento dos pequenos insetos e a aflição das aves indefesas.

 

Um dia sua mãe o mandou levar comida para o pai que trabalhava na roça desde o romper do dia, em lugar um pouco distante. A criança foi com a má vontade de sempre, e no meio do caminho comeu os pedaços de frango que faziam parte da refeição que carregava, juntou os ossos, colocou-os na marmita, e foi isso que entregou ao pai. Quando este viu os restos na vasilha perguntou que brincadeira mais sem graça era aquela, e o menino endiabrado, querendo se vingar da mãe pela caminhada que fora obrigado a fazer, respondeu: “Foi isso o que me mandaram entregar. É o que sobrou da galinha que ela comeu com o homem que vai lá em casa quando o senhor está trabalhando”.

 

Ao ouvir a história contada pelo filho o lavrador ficou furioso, deixou a enxada de lado, abandonou o serviço que fazia, voltou rapidamente para casa e matou a esposa com a peixeira que trazia consigo. Ferida de morte, a coitada percebeu que o moleque estava rindo com a sua desgraça, e por isso, antes do último suspiro, ainda encontrou forças para amaldiçoá-lo: “Não morrerás nunca. Não conhecerás céu ou inferno, nem descansarás enquanto existir um único ser vivo na face da Terra”. Dizem que na hora da morte de sua mãe o garoto explodiu, espalhando pelos ares um cheiro forte de enxofre, que ele virou bicho aos 14 anos, e que apesar dos duzentos anos já decorridos após esse acontecimento, Romãozinho continua com a mesma voz e praticando as mesmas diabruras.

 

Fala-se, também, que logo depois disso o marido morreu de arrependimento, mas o menino amaldiçoado nunca mais cresceu, passou a andar sem rumo pelas estradas do vale do Paranã, quebrando telhas a pedradas, assombrando gente, correndo atrás das vacas, acabando com o choco das galinhas, ou então se transformando em uma tocha de fogo que fica indo e vindo pelos caminhos desertos. Outra versão assevera que ele não dá sossego a ninguém, e que até mesmo as vilas e povoados lhe servem como palco para a prática das mais diversas travessuras, como levantar a saia das mulheres, atirar areia nas panelas, jogar pedra nas pessoas, derrubar objetos de cima dos móveis, e uma vez que ninguém consegue vê-lo, a impressão que fica é a de que algo sobrenatural está movimentando as coisas e os objetos.

 

O jornalista e escritor Wilson Lins diz em seu livro O Médio São Francisco - Uma Sociedade de Pastores e Guerreiros, Companhia Editora Nacional, 1983, que “As aventuras de Romãozinho dariam um livro. O Romãozinho vence o caboclo-d'água, tanto em peraltice como na popularidade. Não há, na beirada, quem desconheça as diabruras do diabinho que passa os dias apagando o fogo das cozinhas e à noite atira pedras nos telhados das casas... O próprio Romãozinho, que é a mais beiradeira das assombrações da beirada, tem seus pontos de contato com ‘espíritos malignos’ de outras regiões do país”.

 

E também revela que “na vila de Icatu, Romãozinho atanazou a vida dos moradores, apagando o fogo das cozinhas, derramando as panelas de comida, derrubando as garrafas das prateleiras das bodegas, tocando os sinos da igreja, levantando as saias das mulheres nas ruas. Mandaram buscar um sacerdote na vizinha cidade da Barra para benzer a Vila. Dizem que mesmo depois da benção, Romãozinho continuou vez por outra visitando o povoado e fazendo suas diabruras”.

 

Resumindo: ele é um pretinho perverso como o Saci, apesar de viver rindo, e por ter levantado falso testemunho contra a mãe, nem no inferno poderá entrar.