Ensina a crença popular que o saci é um ente fantástico representado por um negrinho de uma perna só, que traz a cabeça coberta por comprida touca vermelha e se diverte perseguindo os viajantes ou lhes armando ciladas pelos caminhos. Essa lenda surgiu em Minas Gerais e São Paulo no final do século 18, e sua explicação é a de que durante a escravidão as amas-secas prendiam a atenção das crianças relatando as travessuras desse ser imaginário, garantindo que ele adorava praticar travessuras como esconder brinquedos, soltar animais dos currais, derramar sal nas cozinhas ou fazer trança na crina dos cavalos, valendo-se para isso da condição de aparecer e desaparecer na hora que bem entendesse, ou de se transformar em qualquer coisa graças ao poder mágico que lhe era dado pela carapuça de pano que trazia na cabeça.
Embora em algumas regiões o saci tenha sido considerado como uma criatura alegre e brincalhona, mas também temido pelos moradores de outros lugares como entidade maligna e perigosa, a descrição de sua figura jamais variou: um menino negro de uma perna só, fumando cachimbo. Porém, pequenos detalhes podiam ser acrescentados aqui e acolá, como o de que ele tinha um furo na palma de cada uma das mãos, e que sua diversão predileta consistia em jogar uma brasa ou uma moeda para o alto, a fim de que na volta ela passasse por um desses buracos.
Seu nome vem da língua tupi-guarani, mas os tupinambás acreditavam que a ave matintaperera, que além de preta também costumava ficar pulando numa perna só, passou a ser chamada de saci-pererê quando se transformou no caboclinho que aparecia aos viajantes perdidos nas matas. Outras versões explicam que existiam três tipos de saci: o pererê , pretinho, o trique , moreno e zombeteiro, e o saçurá , com olhos vermelhos. Diziam, mais, que ao invés de um eram diversos os sacis que se reuniam à noite para planejar as travessuras do dia seguinte; que o caipora, entidade fantástica cujos pés se voltavam para trás, era o pai do saci; que dentro de todo redemoinho de vento existia um saci; que ele não atravessava córregos nem riachos; que alguém perseguido por ele deveria jogar cordas com nós em seu caminho, porque o negrinho tentaria desatá-los e permitiria assim que a pessoa fugisse; e que se alguém jogasse dentro do pé-de-vento um rosário de mato bento, ou uma peneira, poderia capturá-lo, e que se conseguisse retirar sua touca seria recompensado com a realização de um desejo.
Através de Tio Barnabé, um dos seus personagens, o escritor brasileiro Monteiro Lobato (1882 - 1948) descreve o Saci-Pererê: "O saci é um diabinho de uma perna só que anda solto pelo mundo, armando reinações de toda sorte: azeda o leite, quebra pontas das agulhas, esconde as tesourinhas de unha, embaraça os novelos de linha, faz o dedal das costureiras cair nos buracos, bota moscas na sopa, queima o feijão que está no fogo, gora os ovos das ninhadas. Quando encontra um prego, vira ele de ponta pra riba para que espete o pé do primeiro que passa. Tudo que numa casa acontece de ruim é sempre arte do saci. Não contente com isso, também atormenta os cachorros, atropela as galinhas e persegue os cavalos no pasto, chupando o sangue deles. O saci não faz maldade grande, mas não há maldade pequenina que não faça”.
Muita gente não sabe, mas o insigne perneta tem o seu dia comemorativo em São Luiz do Paraitinga (SP), no município e no estado de São Paulo, em Vitória (ES) e em São José do Rio Preto (SP). Outras informações e histórias sobre ele são encontradas no site www.sosaci.org.