As mesmo tempo em que causam grande temor aos seres humanos, as serpentes fascinam os que não as conhecem em virtude das histórias fantásticas que sugerem serem elas capazes de hipnotizar e matar em poucos minutos. Essas e outras crenças populares dão uma dimensão irreal ao acidente ofídico, muitas vezes interferindo de forma negativa no convívio entre as pessoas e os animais (na ilustração, uma urutu).
Existem algumas maneiras de prevenir os acidentes, cuidados simples como o uso de luvas, botas de cano alto e perneiras, que diminuem grandemente a probabilidade de que um encontro entre um indivíduo e a serpente possa se transformar em problema sério. Além disso, tomar muito cuidado ao entrar em lugares escuros, manipular lixo e entulho ou colocar a mão em buracos. Cercanias de casas, celeiros, currais, canis e outros devem estar sempre limpos e capinados, o lixo acondicionado em recipientes fechados para não atrair animais como pequenos roedores, que fazem parte da dieta de serpentes. Mas quando todos esses cuidados preventivos falham e os acidentes acontecem, algumas providências importantes devem ser tomadas para que os prejuízos e complicações sejam os menores possíveis.
No Brasil são registrados mais de 20.000 acidentes ofídicos por ano, e a maioria deles acontece nos meses quentes e chuvosos. Existem quatro grupos de serpentes peçonhentas, sendo o mais comum composto por diversas espécies do gênero Bothrops, conhecidas popularmente como jararaca (ilustração), jararacuçu, urutu-cruzeiro, caiçara e jararaca-do-norte, entre outras. O acidente botrópico causa, geralmente, alterações locais como dor, edema (inchaço) e equimoses (manchas roxas). Nem sempre as marcas deixadas pelas presas na pele são evidentes, porém, mais tardiamente, podem surgir bolhas e ocorrer até mesmo a morte dos tecidos acometidos (necrose). Outra complicação acontece quando bactérias que vivem na boca da cobra causam infecção na pele do paciente, mas além dessas alterações locais, o sangue pode ser tornar incoagulável, predispondo a hemorragias (sangramentos) capazes de por em risco a vida do acidentado.
Em segundo lugar vem a cascavel, gênero Crotalus (ilustração). O acidente crotálico pode provocar fraqueza, turvação da vista, queda das pálpebras e paralisia de músculos da face. O indivíduo também pode se queixar de dores musculares e apresentar urina escura, o que eventualmente contribui para que haja comprometimento dos rins. Habitualmente não há alterações importantes no local da picada, apenas inchaço e formigamento discretos. Em alguns casos, não é possível identificar o ferimento das presas. O acidente causado pela surucucu ou surucucu-pico-de-jaca (gênero Lachesis) ocorre somente na Amazônia e na Mata Atlântica. Assim como no acidente botrópico, há sintomas no local da picada, como dor, edema, equimose e podem surgir bolhas, infecção e necrose. Além das hemorragias, pode haver também sudorese, náuseas e vômitos, cólicas abdominais, diarréia, diminuição da freqüência dos batimentos cardíacos (bradicardia) e queda da pressão arterial (hipotensão).
Menos freqüentes são acidentes por coral (ilustração), do gênero Micrurus. O veneno é tóxico para os nervos e músculos, provocando turvação visual, queda das pálpebras e paralisia muscular que pode comprometer a respiração do paciente. Não há manifestações locais importantes.
Após um acidente ofídico pouca coisa deve ser feita até a vítima chegar ao hospital. Esta deve ser tranqüilizada e removida para o local de atendimento médico mais próximo, mas nesse intervalo o local da picada pode ser lavado com água e sabão. Na medida do possível, deve-se evitar que a pessoa ofendida ande ou corra, deixando-a deitada e com o membro atingido em posição mais alta. Se possível, levar a serpente para identificação.
Não fazer uso de torniquetes (garrotes), incisões e passar substâncias (folhas, pó de café, couro da cobra, outras) no local da picada, já que essas medidas interferem negativamente, aumentando a chance de complicações como infecções, necrose e até mesmo amputação de um membro. O único tratamento eficaz para o envenenamento por serpente é o soro antiofídico específico para cada tipo (gênero), e quanto mais rapidamente for feita a soroterapia, menor será a chance de haver complicações. É difícil estabelecer um tempo limite para a aplicação do soro.
A escolha do soro adequado e quantidade da aplicação dependem do diagnóstico que deve ser feito para cada tipo de acidente. Antes da sua administração é preciso avaliar se existem manifestações clínicas indicadoras de que o indivíduo foi picado por uma serpente peçonhenta, uma vez que existem na natureza muito mais serpentes não-peçonhentas, para as quais não há necessidade de tratamento específico. Deste modo, a soroterapia deve ser indicada por um médico, e a aplicação feita de acordo com a gravidade do envenenamento. Sua administração é por via intravenosa e não deve ser feita fora do ambiente hospitalar, uma vez que existe a possibilidade dela provocar reações alérgicas de maior gravidade que requeiram tratamento imediato.
Fonte: Instituto Butantan - Av. Vital Brasil, 1500 - Butantã - CEP - 05503-900 - São Paulo – SP - Fone: (0xx11) 3726-7962, 3726-7222 r.2002 ou 2000 - Fax: (0xx11) 3726-1505 - Email: [email protected]