As narrativas e os costumes tradicionais, as crenças, as superstições, os cantos, festas, indumentárias, lendas, artes e costumes que os naturais de cada país, estado, cidade ou região vão transferindo oralmente de uma geração para outra, são consideradas como folclore, ou tradição popular, simplesmente. O Brasil possui um grande acervo desses pequenos relatos que o tempo encarregou-se de transformar em lendas. Eles não têm idade, pois ninguém sabe precisar com exatidão histórica a data em que supostamente aconteceram, nem tampouco comprovação fidedigna, porque nenhum documento, qualquer outro tipo de registro ou testemunha avalizam a veracidade do que é contado por gente de todo tipo e tamanho como coisa real e acima de qualquer suspeita.
Assim como qualquer outra cidade brasileira, Diamantino também tem as suas histórias. O que é natural, pois já lá se vão quase trezentos anos desde que em 18 de setembro de 1728 o bandeirante Gabriel Antunes Maciel descobriu ouro em um ribeirão distante duzentos quilômetros acima de Cuiabá, e ali fundou o arraial que em 23 de outubro de 1820 foi elevado à vila com a denominação de Vila Real de Nossa Senhora da Conceição do Alto Paraguai Diamantino. Durante esse período, muitos e muitos homens correram para lá em busca de riqueza, até que as minas se esgotaram. Mais tarde, em 18 de julho de 1918, essa povoação foi elevada à categoria de cidade com o nome de Diamantino, e dela, o site www.diamantino.mt.gov.br diz que:
“O município de Diamantino se localiza em região privilegiada: exatamente num dos pontos de divisão das águas das Bacias Amazônica e Platina, e o acidente geográfico responsável por essa façanha é a Chapada dos Parecis, um planalto com altitudes em torno dos 500 metros. Como a cidade de Diamantino se situa nos contrafortes da margem sul dessa chapada, dentro dos limites urbanos nota-se as diferentes direções que os córregos que cortam a cidade tomam: aqueles próximos ao bairro Novo Diamantino dirigem-se para o norte, ao encontro do Amazonas; enquanto que aqueles que passam próximo ao centro da cidade buscam o rio Paraguai, correndo em direção ao sul. Por falar em rio Paraguai, à cerca de 30 km da cidade se localizam as suas nascentes, na região conhecida como Sete Lagoas; daí corre para o sul, juntando às suas as águas de inúmeros córregos e rios, tornando-se vigoroso, majestoso e tomando para si a responsabilidade pela formação e existência de uma das maravilhas naturais do planeta: o Pantanal Mato-Grossense”.
De Diamantino já se disse que “de qualquer ângulo em que é vista, se assemelha a um cartão postal. Tão bucólica e pitoresca, ela ponteia no alto da Serra de Diamantino, debruçando-se sobre um extenso vale muito verde, cortado pelo rio Paraguai. Do alto vê-se emergir, aqui e ali, maloca de índios, mas que não são índios, mas sim da pobreza que se aloja em ranchos de capim (...). À entrada da cidade, uma curiosa capelinha, onde há sempre flores votivas, chama a atenção dos visitantes. Ora é uma coroa de flores, ora um buquê de noiva, ou mesmo flores do campo a enfeitam. E o povo vai logo desfiando a história”.
Que é simples e singela como, aliás, costumam ser todas as histórias do interior. Diz a lenda que em certo tempo, não se sabe bem quando, existia na cidade uma jovem de nome Maria Antônia, moça prendada e de boa família. O povo a tinha em muito boa conta, não sendo arriscado afirmar-se que vários pretendentes provavelmente alimentavam o desejo de tomá-la como esposa. Mas apesar dessa sua condição de vida aparentemente tranqüila, feliz e afastada de contratempos e dissabores, certo dia Maria Antônia começou a beber.
As razões que a levaram ao alcoolismo ainda hoje permanecem desconhecidas, mas seus contemporâneos supuseram que ela havia procurado no álcool o auxílio de que precisava para afastar de si a mágoa, o desgosto ou inconformismo por algo que lhe acontecera. Mas o que teria sido? O que de fato lhe sucedera? Mistério absoluto! E o povo, então, passou a assistir penalizado ao triste espetáculo que a moça bonita e de bom nome proporcionava a todos que a viam, às vezes caindo e permanecendo deitada em plena rua, de tão tonta que ficava, ou na maioria das vezes suplicando insistente que alguém lhe pagasse um gole de cachaça nos botecos e biroscas por onde passava, pois não dispunha de dinheiro para sustentar o terrível vício que a dominara completamente.
Dizem que em certo dia a moça saiu caminhando sem rumo pelas ruas da cidade, andando desequilibrada em direção a qualquer lugar, oscilando para um lado e outro como se fosse um pêndulo de relógio. Não demorou muito e ela deixou para trás o perímetro urbano e embrenhou-se na mata que circundava a localidade, afastando-se mais e mais da área habitada até desaparecer em meio à densa vegetação. A essa altura o dia chegava ao final e a escuridão pouco a pouco tomava conta de todos os recantos e direções para onde o olhar aflito de Maria Antônia se voltava. Seu cérebro embotado pelo álcool ainda não conseguia entender claramente o que estava acontecendo, mas o seu coração mostrava-se cada vez mais apavorado com o negrume em que aquele trecho de floresta mergulhava rapidamente, sem lhe dar qualquer indicação do que fazer para escapar do lugar onde estava e colocar-se a salvo dos perigos escondidos entre os galhos, ramos e folhas da mata virgem.
Foi nesse momento que ela, num lampejo de lucidez, lembrou-se dos ensinamentos religiosos que recebera durante a infância e juventude, e então, pondo-se de joelhos, pediu fervorosamente que Nossa Senhora a ajudasse a voltar para casa, prometendo-lhe que se assim acontecesse, jamais tornaria a beber. Mal terminara a reza e uma forte intuição tomou conta da moça, fazendo-a erguer-se e caminhar resoluta em determinada direção, mesmo sem ver onde pisava, até encontrar no mato, pouco adiante, uma trilha que a levou diretamente à cidade.
Daí em diante, e até o dia de sua morte, Maria Antônia nunca mais ingeriu qualquer tipo de bebida alcoólica, e segundo dizem, parece que a moça ”redimiu-se de tal forma dos pecados cometidos que a sua alma criou poderes para conceder milagres”. Alguém, certa feita, recorreu a ela, e em agradecimento ao favor recebido mandou erguer a capelinha onde até hoje os que solicitam sua ajuda para o recebimento de alguma graça, depositam flores em testemunho da gratidão por terem sido ouvidos e atendidos em seus anseios (a ilustração consta no site oficial da prefeitura de Diamantino com o nome de Capela de Maria Antonio).