LENDA DO FOGO MORTO, A - Rio Grande do Sul

A cultura dos homens se manifesta através dos conhecimentos técnicos, científicos, literários, práticos ou profissionais, que cada um adquire ao longo da vida. Nos tempos antigos isso era difícil de acontecer, razão pela qual o desconhecimento sobre o porque da ocorrência de fenômenos naturais como o ribombar de um trovão, por exemplo, os tornava inexplicáveis para os pobres de instrução, originando-se daí o surgimento dos mistérios, das crendices, das superstições e das lendas que o homem carregou consigo durante gerações. Hoje, muitas dessas falsas verdades estão perdendo, ou já perderam expressão e sentido, em razão do progresso que modificou e continuará modificando a visão do mundo sobre tudo que o cerca.

 

A lenda do fogo-morto é uma dessas histórias. Antigamente, quando os veículos motorizados ainda não haviam tomado conta do país, o carreteiro, ou carreiro, era quem transportava produtos, mantimentos, mudanças e até mesmo pessoas, valendo-se, para isso, de sua carreta puxada a bois. Dependendo da distância, as viagens podiam ser demoradas e, portanto, interrompidas nas horas de refeição, quando se preparava a comida, geralmente arroz com charque, em fogo aceso à beira do caminho. Uma vez satisfeito o apetite, a jornada prosseguia normalmente, deixando para trás as cinzas da madeira queimada no ponto de parada. E é a partir daí que surge a lenda.

 

O escritor, poeta, jornalista e historiador gaúcho João Palma da Silva (1913-1978), natural de Santa Maria e fundador do Rancho Crioulo Centro Canoense de Tradições, conta em um de seus textos publicado no Diário de Notícias, de Porto Alegre, em 19/02/1956, que:

 

A lenda do fogo-morto, outrora muito popular em todo o Rio Grande, já foi divulgada por Roque Calage, Fernando Osório e outros. O gaúcho dá o nome de fogo-morto a qualquer resto de fogo, aceso ou apagado, antigo ou recente, deixado no chão num pouso de estrada ou noutro lugar onde alguém fez sesta ou pousada. E é de fato sabido que, mesmo nos dias atuais, o carreteiro, em chegando a um pouso, para cozer seu arroz com charque e esquentar a água para o chimarrão, nunca faz fogo sobre restos de fogão alheio. Hoje, na maioria dos casos, não o faz por ignota superstição. Inquirido acerca de tal proceder, responderá apenas: "Não presta... traz azar..."

 

Pois essa superstição teve origem na velha lenda do fogo-morto. Era uma vez, num tempo muito remoto, um rico carreteiro com mais de oitenta juntas de bois mansos, afora léguas e léguas de sesmarias e mais haveres. Foi de uma feita em que ele viajava por outros e distantes pagos, cortando coxilhas e coxilhas que... numa tarde...

 

Naquela hora o sol recém-posto ensangüentava as nuvens paradas no imenso arco do poente. No amplo silêncio do campo, e na fina transparência do ar perfumado de mansenilha e trevo, parecia pairar o mistério imponderável da natureza. É o segredo do Criador.


Com seu Oôô... Oôô... Oôô... o carreteiro afastou a carreira da estrada, aproximando-a de secular e majestoso umbu, sob o qual iria pernoitar. O pouso era bom. Desajoujados os bois, soltou-os ao pasto e foi logo arranjar um fogo. Vinha seco pelo sabor de um mate; e o piá que o acompanhava devia de estar faminto depois de tão larga jornada. E... ou fosse devido à pressa ou por preguiça de preparar lenha, o homem bateu os tições dum fogão recente que encontrou no local, e ateou fogo. Foi o início da desgraça.

 

Logo uma coruja piou na restinga e um dorminhoco, num vôo rasante, cruzou perto com seu grito que lembra o ruído de um pano que se rasga em sucessivos e rápidos tirões... Inexplicável e instantaneamente terríveis e violentas labaredas, erguendo-se daquela meia dúzia de paus, atingiram a carreta ao lado, queimando-a de modo irremediável com a rica carga de mercadorias que transportava. Inúteis foram os esforços do carreteiro e seu peão. De olhos esbugalhados de assombro e terror, em corridas furiosas, tudo fizeram por aplacar a voragem das chamas com a água da sanga, que quase secou...

 

Aquietada, enfim, a pulsação anímica do estranho fato, repontando os bois, lá foi o carreteiro rumo da estância levando no cérebro a semente da demência e, à própria sombra, o espectro de maiores desgraças: Pouco depois a mulher o abandonou; o gado pesteou de carrapato e morreu; vendido o campo, roubaram-lhe o dinheiro. Ao cabo, na casa já quase tapera, morreu o desgraçado, por entre delírios, com pavorosas visões de chamas a queimar-lhe a roupa, a lamber-lhe a carne...E tudo aconteceu por haver se servido do alheio... por causa de fogo-morto...

 

Roque Calape, outro grande nome da literatura sulina, conta essa mesma história, que finaliza da seguinte forma:

 

- As labaredas cresceram em línguas de fogo: as línguas de fogo começaram a lamber a carreta; a carreta ardia em chamas; as chamas subiam cada vez mais, devorando tudo. O peãozinho e o carreteiro corriam que nem veado, para o arroio, trazendo água e atirando no fogo. Mas este crescia mais violento ainda, sem que toda a água do arroio desse para apagá-lo. Só quando o arroio secou foi que o fogo também se extinguiu, depois de ter reduzido sua presa a um grande monte de cinzas. O rico carreteiro saiu como louco campo à fora. A desgraça, porém, não parou nisso: desde esse dia malfadado, os bois começaram a pestear e a morrer; o dinheiro desapareceu da casa, roubado; a mulher sumiu-se sem que até hoje se saiba novas de seu paradeiro. E o homem, que fora rico, muito rico, morreu pobre, muito pobre, perseguido à hora da agonia por apavorantes visões transformadas em línguas de fogo, lambendo-lhe o corpo todo. Dizem os antigos que depois desse dia, todos os carreteiros que tiveram notícia do triste fato acontecido, nunca mais fizeram fogo no lugar que foi fogão de outro..."

 

Atualmente se dá o nome de carreteiro ao motorista de moderna carreta puxada por cavalo mecânico, ou seja, um caminhão potente com carroceria engatada e articulada. Dessas carretas se podem ver muitas rodando pelas estradas.