VAGA-LUMES

Os vaga-lumes, ou pirilampos, são besouros noturnos que possuem órgãos especiais produtores de luz. Porém, nem todas as espécies possuem luminescência. Só algumas delas, ao longo da evolução, incorporaram a bioluminescência porque ela facilita a comunicação sexual e a defesa. Os vaga-lumes que não emitem luz em geral desenvolvem atividades diurnas.

 

Eles são encontrados em maior abundância nas regiões tropicais, onde é mais intensa a sua fosforescência, tanto que os índios sul-americanos costumavam utilizá-los para iluminar seu caminho à noite, enquanto as mulheres se serviam deles como ornamento para suas vestes e cabelos. A luz emitida pelos vaga-lumes e outros insetos com a mesma propriedade, é resultado de uma reação química que acontece no interior de células especializadas (fotocitos), onde o oxigênio faz com que uma enzima (luciferina) reaja diante de outra enzima (luciferase), provocando a combustão parcial. A cor dessa emissão luminosa pode variar do verde ao amarelo, da mesma forma com a freqüência e a intensidade dos lampejos são características de cada espécie desses insetos. Esse processo, chamado de oxidação biológica, ou luz fria, permite que a energia química seja convertida em energia luminosa sem a produção de calor.

 

O piscar de luzes dos vaga-lumes é o recurso de que eles se valem para encontrar seus parceiros, mas isso é feito em ritmo diferente por cada uma das variedades. Alguns machos chegam a ponto de piscar luzes de cores distintas quando estão voando ou no chão (laranja e verde, respectivamente), enquanto outros acendem seus sinais durante o vôo que fazem em busca de uma companheira, aguardando resposta da possível interessada que permanece no chão e a uma distância máxima de três a quatro metros. Existem ainda os que apreciam devorar seus companheiros, e que para conseguir a refeição desejada emitem sinais sexuais falsos com a intenção de atrair algum vaga-lume para o programa anunciado em forma de armadilha.

 

No afã de conseguir uma companheira os vaga-lumes fazem exibições espetaculares de luz em pleno ar, acendendo e apagando os pontos iluminados do seu corpo. E como existem tipos diferentes desse inseto ocupando uma mesma área, todos eles emitindo seus códigos luminosos, há necessidade de que eles sejam diferentes para que cada um possa reconhecer o que lhe interessa. Daí cada espécie ter seu próprio padrão ou seqüência, o que permite ao macho ir direto em busca da fêmea certa. Os sinais do macho são emitidos pelo abdômen enquanto ele voa a uma altura de meio-metro, e respondidos pela fêmea no momento em que os dois estão relativamente próximos. A partir daí se inicia uma troca de sinais luminosos ritmados, até que os dois se aproximam o suficiente para permitir o acasalamento.

 

No Brasil o espetáculo da bioluminescência é oferecido pelos chamados cupinzeiros luminosos, encontrados na região amazônica e principalmente no cerrado de Goiás. Nessas áreas, onde é maior a concentração de vaga-lumes, esse fenômeno pode ser observado com maior intensidade no período que vai de outubro a abril, quando as noites são quentes e úmidas: nessa época a paisagem fica enfeitada com chamativos pontos luminosos, tal como se fossem uma série de árvores de natal. Antigamente, era possível observar no cerrado de Goiás enormes campos cobertos com esses cupinzeiros, mas o crescimento da cultura da soja nessa região, com a continuada ocupação de novos espaços para plantio do cereal, fez com que eles praticamente desaparecessem.

 

Enquanto o nome pirilampo vem do grego, a palavra vaga-lume surgiu no meio popular, e foi criada, provavelmente, para lembrar tanto a origem da luminosidade produzida por esses insetos, quanto a sua própria condição de vagante. Por isso é interessante ressaltar que conforme a região, eles são também conhecidos pelos nomes de caga-lume, caga-fogo, cudelume, luzecu, luze-luze, lampíride, lampírio, lampiro, lumeeira, lumeeiro, mosca-de-fogo, noctiluz, pirífora, salta-martim e uauá. Desses sinônimos, vários são brasileiros, mas alguns têm origem lusitana.

 

Para explicar a existência do vaga-lume, o escritor Coelho Neto (1864-1834) imaginou a linda história abaixo transcrita:

 

"No princípio, tudo era sombra e silêncio, e Deus, na altura, lapidava os astros, que são os diamantes do céu; lapidava-os e a poeira luminosa que deles se esparzia ficava espalhada, formando a Via Láctea e as outras nebulosas. Logo que um astro fulgurava, Deus, deixando-o engastado, tomava um pouco de treva e punha-se a bruni-la, e assim conseguiu fazer todas as estrelas que brilham, o sol que é um topázio enorme e a lua que é uma opala triste. Lapidando os astros não podia o Senhor pensar que parte da poeira micante viesse à Terra, mas tendo de criar os animais e o homem, desceu ao mundo deserto, e caminhando devagar, pela sombra, viu, de repente, fulgir entre as árvores virgens uma chama fugaz. Deteve o andar, e pensativo, ficou acompanhando a viagem aérea e volteante da fagulha de origem desconhecida. Vendo-a ir e vir e vendo que outras surgiam, o bom Deus, não querendo que o demônio astuto pusesse malefício em sua obra e julgando as chamas erradias criações do Mau Anjo, - porque não se lembrava de as haver criado – tomou, no espaço, uma das que passavam, e, com seu alto poder, fez com que a centelha falasse, e, entre seus dedos, a centelha falou:

 

- Senhor, deixai-me livre. Não me julgueis provinda de origem má. Chama, não fui gerada nos braseiros infernais, venho das claras estrelas que fulguram no céu. Quando das lapidáveis delas saía uma luminosa poeira que se espalhou nos espaços formando estradas largas; sucedeu, porém, que alguns grãos pequeninos dessa poeira rutilante vieram cair à Terra, e, porque nelas havia tocado vossa mão, logo se animaram, e à noite, à hora em que as estrelas brilham no céu, a poeira das estrelas vive e brilha na terra! Bem vedes que de Vós venho. Deixai-me ir, Senhor! Deixai-me ir por entre as árvores que cheiram, e por cima das águas brancas que murmuram.

 

E o Senhor, enternecido, abriu os dedos deixando partir o vaga-lume. E aí tendes porque não é fixa, como a das estrelas, a luz do vaga-lume – é que ela esteve, algum tempo, abafada entre os dedos, e até hoje o inseto guarda essa instantânea impressão".