A cidade paulista de São Vicente foi fundada por Martim de Afonso de Souza em 22 de janeiro de 1532. O povoado primitivo nela instalado vinha crescendo aos poucos, espalhando-se em torno de uma pequena igreja denominada Nossa Senhora de Assunção, quando um maremoto, segundo alguns historiadores, ou uma ressaca mais forte, segundo outros, o destruiu por volta do ano de 1542. Um dos registros que tratam dessa calamidade diz que “o primitivo sítio de São Vicente teria sido no fim da praia de Tararé, hoje Gonzaguinha, junto ao mar, alguma coisa distante do porto de Tumiarú”. E mais adiante: “no ano de 1542, já não existia a casa do Conselho e a povoação se tinha mudado para o lugar onde hoje existe”. Isso em conseqüência da primeira povoação ter sido destruída pela ação do mar. De tal fato nasceram duas lendas que, sobrevivendo aos tempos, ainda são contadas pelos que teimosamente se mantém à distância do descaso e ceticismo com que essas lembranças são encaradas nos dias de hoje.
Uma delas fala do amor não correspondido de uma índia – Itaíra – tão bonita e graciosa no esplendor de sua juventude que sua presença encantava a todos que tinham oportunidade de vê-la. Infelizmente, a moça havia se apaixonado por Otávio, rapaz ainda novo, filho de um escudeiro de Martim Afonso, e que havia chegado ao povoado não fazia muito tempo. Com o passar dos dias ele se afeiçoou fraternalmente à jovem índia, filha de criação de seu pai, e como apreciava sua companhia, divertia-se alegremente com ela nas festas que aconteciam no lugar. Mas não a amava, e por isso jamais lhe passara pela cabeça a idéia de que algum dia os dois pudessem se tornar marido e mulher.
E foi dessa forma que as semanas se passaram, até que um dia o pequeno povoado amanheceu em festa, comemorando o casamento de Otávio com a filha de um português que morava na aldeia próxima. Durante a comemoração, todos bebiam, dançavam e cantavam, divertindo-se a valer enquanto também se fartavam à vontade consumindo a carne de diversos animais silvestres, assada caprichosamente em braseiros improvisados. Contrastando com essa alegria generalizada, apenas Itaíra chorava desiludida em um canto da aldeia, deixando escapar nas lágrimas que não paravam de lhe escorrer pelo rosto, um pouco da enorme infelicidade que lhe oprimia o peito e quase lhe paralisava o coração. Desse dia em diante, ela nunca mais foi a mesma. Até que certa vez, ao banhar-se no mar com suas amigas, afastou-se tanto da praia que as águas a levaram para sempre.
Mas Netuno, o deus do mar, a encontrou no fundo do oceano, em seus domínios. E perguntando, curioso, o que havia acontecido, tomou conhecimento do drama vivido pela formosa criatura, e que selara o seu destino. Indignado, Netuno decidiu vingá-la, e foi assim que naquela madrugada, pouco antes do sol anunciar a chegada de um novo dia, o senhor das amplidões marinhas ordenou às águas que elas destruíssem a vila de São Vicente, no que foi prontamente atendido: um maremoto devastador ergueu-se sobre a povoação, avançou sobre ela, invadiu suas ruas, becos e vielas, destruiu suas casas e tudo mais que encontrava pela frente, levando de roldão a Casa do Conselho e a igreja com seus sinos de bronze abrigados no campanário. Logo depois, quando o sol finalmente ergueu-se no horizonte, tudo voltou a ficar em paz. Mas até hoje, nos finais de tarde, as ondas do mar costumam bater com força nos paredões de pedra erguidos para proteger a cidade reconstruída, e enquanto isso acontece, tem gente que garante ouvir ao longe o toque dos sinos submersos, como se eles ainda estivessem lamentando a triste sorte de Itaíra e da primeira vila de São Vicente.
A outra lenda conta que quando Martin Afonso partiu de São Vicente, deixou no povoado quatrocentos homens trabalhando no prosseguimento das obras de sua ampliação. E eles desempenharam bem a sua tarefa, tanto que o povoado cresceu o suficiente para atrair a atenção dos piratas ingleses e franceses que na época bordejavam o litoral brasileiro em busca de riquezas. E tanto cobiçaram que em certo dia alguns deles decidiram passar do desejo à ação.
Numa madrugada fria, em data desconhecida, eles chegaram a São Vicente. Embarcada em escaleres a tropa de assalto desses homens chegou silenciosamente em terra firme, e uma vez ali, aproveitando-se de que os moradores do povoado ainda dormiam o sono dos justos, iniciaram a pilhagem que desejavam, sem encontrar qualquer tipo de resistência. Recolheram o que acharam interessante e valioso, retirando do campanário da igreja os grandes e pesados sinos, que com grande esforço foram embarcados na nau que os aguardava. Logo em seguida, já com todos os homens novamente a bordo, os piratas procuraram pôr-se ao largo em rota de fuga, buscando escapar impunes da investida criminosa que haviam acabado de praticar.
Porém, o castigo pode até tardar, mas não costuma falhar. Segundo os historiadores, quando a meia-curva de entrada do canal de acesso obrigou os piratas a alteraram o curso da embarcação nas imediações do local posteriormente denominado Fortalezinha, na altura de Paranapuã, também conhecida atualmente como praia das Vacas, na saída da baía de São Vicente, lugar no qual os cronistas costumam dizer que “o mar se ajeita caprichosamente em concha”, a embarcação bateu em um banco de areia, adernou e logo depois afundou, levando consigo, para as profundezas do mar, os sinos da igrejinha e tudo mais que os tripulantes haviam surrupiado.
Segundo a lenda, a partir de então os moradores de São Vicente passaram a escutar o badalar dos sinos submersos, “afogados no rumor melancólico do mar”. Só não os escuta quem não tem ouvidos para isso.