Situada a 292 km de Belo Horizonte, e contando hoje com uma população estimada entre 45/50 mil habitantes, Diamantina, na borda da serra do Espinhaço, é um patrimônio cultural da humanidade: em 1938, o conjunto arquitetônico do seu centro histórico foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, e em 1999, reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial.
Sua história principia no início da segunda década do século 18, época em que os bandeirantes vasculhavam a região do Jequitinhonha em busca dos metais preciosos. Como bem diz o jornalista Marcelo JB Rezende, “Os desbravadores chegaram em busca de ouro, mas não demorou muito para que descobrissem que a vocação daquela terra era outra. Uma vocação que consumiu milhões de anos da natureza e presenteou o homem com uma verdadeira preciosidade”.
Um desses aventureiros era Jerônimo Gouvêa, que tinha como objetivo maior a exploração do vale do rio Jequitinhonha, onde, afinal, acabou encontrando o ouro que procurava. Com a divulgação do achado os garimpeiros começaram a chegar à região atraídos pela possibilidade de enriquecimento rápido, o que redundou, em 1713, no surgimento do Arraial do Tijuco. Poucos anos depois, entre 1719 e 1722, foram encontrados na região os primeiros diamantes, mas a Coroa portuguesa só tomou conhecimento dessa fabulosa descoberta quase dez anos depois. Em represália, impôs em 1730 severas medidas de controle, e em 1734 criou a Intendência dos Diamantes, que ao demarcar o Distrito Diamantino, com sede no Tijuco, mas subordinado à Comarca de Serro Frio, e implantar dentro dele um rígido, arbitrário e repressivo sistema de controle da extração, praticamente isolou a área do restante da capitania.
Em setembro de 1807, quando Manoel Ferreira Câmara Bitencourt e Sá, o Intendente Câmara (1764-1835), natural de Vila Nova da Rainha de Caeté, hoje Caeté, assumiu o cargo de Intendente Geral das Minas e dos Diamantes do Serro Frio, a produção de ouro e diamante em Diamantina já se encontrava em declínio. Ele era um homem “cheio de contradições e incoerências”, segundo descrição do historiador Joaquim Felício dos Santos, embora predominassem em si “as excelentes qualidades que lhe adornavam o espírito e o dirigiam para o bem. (...) Em certas circunstâncias mostrava-se homem déspota e arrogante, altivo, orgulhoso, enfatuado; em outras, urbano, amável e popular, descendo a nivelar-se com a classe ínfima, convivendo com ela, esquecendo-se de sua posição e da autoridade de que estava revestido. Algumas vezes, mas raramente, viam-no colérico ou vingativo, desumano, inexorável e sem compaixão”.
As ordens que recebera eram no sentido de que enrijecesse a fiscalização sobre os mineradores do distrito a fim de que os interesses de Portugal continuassem sendo atendidos. E foi o que fez. Um desses homens envolvidos com o trabalho de lavra nas minas era Isidoro, "um pardo alto, corpulento, valente e intrépido”, no entender do historiador Joaquim Felício. Os comentários que sobre ele se faziam classificavam-no como hábil e audacioso minerador, tão atrevido e temerário que desafiava abertamente o rígido sistema de cobrança imposto pela Coroa portuguesa, comercializando com todos que o procuravam o que conseguia extrair da terra em seu trabalho altamente proveitoso. Ninguém tinha idéia do volume de minério que ele já arrancara das minas, mas todos supunham que era muito, e que tudo estava guardado em algum lugar secreto.
Em junho de 1809, ao tomar conhecimento dessa história, o intendente Câmara ordenou a prisão imediata de Isidoro, recomendando a seus subordinados que promovessem uma minuciosa revista em tudo que tivesse qualquer relação com ele. Mas em vão. Não encontraram coisa alguma, e tampouco o ex-escravo, apesar de torturado, revelou algo de importante. Diante disso ele foi levado para o arraial e entregue ao intendente, que por sua vez orientou os seus comandados para que procurassem extrair do prisioneiro, e a qualquer custo, a revelação do local em que o seu suposto tesouro permanecia oculto. Durante três dias Isidoro apanhou dos homens que se revezavam nessa odiosa tarefa, mas acabou morrendo sem lhes confessar coisa alguma.
Até hoje se mantém viva em Diamantina a lenda de que Isidoro foi informado por alguém das intenções do intendente Câmara, e por isso, antes de ser preso, escondeu em algum lugar um tesouro em ouro e diamantes. Mas que lugar é esse?
Sobre esse mesmo episódio que se transformou em lenda, o falecido major Anatólio Alves de Assis, da Polícia Militar de Minas Gerais, revela em seu livro Milagre em Diamantina, editado pelo Instituto Cultural Amílcar Martins e pertencente à Coleção Mineiriana, que o sargento José de Oliveira Décimo, do 3º Batalhão da Polícia Militar de Minas Gerais, sediado em Diamantina, resolveu procurar a fortuna de Isidoro em uma furna existente na serra que passa pela cidade, e para tanto desceu por uma corda com mais dois amigos, até o fundo da gruta que se enfiava pela terra à dentro. Lá embaixo, ele pediu que a alma de Isidoro lhe aparecesse e dissesse onde estava guardado o tesouro que o seu corpo em vida havia ocultado.
Nesse momento, segundo a narrativa, as paredes da gruta começaram a tremer, ao mesmo tempo em que o barulho de correntes arrastadas pelo chão, de chicotes estalando no ar, além de lamentos e gemidos iguais aos emitidos por uma pessoa submetida a suplícios atrozes, soaram nitidamente no ar abafado do buraco onde os três homens se encontravam. Logo depois uma voz grave anunciou primeiramente que quem falava era o Isidoro, revelando depois que sua prisão e morte haviam ocorrido por delação de alguém próximo a ele, que sua mãe havia nascido em 1758, no dia em que o cometa Halley cruzou o céu do Brasil, o mesmo acontecendo com muitos dos seus descendentes em 1834 e 1910, anos em que o astro de cauda luminosa repetiu sua passagem sobre terras brasileiras. Sua última revelação foi a de que em 1986, quando o cometa voltaria a percorrer o mesmo roteiro, ele então revelaria o lugar exato em que o seu tesouro permanecia escondido de tudo e de todos.
Se isso realmente aconteceu, ninguém sabe dizer, razão pela qual a pergunta de quantos conhecem a lenda permanece sem resposta até agora; será que alguém, na data aprazada pela alma de Isidoro, conseguiu recuperar o ouro e os diamantes que o garimpeiro guardou caprichosamente sabe-se lá onde?