A letra de uma bela canção sobre o pássaro Uirapuru, autoria de Jaconina e Murilo Latini, diz o seguinte :
“Uirapuru, uirapuru,/ seresteiro cantador do meu sertão./ Uirapuru, uirapuru,/ ele canta as mágoas do meu coração. / A mata inteira fica muda ao teu cantar. / Tudo se cala para ouvir tua canção / que vai ao céu numa sentida melodia. / Vai a Deus em forma triste de oração./ Uirapuru, uirapuru... / Ele canta as mágoas do meu coração. / Se Deus ouvisse o que te sai do coração,/entenderia que é de dor tua canção / que daria para salvar o meu sertão”.
O uirapuru é um passarinho de canto magnífico que, segundo a lenda, traz sorte a quem o possui, proporcionando felicidade nos negócios e no amor. Seu porte é pequeno, o bico curto e alargado, a alimentação baseada em frutos e insetos, e seu habitat as matas da Amazônia no Brasil, Venezuela e Guianas, embora existam variedades encontradas na região que se estende ao Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia. As lendas sobre o uirapuru são muitas, e a que fala sobre sua criação diz o seguinte:
Um jovem guerreiro estava apaixonado pela filha do cacique de sua tribo, homem poderoso e violento, mas não alimentava a menor esperança de um dia poder tomá-la como esposa. Por isso contentava-se em admirar de longe a figura da sua amada. Essa situação foi se prolongando, o jovem índio ficando cada vez mais desesperançado em conseguir atender os anseios de seu coração, até que um dia, não suportando mais a dor causada pela paixão sem cura, ele pediu a Tupã que o transformasse em passarinho.
Penalizado com a situação do rapaz, o deus indígena concordou em atendê-lo, fazendo com que assumisse a forma de um pequeno pássaro de plumagem colorida, cabeça vermelha, fronte e garganta amareladas, peito e ventre vermelhos, e as coxas brancas, que à noite cantava enternecido para a sua amada, pousado na árvore mais próxima à sua cabana. Porém, quem percebeu o canto maravilhoso não foi a jovem índia, mas sim o seu pai, que ficou tão fascinado com o passarinho que passou a perseguí-lo pela floresta, pretendendo prendê-lo. E nessa ânsia afastou-se tanto da aldeia que acabou perdido no mato e nunca mais conseguiu retornar. Naquela mesma noite o uirapuru voltou a cantar para a sua amada, na esperança de que ela finalmente o ouça e o receba, quebrando assim o encanto.
O escritor e poeta maranhense Humberto de Campos dedica ao canto desta ave o seguinte soneto:
"Dizem que o Uirapurú, quando desata
A voz, Orfeu do seringal tranqüilo
O passaredo, rápido, a segui-lo
Em derredor agrupa-se na mata.
Quando o canto, veloz, muda em cascata
Tudo se queda, comovido a ouvi-lo:
O mais nobre sabiá surta a sonata
O canário menor cessa o pipilo.
Eu próprio sei quanto esse canto é suave
O que, porém, me faz cismar bem fundo
Não é, por si, o alto poder dessa ave.
O que mais no fenômeno me espanta
É ainda existir um pássaro no mundo
Que fique a escutar quando outro canta!"