Os índios Macuxi ocupam uma área de 1.678 mil hectares no norte da Amazônia e do estado de Roraima, bem junto à fronteira com a Guiana. Estão distribuídos em várias comunidades há muito familiarizadas com os brancos, dedicam-se à agricultura e à criação de gado, mas ainda mantém vivos e íntegros os costumes, tradições e lendas herdadas de seus antepassados, entre estas últimas a de que um índio da tribo, rapaz forte e inteligente, apaixonou-se pela índia mais bela da aldeia. Os dois se casaram logo depois de iniciado o namoro, e viviam muito felizes até o dia em que a índia adoeceu gravemente e ficou paralítica.
O índio macuxi, para não se separar de sua amada, teceu uma espécie de tipóia e amarrou a índia às suas costas, levando-a consigo para todos os lugares onde andava. E assim os dias e as noites foram se sucedendo, até o momento em que o índio sentiu que sua carga estava bem mais pesada do que o normal. Curioso, ele foi verificar o que acontecia, e qual não foi sua surpresa quando constatou, ao desamarrar a tipóia, que a sua querida estava morta. Transtornado pela dor, ele a levantou nos ombros e se embrenhou na mata, caminhando sem rumo até chegar a um ponto raramente alcançado por qualquer outro homem. Então o macuxi descansou o corpo da mulher ao lado de uma árvore frondosa, à beira de um igarapé, armou uma cobertura com folhas e cipó, em seguida foi cavando o chão com sua faca e colocando a terra retirada por cima da cobertura. Quando terminou, levantou o cadáver do seu amor, abraçou-o ternamente, entrou com ele na sepultura que havia feito e soltou os cipós que sustentavam a cobertura, sendo enterrado pela avalanche que desabou sobre ele.
Diz a lenda que os parentes do casal iniciaram sua busca assim que tomaram conhecimento do sumiço, e tanto insistiram que um dia encontraram a faca do índio, mas sem qualquer outro sinal da presença de qualquer um dos dois desaparecidos. Então eles pensaram que o rapaz e sua mulher haviam sido atacados por alguma fera, e por isso marcaram o lugar com pedras, lembrando aos deuses que naquele lugar dois espíritos errantes mereciam a proteção sobrenatural. Anos depois, ao retornarem àquele mesmo lugar, os que não haviam se esquecido da triste passagem encontraram ali uma planta jamais vista por eles: tratava-se de um exemplar de ramos vigorosos, cujas folhas maiores, de formato triangular e cor verde escuro, traziam uma folha menor estampada nitidamente em sua face superior, cujo desenho lembrava o órgão genital feminino.
Foi assim que nasceu o Tamba-tajá. A lenda assevera que essas folhas sobrepostas representam o índio e sua amada, e certamente em razão disso a população amazônica ribeirinha acredita que a planta age como um amuleto do amor, o que por si só explica o fato de que em muitas casas ela é usada como adorno e colocada atrás da porta, para que os moradores tenham sorte em sua vida amorosa. Em virtude dessa crença o caboclo da Amazônia costuma cultivar esta curiosa planta, atribuindo-lhe poderes místicos. Um deles, por exemplo, é que se em determinada casa a planta crescer viçosa e com folhas exuberantes, trazendo no seu verso a folha menor, é sinal que ali existe muito amor; mas se nas folhas grandes não existirem as pequeninas, então o amor não está presente naquele lar. Por outro lado, se porventura a planta apresentar mais de uma folhinha em seu verso, é sinal de que então existe infidelidade entre o casal. Pelo sim, pelo não, vale a pena cultivar em casa um pezinho de tamba-tajá.
A cantora Fafá de Belém gravou a música Tamba-tajá, de Waldemar Henrique, cuja letra diz o seguinte:
Tamba-tajá me faz feliz
Que meu amor me queira bem
Que seu amor seja só meu de mais ninguém,
Que seja meu, todinho meu, de mais ninguém...
Tamba tajá me faz feliz...
Assim o índio carregou sua macuxi
Para o roçado, para a guerra, para a morte,
Assim carregue o nosso amor a boa sorte...
Tamba-tajá
Tamba-tajá
Tamba-tajá me faz feliz
Que meu amor me queira bem
Que seu amor seja só meu de mais ninguém,
Que seja meu, todinho meu, de mais ninguém...
Tamba-tajá me faz feliz...
Que mais ninguém possa beijar o que beijei,
Que mais ninguém escute aquilo que escutei,
Nem possa olhar dentro dos olhos que olhei.
Tamba-tajá
Tamba-tajá