As taturanas são insetos ainda na fase larval, pertencentes à ordem dos Lepidópteros (borboletas e mariposas). Muitas famílias formam esta ordem e poucas causam problemas ao homem, mas nos últimos dez anos foram registrados vários casos de acidentes provocados por elas, inclusive com óbitos atribuídos a lagarta Lonomia obliqua (ilustração), também chamada taturana assassina, cujos espinhos venenosos contêm uma toxina que causa hemorragias internas e externas, com possíveis complicações fatais.
Todos os lepidópteros têm o mesmo tipo de desenvolvimento, variando apenas os períodos, conforme a espécie. Devido à sua importância, usaremos como exemplo a já citada Lonomia obliqua. O ciclo biológico desta taturana - mais conhecida no sul do Brasil pelos nomes de Ruga, Oruga, ou Lagarta-taturana - tem início no acasalamento de mariposas desse grupo, que vivem em média 15 dias e não se alimentam, pois seu aparelho bucal é atrofiado. Após a cópula, a fêmea faz a postura nas folhas e galhos de árvores frutíferas comestíveis, como abacateiro, ameixeira, pessegueiro, comuns em pomares, ou mesmo em árvores nativas dentro das matas. Após 25 dias em média, as larvas saem dos ovos, passando a se alimentar, durante a noite, das folhas da planta hospedeira. Neste período larval de aproximadamente dois meses, as taturanas trocam de pele várias vezes (ecdise), aumentando de tamanho e podendo atingir até 8 centímetros de comprimento. Vivem em grupos (gregarismo) podendo ser vistas repousando nos troncos das árvores durante o dia. Após a última muda elas se transformam em pupas, alojando-se na base das árvores ou sob o húmus, onde a umidade é alta. Este período, que dura cerca de 25 dias, em média, é uma fase importante no desenvolvimento do lepidóptero devido às mudanças morfológicas e fisiológicas que ocorrem. Após o período pupal, emergem então os adultos, que reiniciam o ciclo biológico.
As taturanas, de forma geral, apresentam uma coloração variada que fascina pela sua beleza, atraindo com muita facilidade principalmente as crianças. Ao tocá-las, cerdas contidas no corpo do inseto perfuram a pele humana desencadeando acidentes dermatológicos. Nas taturanas urticantes, as cerdas são estruturas de ponta aguda e resistente, contendo glândulas produtoras de veneno. Existem diferenças morfológicas que variam conforme a família. Nos Megalopigídios, cuja característica principal é a presença de longas cerdas, frágeis, sedosas e inofensivas, semelhantes a pêlos que camuflam os verdadeiros espinhos venenosos, a base da cerda apresenta uma única glândula inserida no tegumento da lagarta, que quando pressionada por ocasião do contato libera o veneno que percorre um canal, sendo injetado na pele humana. Nos Saturnídeos, a cerda é constituída por um eixo central com ramificações laterais, com glândulas de veneno no ápice. Estas cerdas, cujo nome científico é Scoli, são facilmente identificáveis devido à semelhança com pequenos pinheiros. Geralmente, a gravidade do acidente é diretamente proporcional ao número de cerdas envolvidas.
Embora algumas outras espécies de taturanas possam causar queimaduras, são os representantes dos Megalopigídeos e Saturnídeos, sem dúvida, os responsáveis pelo maior número de acidentes no Brasil. Algumas espécies de Hylesia sp, uma outra família de mariposas, causam acidentes tanto na fase larval como na fase adulta, mas constituem uma exceção. Mariposas fêmeas deste gênero possuem cerdas microscópicas no abdome, que causam dermatite em contato com a pele humana, acidente este que recebe o nome de Lepidopterismo.
O maior número de acidentes por lepidópteros é do tipo Erucismo, ou seja, causado pela taturana. Normalmente ocorrem da seguinte forma: manuseando a vegetação, a pessoa toca a lagarta com as mãos ou a espreme com os dedos. Após a introdução das cerdas, o veneno é injetado. A dor é imediata e violenta, com sensação de queimação, podendo irradiar-se para outras partes do corpo. O local fica vermelho e inchado podendo ocorrer ínguas. Acidentes com lonomias apresentam, além dos sintomas citados, hemorragias em qualquer parte do corpo. São comuns: o sangramento pelas gengivas, hematomas e urina escura, sintoma este que caracteriza problemas renais. Hemorragias intracranianas também foram observadas, resultando em óbito.
Nos acidentes causados por taruranas, recomenda-se aplicação de compressa de água fria no local do contato. Caso a dor seja insuportável, há necessidade da aplicação de anestésico injetável local, medida que deve ser realizada por profissional da área médica. Havendo sangramento, o acidentado deverá procurar auxílio médico para aplicação de soro específico. Devido ao grande número de acidentes hemorrágicos, a partir de 1989 o Instituto Butantan desenvolveu o soro Antilonômico que tem a propriedade de reverter o distúrbio causado pela taturana, sendo ele, atualmente, o único tratamento eficaz. É também de grande importância que a taturana causadora do acidente acompanhe o acidentado, para uma identificação correta.
As taturanas são insetos lentos e mansos que não pulam e nem voam, ficando, geralmente, em folhas, galhos e troncos de árvores. É nessa ocasião que são tocadas pelas pessoas. Para coletá-las basta fazer uso de pinças, gravetos ou objetos semelhantes. Podem ser levemente pinçadas e colocadas em frascos variados de boca larga ou empurradas para dentro de uma caixa através de leves toques, forçando-as a entrarem no recipiente. Caixas de sapato são excelentes para a coleta. É Importante ressaltar que a prevenção ainda é o melhor remédio contra acidentes com animais peçonhentos, e com taturanas não é diferente. Ao trabalhar na lavoura, colher frutos no pomar, ou em qualquer atividade em ambiente silvestre, observe bem os troncos, folhas, flores, gravetos antes de manuseá-los. E use luvas! Sempre!
Apesar das taturanas, transformadas em pragas, causarem acidentes e alguns prejuízos às lavouras, elas são importantes dentro do equilíbrio da natureza. Sabe-se, atualmente, que o surgimento de lonomias em abundância deveu-se ao desequilíbrio ambiental provocados por desmatamentos, queimadas, extermínio de predadores por aplicação de agrotóxicos, e por proliferação de loteamentos em áreas preservadas. Ao encontrar taturanas, não as mate. Colete-as e procure um profissional para a identificação correta e encaminhamento ao órgão competente. Desta forma, você estará colaborando com a ciência e preservando a natureza.
Fonte: Instituto Butantan – www.butantan.gov.br/materialdidático/numero6