OURO DO FROTA, O - Pirenópolis - Goiás

A história da cidade goiana de Pirenópolis começou em 1727, quando garimpeiros em busca de ouro chegaram às margens do rio das Almas e ali instalaram um acampamento depois batizado com o nome de Minas de Nossa Senhora do Rosário da Meia Ponte. Entre esses primeiros aventureiros encontravam-se Luciano Nunes Teixeira e seu genro Antonio Rodrigues Frota, que ao final de algum tempo de trabalho tornaram-se donos de grandes extensões de terra e senhores de muitos escravos negros e índios.

 

Os registros sobre esse período de tempo revelam que a abundância de ouro na região era tamanha, e a facilidade de exploração de suas jazidas tão convidativa, que a notícia da descoberta correu célere pelos caminhos que levavam àquele pedaço de chão perdido no interior brasileiro, atraindo um número cada vez maior de homens ambiciosos e truculentos. Naquela época a precariedade das estradas, as dificuldades e obstáculos naturais criados pelo clima e topografia, além da enorme distância separando os garimpos do rio das Almas da região litorânea, impunham aos viajantes o sacrifício de uma viagem que demandava meses para ser concluída, e em conseqüência disso, como a autoridade legal se mantinha distante e omissa, a ordem que vigorava em Meia Ponte era ditada por quem fosse mais forte, e sustentada à base de tiros e facadas pelos que conseguiam reunir em torno de si os capangas armados que lhes garantiam o exercício pleno do direito da força.

 

Segundo a lenda, Antônio Frota era um deles. Avarento ao extremo, ele não aceitava de bom grado a obrigação de pagar à Coroa portuguesa o imposto do quinto então exigido, ou seja, o equivalente a vinte por cento do que seus escravos conseguissem extrair das minas, e por essa razão escondia a maior parte do produto que lhe era entregue. Conta-se que para fazer isso ele primeiramente enchia com ouro em pó diversas garrafas de barro cozido, que depois eram levadas por velhos escravos aos morros adjacentes da serra dos Pirineus, e ali enterradas. E para que os pobres servos não pudessem revelar o que tinham feito, nem muito menos conduzir quem quer que seja aos lugares aonde as garrafas com o tesouro haviam sido ocultadas, o senhor das terras os sacrificava, ou então lhes cortava a língua e furava os olhos.

 

Foi dessa forma que sogro e genro enriqueceram. Do rio das Almas (assim chamado provavelmente em virtude de suas corredeiras perigosas) o ouro continuava sendo recolhido fartamente nas bateias dos lavadores de cascalho, o que permitiu a Antonio Frota construir um castelo de dois pavimentos, tendo em sua lateral direita uma torre circundada por longa escadaria, além da igreja própria consagrada a Nossa Senhora do Monte do Carmo, para que nela sua família assistisse às missas domingueiras. Diz-se que nessas ocasiões um tapete era estendido da casa de morada até o templo, a fim de que mulher e filhas do proprietário pudessem caminhar sem sujar os pés.

 

Essas três mulheres, por sua vez, esbanjavam não apenas o ouro que o rio lhes dava, mas principalmente a ostentação e arrogância dos que acham que o poder financeiro pode tudo: vestiam-se com as melhores roupas, cobriam-se de colares, anéis e braceletes, chegando a ponto de empoar os cabelos com pó de ouro quando participavam de festas nas redondezas.

 

Nessas oportunidades, a esposa vaidosa e presunçosa declarava abertamente que “era mais fácil o rio das Almas voltar e subir a serra, do que o ouro da sua família acabar”. Mas o seu marido também aprontava. Prestigiado pela Corte portuguesa de tal forma que suas terras foram até desmembradas das que pertenciam à capitania, ele em certa ocasião mandou um artesão forjar em ouro uma jóia com o formato de um cacho de bananas, enviando-o como presente à rainha.

 

Porém, na vida tudo passa. Um dia, Antônio Frota adoeceu e morreu. Pouco tempo depois o mesmo aconteceu com sua esposa, e em seguida com seu sogro. Órfãs e despreparadas para a dura e muitas vezes ingrata luta pela sobrevivência, suas duas filhas tornaram-se presas fáceis dos juízes desonestos e autoridades cobiçosas da época, que em pouco tempo lhes tomaram tudo, reduzindo-as à miséria. Dizem, inclusive, que muitos anos depois elas podiam ser vistas pelas ruas de Meia Ponte, mendigando e revirando os restos que os moradores da localidade jogavam fora.

 

Anos depois, início do século 19, o comendador Joaquim Alves de Oliveira desmontou o castelo de Antônio Rodrigues Frota para construir um casarão que se tornou conhecido como a casa das 365 janelas. E mais recentemente as ruínas da antiga sede (que ainda podiam ser vistas pelos curiosos) também desapareceram, soterradas que foram pelas obras de construção de uma pousada. Do esplendor de outrora restou apenas a lembrança do nome da família dado ao morro - Morro do Frota - onde hoje se ergue uma antena. Quanto à lenda das garrafas cheias de ouro, essa permanece viva na mente de quantos alimentam a esperança de que os casarões coloniais, ou suas redondezas, talvez escondam em suas paredes e recantos a independência financeira tão ardentemente desejada.

 

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A cidade histórica de Pirenópolis fica a 150 km de Brasília e 130 de Goiânia. Seu antigo nome - Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte – decorreu do fato de que metade de sua ponte sobre o rio das Almas foi levada por uma enchente. Seu nome atual - Pirenópolis - tornou-se oficial em 1890, inspirado no fato dela estar situada entre duas grandes elevações da Serra dos Pireneus, cujo ponto culminante, com 1.385 metros de altura, fica a apenas 18 quilômetros da zona urbana.