A palavra camisinha é de uso recente. Antes dela, o termo preferido pelo povo para identificar o “envoltório de borracha muito fina e resistente usado para cobrir o pênis no ato da cópula, a fim de evitar a fecundação da mulher ou proteger os parceiros de possíveis infecções venéreas”, era camisa-de-vênus, cuja história é das mais curiosas e interessantes (na ilustração, a "luva de Vênus, nas palavras de Shakespeare, ao lado de seu criador, o médico italiano Gabrielle Falópio).
Homens e mulheres sempre demonstraram grande preocupação em evitar uma gravidez indesejada ou o contágio por doenças sexualmente transmissíveis, e por isso vêm procurando, há muito tempo, descobrir um método que lhes permita a realização do chamado sexo seguro, cuja prática consiga afastar definitivamente essas duas possibilidades. Durante séculos, muitas experiências foram feitas nesse sentido, mas quase todas se mostraram dolorosas e absolutamente ineficazes. Entre elas, fórmulas estranhas e impensáveis nos dias atuais, como gengibre, suco de fumo ou até mesmo excremento de crocodilo, este último com um pH alcalino semelhante ao dos espermicidas modernos.
Era de se esperar, portanto, que alguém, algum dia, tenha imaginado que se conseguisse proteger o seu pênis com alguma coisa, teria resolvido o problema. Fazer isso não era tarefa difícil, porque ao contrário do que acontece em relação ao órgão sexual da mulher, o formato do membro masculino, quando em ereção, facilita as coisas. A questão era descobrir qual tipo de material poderia ser utilizado, para que ele não tirasse o prazer do coito transformando-o em um ato doloroso ou desconfortável. Os homens do antigo Egito, quando caçavam, procuravam proteger suas respectivas ferramentas contra as picadas de insetos, e para isso cobriam-nas com pedaços de tecidos ou outros materiais porosos; mais tarde, na Ásia, a idéia dos egípcios foi aproveitada para fins sexuais, mas transformada em um envoltório de papel de seda untado com óleo. Porém, e por razões óbvias, os dois procedimentos funcionavam muito mal como métodos anticoncepcionais.
Bem mais adiante, já na Idade Média, a disseminação de doenças venéreas pela Europa tornou quase obrigatória a invenção de alguma coisa que pudesse contornar ou minimizar com eficiência aquele grave problema sanitário. Em razão disso, o médico italiano Gabrielle Falópio (1523-1562), professor de Anatomia e de Cirurgia na Universidade de Pádua, considerado posteriormente como um dos grandes reformadores da Anatomia, confeccionou por volta de 1560 um forro de linho do tamanho do pênis e embebido em ervas, recomendando que homens e mulheres o usassem como preservativo contra contaminações. Mais adiante, esses preservativos passaram a ser embebidos em soluções químicas consideradas espermicidas, e depois secados.
E assim continuou sendo feito, até que cem anos mais tarde, o médico da corte de Carlos II (1630-1685), rei da Inglaterra a partir de 1649, preocupou-se com os numerosos filhos ilegítimos que resultavam das escapulidas extraconjugais do soberano, e por isso criou um protetor feito com tripa de animais, tendo uma de suas extremidades fechada com um laço (ilustração acima). Aparentemente, esse dispositivo denominado condom (camisa-de-vênus, preservativo, em português) não deveria ser muito confortável, mas sua aceitação foi grande, a tal ponto que originou a suposição de que a palavra possa ter sido criada para homenagear o doutor Quondam, o médico real e criador do preservativo.
Essa peça, ou camisinha de tripa, sobreviveu até 1839, ano em que Charles Goodyear (1800-1860), industrial norte-americano, descobriu por acaso o processo de vulcanização da borracha. A partir daí, os preservativos passaram a ser fabricados com esse tipo de material, mas como eles ainda eram grossos e caros, seus usuários os lavavam e reutilizavam várias vezes. Foi somente em 1880 que as camisinhas de látex se tornaram conhecidas do grande público, sendo aprimoradas na medida em que novos materiais foram sendo desenvolvidos, até alcançarem a durabilidade e confiabilidade que hoje oferecem a homens e mulheres em busca de proteção contra gravidez indesejada ou doenças sexualmente transmissíveis.
Mas durante a caminhada da humanidade em busca de segurança na atividade sexual, muita coisa interessante aconteceu. Como, por exemplo, nos revela a matéria publicada pelo jornal Folha de São Paulo em 31/08/2005, sob o título “Sul-africana inventa camisinha feminina antiestupro” (ilustração):
“Uma sul-africana lançou nesta quarta-feira uma camisinha feminina concebida com intuito de reverter o alto índice de violência sexual no país - cerca de 50 mil estupros são registrados por ano, mas entidades dizem que o número pode ser quatro vezes maior. Chamada de rapex, que numa tradução livre significaria estuprex, a camisinha fica enganchada ao pênis do estuprador como uma ratoeira. O invento é feito de látex e de farpas afiadas de metal e só pode ser removido por meio de cirurgia. “Eu garanto que será dolorido para o estuprador. Ele irá direto para o hospital”, disse a inventora Sonette Ehlers, 57. O rapex também protegeria a mulher de contrair o vírus HIV ou engravidar do estuprador. Uma em cada nove pessoas é portadora do vírus da Aids na África do Sul. O lançamento do preservativo, que é introduzido como os absorventes íntimos utilizados diretamente no canal vaginal, provocou uma grande polêmica na África do Sul. Entidades temem que o invento só aumente a violência dos estupradores contra a mulher. "Se a vítima estiver com esse invento, o estuprador pode ficar enfurecido e possivelmente resultar em mais dano a ela", afirmou Sam Waterhouse, integrante de uma organização voltada ao tema. Outros dizem que a nova camisinha é medieval e bárbara, uma acusação que a inventora diz que deve ser dirigida aos estupradores.