BOI-DE-MAMÃO CATARINENSE

O Bumba-meu-boi é um folguedo popular de origem nordestina. Dele se tem notícia a partir de 1840, ano em que o padre Miguel do Sacramento Lopes Gama o descreveu em texto publicado no jornal O Carapuceiro, editado por ele mesmo em Recife, capital pernambucana. Daquela época para cá, variações dessa brincadeira foram sendo criadas em outras regiões do país, como, por exemplo, o Boi-Bumbá, no Pará e Amazonas; o Bumba-meu-boi, no Maranhão, Rio Grande do Norte e Alagoas; o Boi-Calemba ou Bumbá, em Pernambuco; o Boi-de-Reis, no Ceará e Espírito Santo; o Boi Janeiro ou Boi-Estrela-do-Mar, na Bahia; e o Boi-de-Mamão, em Santa Catarina, este último constituindo uma das mais significativas manifestações da cultura popular catarinense. Presente nos municípios do litoral desse estado sulino, é em sua capital Florianópolis, no entanto, que a festa aparece com mais destaque graças ao maior número de grupos lá instalados.

 

Em matéria publicada no site www.ufsc.br, com o título Brincadeiras e Cantorias da Ilha de Santa Catarina, seu autor - Velho Bruxo - esclarece que a primeira apresentação pública documentada da festa de rua em questão foi descrita pelo jornalista e historiador José Arthur Boiteux, em seu livro Águas Passadas, de 1930. Segundo o texto mencionado, “em dezembro de 1871, o então presidente da Província de Santa Catarina, Dr. Joaquim Bandeira Gouvêa, sabedor que era da existência de um Boi-de-Mamão ali pelos lados do forte Santa Bárbara, mandou seu secretário convidar o mestre vaqueiro para que trouxesse o Boi para uma apresentação em frente ao palácio do governo, o que aconteceu durante a noite”.

 

O mesmo texto revela que a chegada do Boi a Santa Catarina provavelmente tem a ver com o aquartelamento de militares pernambucanos na região, quando da criação da província. No início, a brincadeira nordestina recebeu no Sul o nome de Boi-de-Pau, substituído posteriormente por Boi-de-Palha, Boi-de-Pano, e finalmente Boi-de-Mamão, designação atribuída ao fato de que, em certa ocasião, alguns meninos usaram um mamão verde para fazer a cabeça do boi. O curioso é que tal nome foi mantido até hoje, embora os bois se apresentem com cabeças de todos os tipos, menos de mamão.

 

Por sua vez, Valnor Beltrame, com mestrado em Artes pela Universidade de São Paulo e professor titular da Universidade do Estado de Santa Catarina, afirma que o boi-de-mamão é “uma das tradições populares mais fortes do município de Florianópolis”. E explica que ele “revela em sua manifestação um auto dramático, encenado com alegre coreografia e ao som de uma cantoria contagiante que encanta e envolve crianças e adultos. A brincadeira de Boi-de-Mamão é uma das manifestações populares mais difundidas no Estado de Santa Catarina. Tal manifestação é comumente encontrada em muitos municípios do litoral catarinense, destacando-se as regiões de São Francisco do Sul, Itajaí, Florianópolis, Tubarão e Laguna, onde diversos grupos de Boi saem com freqüência no período que antecede o Natal e vai até o carnaval. Tradicionalmente os grupos têm suas apresentações marcadas neste período, porém têm sido registradas  mudanças  significativas no  calendário nos últimos anos, não só na região de Florianópolis, que concentra a maior quantidade de grupos atuantes, como também nas outras regiões do Estado. Constatamos que o calendário tradicional do ciclo natalino, que caracteriza o período de saída dos Bois, tem se ampliado para todo o ano”.

 

O enredo da brincadeira é baseado na fragilidade do homem diante da força bruta do boi, ressaltando, porém, a inteligência humana face à estupidez animal. O elemento principal da festa é o boi, preparado com uma armação de madeira e bambu coberta por um pano branco - ou preto - com remendos coloridos, imitando as manchas de sua pelagem. A cabeça é uma caveira de boi, os olhos, feitos com fundo de garrafa ou papel brilhante, e a língua, uma tira de pano vermelho, pendente. A apresentação  aborda a pantomima das investidas do animal, sua morte, a encenação da cura envolvendo alguns personagens, como Mateus, Vaqueiro, Doutor e Urubu, culminando com a ressurreição.

 

Figuras obrigatórias do ritual também são a Bernunça comedora de gente, um misto de dragão com boca de jacaré; a Maricota, boneca com três metros de altura; além do urso, do macaco, dos palhaços, mascarados e outras mais, dependendo da região onde ele é apresentado. A cantoria acompanha toda a apresentação, entoando versos alusivos às figuras e à dramatização, e o chamador, acompanhado por coro e instrumentos musicais, dá seqüência à entrada e saída das figuras.  É ele que comanda a apresentação, cantando em versos tradicionais e improvisados, chamando as diversas figuras que desenvolvem a trama dançada ao som da cantoria. O boi, principal personagem que centraliza mais ou menos os demais, morre em determinado momento, para adiante ser revivido milagrosamente. Não existe um número definido de figuras, dependendo do lugar e do grupo que apresenta a dança, não sendo rara a inovação.

 

Em Florianópolis, grupos folclóricos apresentam o Boi-de-Mamão em danças alegres, fazendo brincadeiras, encantando crianças e adultos. As figuras dançam ao som da cantoria, com o chamador que canta os versos convocando a cabrinha, a terrível Bernúncia, "que comeu Mané João e come tudo que lhe dão", Dona Maricota, com seus três metros de altura, e seu nariz pimentão, distribuindo carícias, com braços longos e mãos espalmadas.