Folclore é o conjunto das tradições, crendices ou conhecimentos de um povo, manifestadas em provérbios, narrativas, contos e canções. Entre eles estão os folguedos, festas populares realizadas anualmente em diversas regiões do país, muitas delas com origem na religião católica, em cultos africanos ou na combinação dessas duas manifestações místicas.
Uma das festas é a do bumba-meu-boi, divertimento comum no Nordeste brasileiro durante o período que vai do Natal ao dia de Reis (06 de janeiro), embora existam versões diferentes dessa mesma representação, como a do boizinho, no Rio Grande do Sul, a do boi-de-mamão, no litoral de Santa Catarina, e a do boi-bumbá, realizada no mês de Junho em Parintis, Amazonas. A festa do bumba-meu-boi em São Luis, no Maranhão, tradição que se mantém desde o século 18, arrasta maranhenses e visitantes por todos os cantos da cidade nos meses de junho e julho. As publicações oficiais sobre tal evento dizem que longe de ser uma festa criada para atrair turistas, os bois se espalham nas periferias e no centro da capital maranhense, em sua parte nova ou antiga, onde grupos oriundos de todo o estado se reúnem em diversos arraiais para brincar até alta madrugada.
A festa do bumba-meu-boi começou no Nordeste, provavelmente no final do século 18, quando os escravos cuidavam do gado pertencente aos colonizadores, e seria resultado da mistura entre tradições africanas (boi geroá) e européias (touradas espanholas e corridas de novilhas portuguesas). O documento mais antigo sobre ele é datado de 1791, e foi escrito pelo padre Miguel do Sacramento Lopes Gama, num jornal de Recife. O tema dessa espécie de ópera popular focaliza o rapto, morte e ressurreição do boi, numa encenação que simboliza a rotina na atividade pastoril e engloba vários estilos musicais, como a dos aboios, toadas e repentes, executados em instrumentos de percussão ou de cordas. Acredita-se que a palavra bumbá reproduza o som de um tambor grande chamado zabumba, mas outra explicação sugere que se trata de uma interjeição cujo significado é o de vamos, meu boi, agüenta, meu boi, ou bate, meu boi.
A história do bumba-meu-boi pode ser contada de maneiras diferentes, mas o enredo básico é o de que a escrava Catarina (ou mãe Catarina), que estava grávida, pediu ao marido Chico (pai Francisco) para matar o boi mais bonito da fazenda, pois desejava comer a sua língua. Ele satisfaz o desejo da mulher, mas acaba sendo preso pelo feitor da fazenda, que busca a ajuda de curandeiros na tentativa de fazer reviver o animal. E quando isso acontece, tudo acaba em festa. Outros personagens participam da história, como Bastião, Arlequim, Pastorinha, Turtuquê, o engenheiro, o padre, o médico e o diabo, quase sempre interpretados por homens que se vestem como mulheres para compor os personagens femininos. Quanto ao boi, figura central da representação, seu corpo é armado com cipó coberto de chita, enquanto a cabeça pode ser feita com papelão, ou então com a própria caveira dom animal.
Embora existam variações de uma região para outra, normalmente as representações obedecem a uma determinada ordem. Canta-se primeiramente uma toada que serve para juntar e organizar o grupo, antes de ir para a casa. Em seguida entoa-se o Lá Vai, uma canção para avisar o dono da casa e a todos que o boi deu a partida. Depois disso vem a Licença, em que o boi e o grupo se apresentam entoando louvores a santos, a personalidades e a vários outros temas (natureza, personagens folclóricos, etc.). Ao final da apresentação, o grupo e a platéia cantam juntos o Urro do Boi e a Toada da Despedida.
Em www.cidadeshistóricas.art.br, lê-se que o modelo atual de apresentação dos bois não narra mais toda a história do auto, dando lugar à chamada meia-lua, de enredo simplificado. Atualmente existem quase cem grupos de bumba-meu-boi na cidade de São Luis, subdivididos em diversos conjuntos. Cada conjunto tem características próprias que se manifestam nas roupas, na escolha dos instrumentos, no tipo de cadência das músicas e nas coreografias.
O de Matraca, por exemplo, “também conhecido como Ilha, surgiu em São Luis e é o preferido de seus habitantes. O instrumento que lhe dá o nome é composto por dois pequenos pedaços de madeira, o que motiva os fãs de cada boi a engrossarem a massa sonora de cada ‘batalhão’. Além das matracas, são usados pandeiros e tambores-onça (uma espécie de cuíca com som mais grave). Na frente do grupo fica o cordão de rajados, com caboclos de pena”. Já o conjunto da Zabumba “com ritmo original do bumba-meu-boi (...), marca a presença africana na festa. Pandeiros, maracás e tantãs, além das zabumbas, dão ritmo para os brincantes. No vestuário, destacam-se golas e saiotes de veludo preto bordado, e chapéus com fitas coloridas. O Zabumba vive em crise há alguns anos devido à falta de novos interessados em manter as tradições do mais antigo estilo de boi”.
O conjunto Orquestra, por sua vez, incorpora outras influências musicais, dando ao bumba-meu-boi “o acompanhamento de diversos instrumentos de sopro e cordas, como o saxofone, clarinete e banjo. Peitilhos (coletes) e saiotes de veludo com miçangas e canutilhos, são alguns dos detalhes nas roupas dos figurantes”. O conjunto da Baixada, embalado por matracas e pandeiros pequenos, tem como um dos seus destaques o personagem Cazumbá, mistura de homem e bicho vestido com uma bata comprida, máscara de madeira e chocalho na mão. Já o Costa de Mão (típico da região de Cururupu), cujo nome é derivado dos pandeiros pequenos que usa, tocados com as costas da mão, completa sua bateria percussora com caixas e maracás. Além das roupas em veludo bordado, os integrantes desse conjunto também usam chapéus em forma de cogumelo, com fitas coloridas e grinaldas de flores.
Atualmente, também participam dos arraiais os grupos alternativos, que não são incluídos na programação oficial por terem pouco tempo de existência, ou então porque incorporam novos elementos ao ritmo do bumba-meu-boi. Um dos mais conhecidos, o Boi Pirilampo, vem atraindo muitos seguidores por usar instrumentos elétricos - como guitarra e baixo - em suas apresentações.