CÍRIO DE NAZARÉ

O século 18 aproximava-se do seu final quando o lenhador Plácido José de Souza deixou sua casa na estrada de Utinga, proximidades de Belém de Pará, e se dirigiu ao igarapé Murutucú, onde pretendia caçar. Horas mais tarde, já cansado de andar sem sucesso pela mata, ele resolveu banhar-se no referido curso d’água, e quando chegou lá encontrou uma imagem de Nossa Senhora entre as pedras cobertas de lodo. Católico fervoroso, o lenhador a levou consigo, e tão logo chegou à sua cabana preparou um altar humilde onde colocou a pequena escultura e a venerou durante parte da noite, até a hora de dormir.

 

No dia seguinte, ao acordar, constatou que a imagem havia desaparecido, e como não conseguia encontrar explicação para o acontecido saiu caminhando sem rumo até se dar conta de que voltara ao igarapé, avistando a santa no mesmo lugar onde ela se encontrava na tarde anterior.

 

Isso se repetiu várias vezes, inclusive quando o governador foi buscá-la e a levou para o palácio, colocando-a sob vigilância severa. Aí todos compreenderam que o desejo de Nossa Senhora era permanecer junto ao igarapé, e por isso ergueram lá mesmo a sua primeira ermida, uma capelinha de taipa feita por diversas mãos, para onde acorria um número sempre crescente de fiéis em busca dos milagres anunciados por muita gente. Em 8 se setembro de 1783 realizou-se ali o primeiro Círio, com grande acompanhamento do povo e presença da cavalaria militar, toques de clarins e filas de automóveis transportando parte da sociedade paraense de então, sendo a imagem conduzida no colo do arcebispo José Monteiro de Noronha, governador do bispado, acomodado ao lado de Francisco Coutinho, governador estadual. Em 1792, foi autorizada pelo Vaticano a realização de uma procissão, em Belém, em homenagem à Virgem de Nazaré, mas no início, não havia data fixa para a comemoração religiosa, que poderia ocorrer nos meses de setembro, outubro ou novembro. Foi só a partir do ano de 1901, por determinação do bispo Dom Francisco do Rego Maia, que a procissão passou a ser realizada sempre no segundo domingo de outubro.

 

Escrevendo sobre o primeiro Círio, o historiador Arthur Viana revelou:

 

“A imagem foi transportada na véspera d’aquele dia à noite da ermida para o palácio do governo. Pela iluminação de azeite da cidade, escoou-se a multidão que cercava o carro da santa até desembocar no largo da Campina, então sem as suas lâmpadas de arco voltaico, sem o seu belo teatro, sem seus circos e restaurantes, e apenas com seu belo cemitério, lúgubre, onde jaziam cadáveres dos infelizes escravos e dos pobres flagelados pela varíola. [...] No dia seguinte, à tarde, com todo o esplendor possível a uma estréia, desfilou do palácio a romaria; na frente e no couce (retaguarda) marchava toda a tropa da cidade”.


Daí para frente a festa cresceu em expressão, três capelas foram construídas ao longo dos anos, tendo as obras da atual basílica sido iniciadas em 1909. A transladação do Círio é feita no sábado, e o Círio no segundo domingo de outubro, quando o primeiro trajeto da imagem é repetido em procissão, mas a festa tem duração de quinze dias, comparecendo a elas fiéis de todo o Brasil para pedir graças ou pagar as alcançadas. Tradicionalmente, a imagem é levada da Catedral de Belém à Basílica Santuário, mas ocorreram adaptações ao longo dos anos. Uma delas, em 1853, motivada pela chuva torrencial, quando a procissão – que ocorria à tarde – passou a ser realizada pela manhã.

 

Os paraenses dão ao Círio de Nazaré importância equivalente ao Natal, preparando ceias com pratos típicos, trocando presentes, e em alguns casos dando aos trabalhadores uma gratificação semelhante à do 13º salário. À noite o espetáculo é ver a Basílica iluminada com mais de quatro mil lâmpadas destacando seus contornos.

 

A devoção a Nossa Senhora de Nazaré teve início em Portugal. A imagem original da Virgem pertencia ao Mosteiro de Caulina, na Espanha, e teria saído da cidade de Nazaré, em Israel, no ano de 361, tendo sido esculpida por São José. Em decorrência de uma batalha, a imagem foi levada para Portugal, onde, por muito tempo, ficou escondida no Pico de São Bartolomeu. Só em 1119, a imagem foi encontrada. A notícia se espalhou e muita gente começou a venerar a Santa. Desde então, muitos milagres foram atribuídos a ela.