CATIRA (CATERETÊ)

Conhecido desde os tempos coloniais, o cateretê, ou catira, é uma dança praticada até hoje principalmente nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Minas Gerais e Goiás. Muitos estudiosos atribuem-lhe origem indígena, sugerindo que ela fazia parte dos cantos de danças dos índios brasileiros, mas alguns outros defendem a versão de que foram os negros africanos que a trouxeram para o país.

 

Reforçando a primeira hipótese existem relatos de que o cateretê foi aproveitado pelos jesuítas em seu trabalho de catequese, mas trocando as palavras dos cantos pagãos por lições de catecismo, ao mesmo tempo em que usavam o som da viola como acompanhamento musical dessas aulas cantadas. Foi depois disso, segundo informações disponíveis, que a cultura européia e os costumes africanos passaram a exercer forte influência sobre o cateretê, provocando, inclusive, a utilização do nome catira em substituição ao original.

 

O catira é uma dança aonde duas fileiras de dançadores se defrontam frente a frente, fazendo evoluções. Antigamente, delas só participavam homens, mas atualmente fileiras mistas, ou até mesmo só de mulheres (como as catireiras de Ituiutaba, no Triângulo Mineiro), executam a coreografia, sempre acompanhadas pela música de violas executada por tocadores que além de serem os únicos a cantar, comandam a seqüência de passos e a batida dos pés, também participando, vez ou outra, desse sapateado. Cinco pares de dançarinos compõem essas duas fileiras, ficando à frente de uma delas o violeiro-cantador que é o mestre, responsável pela primeira voz, e da outra o contramestre, que faz a segunda voz, o primeiro tendo ao lado o tirador de palmas, e o segundo, o tirador de sapateado, funções que também podem ser desempenhadas por uma só pessoa.

 

No litoral, região que se estende de Angra dos Reis, Rio de Janeiro, à baía de Paranaguá, Paraná, o catira era dançado usando-se tamancos de madeira, enquanto nas zonas pastoris paulistas - Barretos, Guaratinguetá, Itararé e sul do estado, além do sul de Minas, norte do Paraná e Goiás - usavam-se grandes esporas chilenas para retinir melhor o som. Em muitos locais desses estados, a dança era executada com os pés descalços, e durante sua execução, o catireiro procura sempre "pisar as cordas da viola", ou seja,  ele busca sincronizar o bater de pés e mãos com o toque do instrumento.

 

Enquanto os violeiros cantam temas que falam sobre o dia-a-dia, trabalho, amores e outros assuntos, os dançarinos permanecem sem sair do lugar, apenas movimentando o corpo. Quando a cantarola termina, aí então a dança se inicia com os catireiros batendo os pés com força no assoalho, num sapateado ruidoso e ritmado, ao mesmo tempo em que vão trocando de lugar com os companheiros, seguindo os violeiros em círculo ou fazendo lindas coreografias que exigem grande esforço físico, para finalmente voltarem aos lugares onde estavam. Nesse momento os violeiros dão início ao recortado, uma variedade musical encantadora e que tão bem representa a singeleza do homem do interior brasileiro.

 

A dança do cateretê recebe várias denominações, como Catira, talvez a mais conhecida, Xiba, Bate-pé e Fandango, e na descrição feita por Carlos Eduardo Senju, o Dudu da Viola, sua coreografia é a seguinte:

 

“Feita a forma, os violeiros dão uns arpejos, pedindo licença para cantar. Cessado o canto da primeira estrofe, os violeiros saem dos seus lugares, por fora das colunas, em passo normal, andando naturalmente, vão até a extremidade da fila, sendo acompanhados por seus respectivos companheiros de coluna. Param. Depois de uma pequena pausa, trocam de lugar (inclusive os dançantes) acompanhando o rítmo, cruzando pelo centro da coluna. A essa figura chamam de 'vorteá e cruzá'. A volta é feita para cumprimentar os assistentes. Esse cumprimento não se manifesta por movimentos de cabeça ou outro gesto, mas apenas pelo significado da figura da volta que é conhecida como 'fazer vênia'. Tal volta é realizada com os violeiros arpejando as violas e não há repetição. Findado tudo isso, os violeiros dão início à moda, que é cantada a duas vozes. Os dançadores ficam parados em seus lugares e, quando os violeiros finalizam a estrofe, o puxador de palmas e/ou pés dá início à dança. Assim, vão alternando batidas de pé, palmas e a cantoria. Para finalizar a moda, os violeiros fazem a 'suspendida'. Essa consiste na inclusão de versos a mais que as estrofes anteriores. Cantam esses versos uma oitava acima, geralmente em falsete. Ao finalizar a estrofe, eles param de dedilhar as violas e então está terminado o cateretê. Os dançadores deixam seus lugares, enxugando o suor do rosto”.