PEIXE-OGRO

Segundo contam as lendas de vários povos europeus, ogro era um gigante que se alimentava de carne humana, e seu nome provém da mitologia escandinava. Conforme relatam histórias muito espalhadas, a simples alusão de que ele poderia aparecer a qualquer momento assustava as criancinhas, que seriam o seu petisco favorito. Pois ogro é também o nome popular de um peixe (Anoplogaster cornuta) pouco conhecido porque habita as profundezas abissais do oceano Pacífico, principalmente ao largo da costa da Austrália.

 

Zona abissal é a expressão da biologia marinha que se refere ao ecossistema situado na região mais profunda dos oceanos, para além do talude continental, onde o leito oceânico situa-se a uma profundidade superior a 5.000 metros. Essa região não é alcançada pela luz do Sol, e nela a pressão da água atinge níveis intoleráveis para o ser humano. As zonas abissais representam 42% dos fundos oceânicos, habitat onde vivem poucos seres vivos em razão da pobreza de nutrientes e da baixa temperatura. Nessas regiões estão situadas as fossas abissais, cujas profundidades são ainda maiores. A conhecida como Challenger Deep, na Fossa Mariana, próxima das Filipinas, no oceano Pacífico, é a mais profunda já descoberta, alcançando 10.914 metros abaixo do nível do mar.

 

Pouca coisa se conhece sobre o peixe ogro. Sabe-se, porém, que ele vive entre 500 e 5 mil metros de profundidade, e chega a ter até 18 centímetros de comprimento. Os grandes dentes que possui impedem que feche totalmente a boca, mas prendem a presa, que é sugada para dentro de sua cavidade bucal e não consegue mais sair. No que diz respeito à sua cabeça, ela contém várias mucosas e cavidades separadas por pontas cortantes. Capaz de viver em ambientes de frio intenso, ele é capaz de suportar temperatura da água bem próxima à de congelamento.

 

Assim como acontece com o ogro, a região abissal dos oceanos (abaixo dos dois mil metros), considerada como o maior ecossistema do planeta, serve de habitat a outros peixes tão bizarros quanto ele, mas os cientistas ainda têm muitas dúvidas a respeito da vida dessas estranhas criaturas. Nessa região, a escuridão é total, a temperatura varia de 0 a 4°C, e a pressão é capaz de esmagar um cilindro de oxigênio. Os seres que vivem nesse lugar tão inóspito desenvolveram sofisticadas estratégias de sobrevivência, e por isso mais da metade das criaturas abissais é capaz de gerar sua própria luz (bioluminescência), que é produzida por pequenos órgãos conhecidos como fotóforos, num fenômeno similar ao dos vaga-lumes. Os peixes abissais são quase sempre carnívoros, pois a quantidade de algas disponíveis nos locais onde vivem é pequena. Por causa da escassez de comida, muitas espécies têm dentes monstruosos que lhes servem para garantir a captura de qualquer presa que passe por perto.   

 

Diante do desconhecimento da população sobre as criaturas das profundezas dos oceanos, uma exposição foi organizada pelo Museu Natural de Londres, oferecendo ao público a mostra de farto material sobre elas, que sobrevivem em ambiente menos explorado pelo homem do que a superfície da Lua. As criaturas bizarras da exposição The Deep se adaptaram à vida a até onze mil metros de profundidade, na escuridão, com temperaturas abaixo de zero e com uma pressão até mil vezes superior à pressão atmosférica.

 

Acredita-se que apesar de todas essas dificuldades, a biodiversidade existente no fundo dos oceanos possa ser tão rica quanto a existente nas florestas tropicais ou nos recifes de coral. Para viver nas profundezas, algumas das criaturas mostradas na exposição desenvolveram habilidades incomuns, como a de produzir a própria luz ou aparentar invisibilidade.

 

A carcaça e a maquete de uma baleia cachalote estão entre os destaques da exposição. No fundo do oceano, os restos de uma baleia morta podem servir para alimentar outras criaturas por até cinqüenta anos.