BARBEIRO

Os barbeiros, também chamados chupões, chupanças, bicudos, fincões ou procotós, são insetos muito conhecidos das populações rurais de várias regiões do Brasil. De tamanho relativamente grande, geralmente pretos ou acinzentados, possuem manchas vermelhas, amarelas ou alaranjadas ao redor de seu abdome. Em sua fase adulta apresentam dois pares de asas, das quais a parte superior compõe-se de uma parte mais endurecida e outra mais fina. Por isso são chamados hemípteros, quer dizer, sua asa é metade dura e metade flexível.

 

Os barbeiros são insetos largamente difundidos nas Américas, sendo encontrados desde o sul dos Estados Unidos até o sul da Argentina. Sua importância é grande, pois podem ser transmissores de uma grave doença para o homem - a Doença de Chagas. Existem mais de 100 espécies de barbeiros. Algumas vivem somente na mata, mas outras se adaptaram totalmente à casa do homem. Um terceiro grupo de espécies encontra-se em transição, habitando ao redor das casas e sendo capazes de viver tanto nessas como nas florestas. Todos são capazes de transmitir a Doença de Chagas, desde que contaminados pelo micróbio causador, mas os mais perigosos são realmente os barbeiros domésticos, por estarem mais próximos do homem.  

 

Como os demais seres vivos, os barbeiros necessitam de abrigo e alimento, razão pela qual procuram se abrigar em locais próximos à sua única fonte de alimentação, que é o sangue. Por isto são chamados hematófagos. Eles podem alimentar-se de qualquer tipo de sangue, seja de ave, mamífero, homem, ou mesmo animais de sangue frio, daí serem encontrados em ninhos, em casas, em buracos de tatus, em galinheiros, etc. Para se alimentarem, os barbeiros utilizam sua boca especial - a tromba - que funciona como uma agulha de injeção. Esta é introduzida através da pele do animal em que ele vai se alimentar, e por ela o barbeiro chupa (suga) o sangue de que necessita. De modo geral cada inseto suga, por vez, de 0,5 a 1,5 cm3 de sangue, demorando 10 a 20 minutos para fazê-lo. É importante que a pessoa ou animal sugado esteja quieto durante a alimentação do barbeiro e por isso este prefere procurar indivíduos durante o sono.

 

A picada do inseto não é dolorosa, mas acompanhada de pequena coceira: o barbeiro possui, em sua saliva, uma substância que anestesia o local onde introduz sua tromba. Uma vez alimentado, novo repasto só será necessário de 7 a 14 dias depois, dependendo das atividades do barbeiro, da temperatura ambiente, etc. No calor, há necessidade de intervalos mais curtos entre as refeições, mas no inverno, quando menos ativos, os barbeiros podem permanecer semanas ou meses em jejum. Importante é a particularidade de que quase sempre os barbeiros evacuam logo após uma refeição: o problema é que nas fezes dos barbeiros contaminados estão os tripanosomas, micróbios causadores da Doença de Chagas. Penetrando pelo próprio local da picada do barbeiro, esses micróbios poderão invadir a pessoa ou animal sugado quando este se coça, e assim acontece a transmissão da Doença de Chagas. Todos os barbeiros nascem livres do micróbio da Doença de Chagas, mesmo que seus pais estejam infectados, mas o adquirem quando sugam uma pessoa ou animal contaminado. Essa é a razão pela qual encontramos na natureza muitos barbeiros não infectados, principalmente aqueles que só se alimentam do sangue das aves, pois essas não albergam o Trypanosoma cruzi (na ilustração, imagem microscópica).

 

Um barbeiro vive em média de um a dois anos. Na época da postura a fêmea adulta coloca 1 a 2 centenas de ovos, que se abrem por volta de quatro semanas depois, deixando sair uma forma jovem de barbeiro denominada larva (alguns dias depois ela já sairá à procura de sangue). Após sua primeira refeição a larva sofrerá mudanças em seu corpo, com perda de sua pele também chamada casca. Este fenômeno chama-se muda, ou ecdise, e serve para possibilitar que o inseto sofra algumas transformações e aumente o seu tamanho, enquanto a nova casca ainda está mole e flexível. O barbeiro passa ao todo por cinco mudas, até atingir o estágio adulto. Esse se diferencia dos anteriores pelo seu maior tamanho, pela presença de asas completas e pelo aparelho sexual totalmente desenvolvido, portanto apto à procriação. A fêmea adulta diferencia-se do macho pela presença de uma protuberância em sua extremidade traseira, denominada ovopositor, porque se destina à postura de ovos. Cada macho pode fecundar várias fêmeas. Através de uma única relação sexual, serão fecundados praticamente todos os ovos daquela postura.  

 

De modo geral a vida do barbeiro é simples e sem grandes exigências. As diversas espécies podem adaptar-se a diferentes fontes alimentares e variações ambientais. Os barbeiros podem ser facilmente criados em laboratório, servindo para inúmeras experiências de Biologia e alguns testes e pesquisas acerca da doença de Chagas. Entre nós, a maioria dos barbeiros prefere as temperaturas ao redor dos 28 graus centígrados e ambientes não excessivamente úmidos. Procuram fugir dos lugares muito iluminados, pois a luz os incomoda. Por isto, no seu ambiente natural eles se abrigam em frestas e lugares escurecidos, saindo à noite para procurar alimento.

 

Os barbeiros são lentos, pouco agressivos e de pequena mobilidade. Relativamente pesados, caminham o mínimo necessário para encontrar sua fonte alimentar e achar seu abrigo. De modo geral, só mudam de ambiente por falta de comida ou diante de uma ameaça a suas vidas, mas é comum serem transportados nas penas das aves ou pelos animais em cujo ninho habitavam, ou então nas roupas, móveis, lenha e outros objetos carregados pelo homem. Seus inimigos naturais são algumas formigas e abelhas, certos tipos de insetos predadores, galinhas, outras aves e o próprio homem. O micróbio da Doença de Chagas parece não afetar os barbeiros contaminados.

 

As características de vida dos barbeiros são importantes para o controle da Doença de Chagas. No ciclo dessa moléstia, o barbeiro representa apenas o papel de vetor intermediário, e somente o seu contato com o homem é que traz a este - acidentalmente - a doença que afeta e que já dizimou milhares e milhares de seres humanos.

 

Fonte: Biblioteca Virtual Carlos Chagas