O adjetivo à-toa é um brasileirismo com significado de irrefletido, insignificante, inútil e desprezível, algo que não tem objetivo, préstimo, fim ou exige pouco trabalho para ser feito. Toa, por sua vez, quer dizer reboque, corda estendida de uma embarcação a outra para rebocar, e corresponde à palavra inglesa tow, cuja pronúncia é tou, com tradução de rebocar, reboque ou cabo de reboque, uma corda longa e grossa usada pelos rebocadores para puxar ou arrastar outras embarcações maiores quando elas se aproximam ou se afastam da linha do cais, ou então empurrá-las para a vaga que ocuparão em qualquer ponto do atracadouro.
Mas como é praticamente impossível aos oficiais dos grandes navios manobrá-los com seus próprios comandos nos espaços limitados do porto para encostá-los lateralmente aos locais de embarque e desembarque de cargas e passageiros, a ajuda dos rebocadores é imprescindível nessas horas, porque sendo eles pequenos navios equipados com motor de grande força, podem acelerar e simplificar a operação, minimizando o risco de acidentes que ocasionem prejuízos às embarcações, à sua carga, ou até mesmo às próprias instalações portuárias que vão ser usadas.
Apesar disso os desastres acontecem, e um deles foi relatado em 04 de outubro de 1913, pelo jornal O Correio Paulistano:
"Nos dias finais do mês de Setembro e do início de Outubro de 1913, uma esquadra da Marinha Brasileira realizava exercícios de manobras na região da Ilha de S. Sebastião, no Estado de São Paulo. Na madrugada do dia 03 de Outubro, a esquadra se preparava para realizar um combate simulado quando uma tragédia a atinge. O rebocador GUARANY, que transportava a bordo mais de 50 pessoas entre oficiais e taifeiros, além de uma guarnição de guardas-marinha que foram assistir as manobras, é atingido duramente, a 10 milhas do farol da Ponta do Boi, pelo rebocador do Lloyd Brasileiro BORBOREMA. Este rebocador de alto mar fora construído em 1912, possuía 514 toneladas de deslocamento e motores com uma potência total de 850 Hp que permitiam sua navegação numa velocidade de 11 nós. O impacto foi muito forte, muitos tripulantes do rebocador foram atirados ao mar e, em apenas 2 minutos, a embarcação se parte ao meio e naufraga, levando para o fundo muitos dos tripulantes que se encontravam em seu interior. Os que puderam se refazer do impacto inicial buscaram se agarrar a algo que flutuasse enquanto aguardavam o socorro. Dada a velocidade do naufrágio, eles só poderiam contar com o auxílio do próprio BORBOREMA que, levou entre 20 e 40 minutos para poder manobrar e descer dois escaleres para recolher os náufragos. Inicialmente as declarações publicadas nos jornais afirmavam que o comandante do cargueiro 'criminosamente' não havia prestado socorros aos náufragos e se afastara do local, fato que provocou sua prisão quando da chegada de sua embarcação ao porto do Rio de Janeiro. Declarações posteriores, sejam elas dos próprios náufragos bem como da tripulação do cargueiro, comprovaram que o comandante Timótheo Évora da Silveira fez o que pôde em socorro das vítimas tendo recolhido 20 sobreviventes com seus escaleres. Quanto ao BORBOREMA, sofreu pequenas avarias e, com as mesmas reparadas e o resultado do inquérito instaurado sobre o sinistro divulgado (em 17.10.1913, com o veredicto de 'casualidade'), pode ser carregado e realizou viagem, partindo em 06 de Novembro para Porto Alegre, com escalas".
Não é difícil imaginar a dificuldade enfrentada pelos profissionais dessa área quando estão empenhados na tarefa de empurrar ou arrastar grandes embarcações com milhares de toneladas de carga em seus porões, para aninhá-las no cais em espaço a elas reservado, pouco maior que o comprimento total do próprio navio, e quase sempre entre dois outros já atracados. Por isso, quando os barcos que partem ou chegam estão sendo rebocados, seus tripulantes se transformam em assistentes do que está acontecendo, já que não têm mais nada a fazer. A corda com que o rebocador se liga ao navio faz com que este o acompanhe na direção em que avança, e por isso ao marinheiro da embarcação conduzida só resta aguardar o término da operação em andamento.
Porém, o passar dos anos fez com que o entendimento dessa situação de ociosidade momentânea, provocada pelo rebocador fazendo andar com a corda, ou com a tou, o navio preso a ele, foi sendo transferido pelos homens do mar ao indivíduo que prefere permanecer de papo pro ar, sem fazer nada, enquanto os outros trabalham. Daí, por analogia, o surgimento da expressão brasileira andar à-toa, que cai como uma luva nos que acreditam naquela velha história de que quem trabalha, cansa, e por isso eles acham melhor continuarem descansados.