Na Bíblia, primeira epístola de São João (5:16,17), está escrito: “Se alguém souber que seu irmão comete um pecado que não o conduza à morte, reze e Deus lhe dará a vida; isto para aqueles que não pecam para a morte. Há pecado que é para a morte; não digo que se reze por este”. Já em Gênesis (41:15;16), lê-se: “Este disse-lhe: “Tive um sonho que ninguém pode interpretar. Mas ouvi dizer de ti, que basta contar-te um sonho para que tu o expliques.- Não sou eu, respondeu José, mas é Deus quem dará ao Faraó uma explicação favorável”.
Muitos certamente encontrarão nessas duas citações o argumento de que precisam para explicar a origem da expressão “ao Deus dará”, usada comumente no sentido de classificar alguém ou alguma coisa em estado de penúria, de abandono, largado ao acaso, entregue à própria sorte, sem rumo, e outras definições assemelhadas. Ou seja, a de que a mão divina é sempre capaz de dar ao necessitado aquilo que ele precisa. Aliás, ao interpretar a frase-feita o lexicólogo português Cândido de Figueiredo (1846-1925), em seu Novo Dicionário da Língua Portuguesa, 1922, recorre à definição de Guilherme Augusto Simões, em Dicionário de Expressões Populares Portuguesas, Lisboa, que diz: “(...) ao pedido de esmola que os mendigos antigamente faziam - ‘Uma esmolinha, pelo amor de Deus’ -obtinham como resposta daqueles que nada queriam dar - ‘Deus dará’. Assim sendo, quem andava a mendigar, o fazia, conseqüentemente, ao Deus dará”.
Isso do lado de lá do Atlântico, na Europa, porque do lado de cá, no Brasil, Reinaldo Pimenta, em “A Casa da Mãe Joana - 1”, esclarece que “no século 17, vivia em Recife, Pernambuco, um comerciante chamado Manuel Álvares, que ajudava os soldados que a Fazenda Real deixava de abastecer. Quando ele não dispunha das mercadorias necessárias, dizia sempre ‘Deus dará!’. De tanto repetir a frase, ficou conhecido como Manuel Álvares Deus Dará. E os soldados, quando precisavam recorrer a ele, diziam: ‘Vamos ao Deus dará’. O ‘sobrenome' acabou até passando para os descendentes do comerciante: um dos filhos, provedor-mor da Fazenda, chamava-se Simão Álvares Deus Dará”.
Deonísio da Silva, em De Onde Vêm as Palavras - II, associa as duas explicações: “Esta famosa frase serviu originalmente de resposta a quem não queria dar esmolas. Homens duros de coração respondiam aos mendigos que lhes estendiam a mão: Deus dará. Eles não. Quem dependia da caridade pública fica em má situação, ao Deus dará. A expressão cristalizou-se de tal forma que no século 17, um negociante português que vivia no Recife, de tanto proferir a frase, passou a tê-la acrescentada ao próprio nome. Ficou conhecido como Manuel Álvares Deus Dará. Seu filho, Simão Álvares Deus Dará, foi provedor-mor da Fazenda do Brasil”.
Enquanto Marcelo Duarte, em O Guia dos Curiosos - Língua Portuguesa, informa que “Pedir esmolas nas ruas é uma atividade bem mais antiga do que se imagina. No passado, muita gente driblava as mãos estendidas dos pedintes dizendo ‘Deus dará'. A expressão foi criando forma e passou a designar algo que fica entregue à própria sorte”.
E é assim, com essa multiplicidade de sentidos e intenções, que a expressão Ao Deus dará vem sendo usada de norte a sul do país por gente de todas as classes sociais, mercê, entre outras coisas, da divulgação que ela deve agradecer inclusive ao refrão presente na letra da música denominada Partido Alto, do compositor Chico Buarque:
“Diz que deu, / Diz que dá, / Diz que Deus dará. / Não vou duvidar, ó nega. / E se Deus não dar, / Como é que vai ficar, oh nega? / Deus dará, Deus dará”.
Ou então ao fado Ao Deus dará, de Tiago Fontes da Silva e Fontes Rocha, que diz em um dos seus versos:
“Mas deixou-se ao Deus-dará / como um velho que descobre / naquela esmola que dá / uma razão pra ser pobre”.
A expressão também é aproveitada com relativa constância pelos autores de livros e novelas. Entre os exemplos, o do escritor Ian McEwan, um dos responsáveis pela renovação da linguagem na literatura britânica contemporânea, e criador de Ao Deus-Dará, fábula irônica e trágica sobre os relacionamentos afetivos.